Criado após crime que chocou o país, grupo visa acelerar apuração de milhares de casos de violência contra a mulher. Especialistas apontam que a vítima viveu um ciclo de abuso psicológico antes de ser assassinada.
O feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, brutalmente assassinada a facadas pelo ex-noivo Caio Nascimento em fevereiro deste ano, motivou a criação de um grupo técnico especial pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. Desde então, o time, que atua para dar celeridade aos casos represados na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), já instaurou mais de 3 mil inquéritos em Campo Grande.
A informação foi confirmada pelo delegado-geral da Polícia Civil, Lupérsio Degerone, em entrevista ao Jornal Midiamax, nesta terça-feira (13). Segundo ele, o grupo foi formado com o objetivo de destravar cerca de 6 mil boletins de ocorrência parados, muitos deles sem andamento por falta de localização das vítimas, dos agressores ou por ausência de provas.
“O grupo que compõe o GT é altamente qualificado e vem se dedicando intensamente à análise e instauração dos inquéritos. O resultado está sendo refletido nesses números expressivos de procedimentos formalizados”, destacou Degerone.
Prazo será prorrogado
Inicialmente, o grupo teria 90 dias para concluir os trabalhos, prazo que deve ser prorrogado devido à complexidade e volume de casos. Ainda assim, o delegado acredita que os trabalhos podem ser concluídos antes do novo limite temporal.
Em abril, cerca de mil inquéritos já haviam sido instaurados. A estratégia adotada é iniciar pelos casos mais complexos, que exigem laudos periciais e exames de corpo de delito, como situações de lesão corporal. Processos mais simples, como injúria e ameaça sem violência física, serão tratados com mais agilidade posteriormente.
Equipe técnica especializada
O grupo técnico é composto por 20 membros, incluindo delegados experientes como Wellington de Oliveira, Marcelo Alonso, João Reis Belo e Juliano Cortez Penteado, além de escrivães e investigadores especializados em atendimento à mulher. Também participam mais 13 delegados nomeados como membros auxiliares. O objetivo do grupo é desburocratizar a tramitação de casos, muitos dos quais estavam sem movimentação há meses ou até anos.
A análise foca principalmente em boletins em que houve desistência de representação por parte da vítima, ausência de provas ou quando os envolvidos não foram localizados pela equipe da Deam.
O feminicídio que escancarou a violência silenciosa
Vanessa Ricarte foi morta em um contexto de violência psicológica prolongada, disfarçada de cuidado e afeto. Segundo relatório final da Deam, Caio Nascimento criou uma verdadeira “bolha de amor” ao redor da vítima, dominando sua rotina, suas relações sociais e até sua liberdade.
Durante meses, Vanessa foi afastada dos amigos e da família, deixando de dirigir o próprio carro sob o pretexto de estar sendo protegida. Caio controlava seus horários, mensagens e locais onde ela frequentava. Em muitos casos, era o próprio agressor quem respondia às mensagens de Vanessa para seus amigos, criando um isolamento progressivo.
A jornalista chegou a marcar o casamento sem contar a ninguém. “Ela começou a se abrir cada vez menos, foi se afastando dos amigos. Tudo isso fazia parte do controle psicológico imposto por Caio”, aponta o relatório.
Cativeiro e dependência emocional
Os últimos dias de Vanessa foram marcados por tortura psicológica e física. Segundo o inquérito, ela passou cinco dias em cárcere privado, sem se alimentar, obrigada a comprar cocaína para o agressor, enquanto era mantida sob controle emocional. A mãe de Vanessa relatou à polícia que a filha apresentava sinais de dependência emocional intensa, e que não mantinha boa relação com o ex-noivo justamente por perceber seu comportamento controlador.
Câmeras de segurança revelaram que, antes de sua morte, Vanessa passou uma madrugada com o carro parado em um estacionamento de supermercado — possivelmente buscando um local com vigilância, numa tentativa desesperada de se proteger.
O relatório descreve um ciclo clássico de violência doméstica: tensão, agressão e “lua de mel”, em que o agressor promete mudanças e jura amor eterno. Cartas apreendidas no processo mostram que Caio dizia que iria “mudar” e que aquilo “foi a última vez”. Vanessa, emocionalmente esgotada, acreditava nessas promessas.
“Vanessa estava emocionalmente frágil, mergulhada num ciclo vicioso de abuso. Ela acreditava que ele poderia mudar. Isso é o mais cruel da violência doméstica: não é só física, é psicológica, e destrói a percepção da vítima sobre si mesma”, diz um trecho do relatório.
Um alerta para as autoridades
A trágica morte de Vanessa Ricarte não apenas comoveu a sociedade, mas expôs a urgência da atuação do Estado diante da violência contra mulheres. A criação do grupo técnico da Polícia Civil surge como resposta direta à pressão social por mais agilidade e justiça nesses casos.
Enquanto o grupo segue atuando para dar andamento aos milhares de boletins parados, o feminicídio de Vanessa se torna símbolo de uma luta contínua: a de reconhecer e combater as violências que não deixam marcas visíveis, mas que destroem vidas todos os dias.
Para mais notícias sobre os trabalhos da Polícia Civil em Campo Grande, confira o Portal E-Brasil.
Autoria: Sarah Pacini