Durante 12 anos à frente da Igreja Católica, Jorge Mario Bergoglio protagonizou episódios históricos, como a oração solitária na pandemia e a ausência em sua terra natal, a Argentina.
Ao longo de seus 12 anos como líder máximo da Igreja Católica, Papa Francisco — nascido Jorge Mario Bergoglio — protagonizou episódios que não apenas marcaram seu papado, mas também deixaram um legado profundo para o futuro da instituição. Primeiro papa vindo da América Latina, primeiro jesuíta a assumir o trono de São Pedro e o primeiro a escolher o nome “Francisco”, ele se destacou por uma liderança próxima, humana e voltada aos desafios do mundo contemporâneo.
Com um estilo mais simples e uma abordagem pastoral centrada na compaixão, inclusão e justiça social, Francisco buscou reaproximar a Igreja dos fiéis, especialmente dos mais pobres e marginalizados. Relembre os cinco momentos que definem o seu legado.
1. A oração solitária na pandemia: um símbolo global de esperança
Em 27 de março de 2020, o mundo parou diante de uma imagem que se tornaria um dos símbolos mais potentes da pandemia de COVID-19. Sozinho, sob uma chuva fina, Papa Francisco apareceu na Praça de São Pedro completamente vazia, cenário impensável para um evento religioso dessa magnitude. A cena foi transmitida para milhões de lares, enquanto ele realizava uma oração histórica e concedia a bênção “Urbi et Orbi” — à cidade e ao mundo.
Naquele momento, em meio a incertezas e luto, a imagem do papa isolado representou não só o isolamento coletivo vivido por bilhões, mas também a resiliência da fé. Ele clamou por união, empatia e responsabilidade social diante da maior crise sanitária do século. O gesto emocionou católicos e não católicos, consolidando seu papel como uma liderança espiritual global em tempos de dor.
2. A escolha inédita de um papa latino-americano e jesuíta
Quando a fumaça branca saiu da Capela Sistina em 13 de março de 2013, o nome anunciado surpreendeu o mundo: Jorge Mario Bergoglio, um cardeal argentino pouco conhecido fora da América Latina, havia sido eleito o 266º papa da Igreja Católica. Com sua escolha, Francisco quebrou diversas tradições milenares: foi o primeiro papa vindo do hemisfério sul, o primeiro latino-americano e também o primeiro membro da Companhia de Jesus a assumir o pontificado.
Além disso, ele inaugurou uma nova tradição ao adotar o nome “Francisco”, em homenagem a São Francisco de Assis, símbolo de humildade, pobreza e amor à criação. A escolha já sinalizava a direção de seu pontificado: uma Igreja mais simples, mais próxima dos pobres e mais comprometida com causas sociais e ambientais.
3. O encontro histórico entre dois papas vivos
Poucos dias após sua eleição, em 23 de março de 2013, Francisco protagonizou um momento inédito na história moderna da Igreja: o encontro entre dois papas vivos. Ele foi pessoalmente ao retiro de Castel Gandolfo, na Itália, para visitar o papa emérito Bento XVI, que havia renunciado pouco antes.
O gesto de humildade, respeito e fraternidade foi marcado por um abraço entre os dois líderes e uma oração conjunta. A cena foi histórica não apenas pelo simbolismo, mas por representar uma continuidade pacífica e respeitosa na liderança da Igreja — algo raro após séculos sem precedentes de renúncia papal.
Francisco voltaria a encontrar Bento XVI em outras ocasiões, sempre mantendo um tom de reverência e consideração, mesmo com posições teológicas distintas. Essa postura ajudou a reforçar uma imagem de unidade em meio às tensões internas da Igreja.
4. A ausência na Argentina: uma visita que nunca aconteceu
Apesar de ser argentino e de sempre demonstrar carinho por sua terra natal, o Papa Francisco jamais visitou a Argentina durante seus 12 anos de pontificado. A ausência tornou-se um dos aspectos mais intrigantes de seu papado, especialmente porque ele realizou 48 viagens internacionais e passou por 65 países diferentes, incluindo vários da América do Sul como Brasil, Chile, Peru, Paraguai, Bolívia e Equador.
Em entrevistas e pronunciamentos, Francisco chegou a afirmar que desejava visitar a Argentina, mas que sempre havia “outras prioridades” em seu itinerário. Internamente, especulava-se que a polarização política do país e o desejo de não ser instrumentalizado por correntes ideológicas tivessem influenciado essa decisão.
Mesmo distante fisicamente, o papa nunca escondeu seu amor pelo país. Demonstrava frequentemente seu orgulho pelas raízes portenhas e mantinha vivo o carinho pelo seu time de coração, o San Lorenzo de Almagro. Ainda assim, a ausência em sua terra natal permanece como uma lacuna simbólica em sua história.
5. As reformas e mudanças na direção da Igreja
Além dos gestos simbólicos, Francisco também ficou marcado pelas reformas institucionais que tentou implementar no Vaticano. Uma das prioridades de seu pontificado foi a luta contra os escândalos financeiros e os abusos sexuais cometidos por membros do clero. Para isso, promoveu mudanças na estrutura da Cúria Romana, buscou maior transparência nas finanças da Santa Sé e endureceu regras internas.
No campo doutrinário, ele também defendeu uma Igreja mais acolhedora e dialogante. Incentivou a inclusão de grupos historicamente marginalizados, como a comunidade LGBTQIA+, os divorciados recasados e as mulheres — embora sem avançar em temas mais sensíveis como a ordenação feminina.
Sua encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado com a casa comum, tornou-se um marco no posicionamento da Igreja sobre as mudanças climáticas, chamando fiéis e governos à responsabilidade ambiental. Em diversas ocasiões, Francisco reiterou que “o planeta está gritando por socorro” e que os mais pobres serão os mais afetados pela crise ecológica.
Um legado moldado pelo tempo e pela humanidade
O pontificado de Francisco foi, acima de tudo, um chamado à simplicidade, à escuta e ao compromisso social. Em tempos de transformações profundas no mundo e dentro da própria Igreja, ele buscou ser uma ponte entre tradição e modernidade, entre fé e ação.
Seu legado é marcado tanto por momentos emblemáticos, como a oração solitária na pandemia, quanto por sua visão pastoral que privilegiou os excluídos. Francisco será lembrado como o papa que caminhou ao lado do povo — literalmente e espiritualmente —, com sapatos gastos e palavras que tocaram o coração de milhões.
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Autoria: Sarah Pacini