Servidor é afastado após áudio com ameaça a indígenas em Tacuru

Servidor é afastado após áudio com ameaça a indígenas em Tacuru

Funcionário municipal foi identificado como autor do áudio, segundo o prefeito; Polícia Federal apura denúncia de ameaça de envenenamento da água

Um servidor público de Tacuru, em Mato Grosso do Sul, foi afastado das funções após a circulação de um áudio com ameaças contra indígenas da Aldeia Sassoró. Segundo o prefeito Rogério Torquetti, o funcionário foi identificado como a pessoa que aparece na gravação e será submetido a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD).

O áudio começou a circular no domingo (25), dia do segundo turno das eleições presidenciais, e foi denunciado por lideranças indígenas nesta terça-feira (27). Na gravação, há uma fala sugerindo que indígenas fossem mortos por meio de envenenamento da água.

O caso foi encaminhado ao governo federal e será investigado pela Polícia Federal. O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) informou que não existe, até o momento, comprovação de que a água consumida pela comunidade tenha sido contaminada.

.

Servidor foi afastado pela prefeitura

O prefeito de Tacuru confirmou que o áudio é atribuído a um funcionário da administração municipal. Segundo Rogério Torquetti, o servidor trabalha na área de infraestrutura e atua com um caminhão-caçamba.

O prefeito afirmou que a administração decidiu pelo afastamento e pela abertura de um processo administrativo para apurar a conduta do funcionário.

“Esse servidor, um excelente servidor, inclusive, trabalha na infraestrutura, com caminhão-caçamba. […] Um processo administrativo será aberto e o servidor será afastado”, afirmou Torquetti.

Segundo o prefeito, o funcionário não atuava na distribuição de água do município. A informação foi destacada após as denúncias levantarem preocupação sobre a segurança do abastecimento na aldeia.

Torquetti também publicou um vídeo gravado na Aldeia Sassoró, no qual pediu desculpas à comunidade pelas falas registradas no áudio e afirmou que divergências políticas não deveriam provocar conflitos.

.

Denúncia chegou ao Ministério dos Povos Indígenas

A denúncia apresentada por um representante da Aldeia Sassoró foi encaminhada pelo Ministério dos Povos Indígenas à Polícia Federal.

Segundo o documento, moradores relataram manifestações consideradas racistas e discriminatórias atribuídas a pessoas que supostamente teriam ligação com a prefeitura.

Os áudios mencionam a possibilidade de colocar substâncias tóxicas na água consumida pelos moradores. A autenticidade das gravações, a identidade das pessoas que participaram da conversa e as circunstâncias em que o material foi produzido ainda serão investigadas.

O Ministério dos Povos Indígenas pediu que a Polícia Federal identifique os responsáveis, verifique se houve crime e avalie medidas para proteger a comunidade e garantir a segurança da água utilizada pelos moradores.

.

Liderança indígena pede responsabilização

O cacique Ivan Montiel, liderança da Aldeia Sassoró e vereador de Tacuru, afirmou que pretende buscar a responsabilização dos envolvidos nas esferas criminal e cível.

Segundo ele, a comunidade recebeu o áudio e identificou pessoas que estariam envolvidas. A participação e a identidade dos citados, porém, ainda precisam ser confirmadas pelas autoridades responsáveis pela investigação.

Montiel afirmou que os indígenas não aceitarão ameaças ou manifestações de preconceito contra a comunidade e também destacou o direito dos povos indígenas de escolher livremente seus candidatos nas eleições.

A Aty Guasu, Grande Assembleia dos povos Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul, também se manifestou contra o racismo, o preconceito e as ameaças denunciadas.

.

Governo federal apura outras denúncias

O caso de Tacuru integra uma série de denúncias de ameaças e manifestações racistas contra indígenas de Mato Grosso do Sul que chegaram a órgãos federais após o segundo turno das eleições.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) informou ter recebido relatos envolvendo diferentes municípios do Estado. Entre as denúncias estão mortes, atropelamentos, ameaças e suspeitas de envenenamento da água em comunidades de Tacuru e Nioaque.

A entidade encaminhou representação ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e a órgãos do governo federal, incluindo os ministérios da Justiça e Segurança Pública, dos Povos Indígenas e dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Entre os episódios citados está a morte de um indígena atropelado na madrugada de sábado (24), na MS-289, entre Coronel Sapucaia e Amambai. As circunstâncias do acidente ainda não foram esclarecidas.

.

Sejusp nega ocorrência de genocídio

Diante da repercussão das denúncias, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp-MS) afirmou que não procede a informação de ocorrência de genocídio contra povos indígenas no Estado.

Segundo a pasta, as forças de segurança atuam quando acionadas para preservar a ordem pública, prevenir conflitos e garantir a segurança das pessoas envolvidas.

A Polícia Civil também foi procurada pelo g1. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) informou que acompanha e apura as ocorrências.

A investigação sobre o áudio de Tacuru deverá esclarecer a origem da gravação, quem participou da conversa e se houve efetivamente uma ameaça criminosa contra a comunidade indígena.

Arquivos Relacionados

Deixe um comentário