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Campo Grande pode adotar conceito de “cidade-esponja”

Campo Grande pode adotar conceito de “cidade-esponja”

Projeto aprovado na Câmara propõe soluções sustentáveis para enfrentar enchentes; ideia foi desenvolvida por Kongjian Yu, morto em acidente aéreo no MS

A cidade de Campo Grande poderá se tornar uma das primeiras do Brasil a aplicar o conceito urbanístico de “cidade-esponja”, modelo desenvolvido pelo renomado arquiteto chinês Kongjian Yu, que morreu tragicamente em setembro, durante uma expedição no Pantanal. O projeto de lei com esse propósito foi aprovado pela Câmara Municipal nesta terça-feira (7) e aguarda agora o aval da Prefeitura da Capital para se tornar realidade.

O objetivo da proposta é enfrentar os recorrentes problemas de alagamentos e enchentes por meio de infraestrutura verde, valorizando a absorção natural da água da chuva, em vez de combatê-la apenas com obras de drenagem tradicionais. A estratégia propõe transformar o espaço urbano em uma área capaz de absorver, armazenar e reutilizar a água pluvial, como uma “esponja”.

A tragédia que reacendeu o debate

Kongjian Yu, criador do conceito, era uma das personalidades mais influentes da arquitetura paisagística sustentável no mundo. Fundador do escritório Turenscape e professor da Universidade de Pequim, ele dedicou décadas ao desenvolvimento de soluções que unissem urbanismo, ecologia e convivência harmônica com a natureza. O arquiteto morreu no dia 23 de setembro de 2025, após a queda de uma aeronave na região da Fazenda Barra Mansa, no município de Aquidauana (MS). Ele estava no Pantanal justamente para estudar soluções sustentáveis aplicáveis a biomas frágeis e suscetíveis a desastres naturais, como enchentes e queimadas.

A tragédia impulsionou o debate sobre a necessidade de repensar as cidades brasileiras diante das mudanças climáticas e da intensificação de eventos extremos. Em Campo Grande, onde alagamentos são recorrentes, o projeto de lei aprovado representa uma resposta propositiva a esse cenário.

O que é uma cidade-esponja?

A proposta de “cidade-esponja” não é apenas teórica — ela já foi implementada com sucesso em diversas cidades da China, como parte de um programa nacional que começou em 2015. A ideia central é substituir estruturas rígidas e impermeáveis (como asfalto e concreto) por soluções baseadas na natureza, que permitam ao solo reter, filtrar e reutilizar a água da chuva.

Em vez de canalizar a água rapidamente para fora da cidade, como fazem os sistemas tradicionais de drenagem, as cidades-esponja mantêm a água por mais tempo, reduzindo a ocorrência de inundações e promovendo a recarrega dos aquíferos subterrâneos.

Campo Grande pode ser modelo nacional

O projeto apresentado pelo vereador Fábio Rocha (União Brasil) propõe que Campo Grande adote práticas inspiradas neste conceito, com foco inicial em áreas críticas de alagamento. A proposta ainda recebeu uma emenda do vereador Jean Ferreira, que inclui a implantação dos chamados “jardins de chuva” — pequenos espaços verdes projetados para captar e infiltrar a água das chuvas de forma eficiente.

“Nossa cidade sofre há anos com o problema das chuvas intensas e seus efeitos devastadores. Este projeto é uma alternativa moderna e viável, que pode transformar a forma como lidamos com a água nas áreas urbanas”, declarou Fábio Rocha.

O conceito também estimula a criação de parques alagáveis, telhados verdes, pavimentos permeáveis e recuperação de áreas de várzea, promovendo melhor qualidade do ar, mais áreas de lazer e mitigação do calor urbano.

Outras propostas aprovadas

Durante a mesma sessão legislativa, outros projetos também foram aprovados, com destaque para a valorização cultural, gastronômica e educacional de Campo Grande:

  • Área de Interesse Cultural na Avenida Calógeras: Proposto pelos vereadores Ronilço Guerreiro (Podemos) e Epaminondas Neto (Papy – PSDB), o projeto quer reconhecer o trecho da avenida entre a Mato Grosso e a Barão do Rio Branco como um polo cultural, incentivando atividades como gastronomia, artesanato e economia criativa. “É uma maneira de revitalizar o centro da cidade e trazer de volta o movimento para essa região histórica”, afirmou Guerreiro.
  • Costelão Fogo de Chão no calendário oficial: O evento gastronômico promovido pela Fundação de Rotarianos de MS no primeiro domingo de agosto agora poderá integrar oficialmente o calendário de eventos da cidade.
  • Semana da Educação Financeira: De autoria da vereadora Ana Portela (PL), a iniciativa quer incluir no calendário a Semana Campo-Grandense da Educação Financeira, a ser realizada na semana que antecede o dia 9 de setembro. A proposta visa incentivar o planejamento financeiro e o consumo consciente entre os cidadãos.

Um legado em construção

Se aprovado pela prefeitura, o projeto da cidade-esponja pode transformar radicalmente a forma como Campo Grande lida com sua infraestrutura urbana e seu relacionamento com o meio ambiente. Mais do que resolver problemas de drenagem, a proposta representa uma mudança de mentalidade: deixar de combater a água da chuva como uma ameaça e começar a tratá-la como um recurso valioso.

A morte de Kongjian Yu no solo pantaneiro onde buscava inspiração torna ainda mais simbólico o fato de que seu legado possa ser aplicado justamente ali, em Mato Grosso do Sul. Campo Grande, se avançar com o projeto, pode se tornar uma referência nacional em urbanismo sustentável, honrando a memória de um arquiteto que acreditava no poder da natureza para curar as cidades.

Autoria: Sarah Pacini

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