Iniciativa volta a movimentar a rede municipal de ensino em Campo Grande com concertos e oficinas didáticas que aproximam os estudantes do universo da música de concerto

A semana começou com um novo som ecoando pelos corredores da rede pública de ensino de Campo Grande. Foi retomado o projeto “Música Erudita nas Escolas”, uma ação cultural que leva concertos de música clássica diretamente para o ambiente escolar, com o objetivo de democratizar o acesso à arte e despertar o interesse de crianças e adolescentes por um estilo musical ainda pouco explorado por esse público.
A primeira apresentação aconteceu na manhã desta segunda-feira, dia 20 de outubro, na Escola Municipal José de Souza, e contou com a presença do trio Opus Vivare, formado por músicos experientes: o violonista Evandro Dotto, a soprano Bianca Danzi e o violinista Gabriel Almeida. O grupo levou aos alunos um repertório que atravessa séculos da história da música ocidental, passando pelo período barroco, pelo romantismo e chegando até composições contemporâneas.
Mais do que apresentações: uma vivência musical
O projeto vai além da performance ao vivo. A programação inclui também oficinas interativas voltadas aos estudantes, permitindo que eles conheçam mais sobre os instrumentos, os estilos e os bastidores do fazer musical. A próxima parada do trio será na terça-feira (21/10), às 9h30, na Escola Municipal Professora Maria Tereza Rodrigues, no bairro Jardim Santa Emília.
Durante as atividades, os alunos são convidados a participar com perguntas, observar de perto os instrumentos e até experimentar movimentos musicais básicos. A ideia é quebrar o estigma da música erudita como algo distante, elitizado ou inacessível, mostrando que ela pode, sim, fazer parte do dia a dia de qualquer pessoa.
Música clássica como ferramenta de transformação
O projeto é fruto da inquietação e da paixão do músico Evandro Dotto, idealizador da proposta, que há anos atua na promoção da música de concerto fora dos palcos tradicionais. Para ele, o impacto social da arte erudita precisa ser sentido por quem normalmente está à margem desse tipo de experiência.
“A música clássica muitas vezes parece algo inacessível, reservado a teatros, a quem pode pagar ou a quem teve uma educação muito específica. Nosso trabalho é justamente o contrário: levar essa arte até onde ela raramente chega e mostrar que ela pertence a todos”, afirma Dotto.
Ele acredita que a música, especialmente a erudita, pode desenvolver habilidades como escuta ativa, concentração, sensibilidade e respeito à diversidade. “A criança que entra em contato com uma sinfonia ou com uma ária pela primeira vez pode ter sua percepção artística totalmente ampliada. Isso pode influenciar não só sua relação com a cultura, mas também sua forma de ver o mundo.”
Um repertório pensado para encantar e educar
O trio Opus Vivare escolheu a dedo cada peça apresentada nas escolas. O programa musical inclui obras de compositores como Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven, Heitor Villa-Lobos e até autores contemporâneos brasileiros. Essa diversidade permite que os alunos tenham um panorama histórico e cultural da música erudita, ao mesmo tempo em que se identificam com sonoridades mais próximas da realidade brasileira.
A soprano Bianca Danzi, que interpreta canções com técnica refinada e expressividade cênica, ressalta a reação do público infantil: “As crianças se encantam. Elas prestam atenção, ficam curiosas, querem saber como funciona o violino, de onde vem aquela voz tão aguda… É uma troca muito rica”.
Cultura que se espalha pelas escolas
A escolha pelas escolas da rede pública municipal tem como intenção principal alcançar comunidades que, em geral, estão distantes dos centros culturais tradicionais. Muitas dessas unidades escolares estão situadas em bairros periféricos, onde o acesso a concertos, museus e teatros é bastante limitado.
Além disso, o projeto tem caráter formativo e atua como ponte entre a educação e a cultura, colaborando com a missão das escolas de oferecer uma formação integral. Professores e diretores relatam que os concertos geram impacto positivo no ambiente escolar, promovendo disciplina, curiosidade e um novo olhar dos alunos sobre a arte.
Investimento público em arte e cidadania
O “Música Erudita nas Escolas” é financiado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), iniciativa do Governo Federal por meio do Ministério da Cultura (MinC), e é operacionalizado em Campo Grande pela Fundação Municipal de Cultura (Fundac).
O investimento público tem sido fundamental para manter viva a proposta, garantindo a remuneração dos artistas, a logística de transporte e a produção dos concertos. “Sem esse apoio, seria muito difícil dar continuidade ao projeto com a qualidade que ele exige. Estamos muito gratos por ver a arte sendo valorizada como política pública”, destaca Dotto.
A música que aproxima, transforma e inspira
Ao colocar a música erudita diante de um público que raramente tem a chance de ouvi-la ao vivo, o projeto cumpre um papel simbólico e educacional poderoso. Ele quebra muros invisíveis, constrói pontes entre mundos aparentemente distantes e planta sementes que podem florescer em forma de novos talentos, paixões ou apenas lembranças afetivas de um concerto que, por alguns minutos, fez tudo silenciar — para ouvir o que há de mais humano na arte: a emoção.
Autoria: Sarah Pacini
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