Com produção moderna e referências internacionais, cantora reforça identidade de “boiadeira pop”, mas repete fórmulas ao longo das faixas
A cantora Ana Castela, um dos maiores nomes da nova geração do sertanejo, lançou recentemente seu primeiro álbum de estúdio, intitulado “Let’s Go Rodeo”, e deixou claro que está disposta a continuar quebrando barreiras no gênero. A artista, que emergiu em 2021 como fenômeno nas plataformas digitais, investe agora em uma sonoridade mais próxima do country pop, alinhada com o que já se faz fora do Brasil, especialmente nos Estados Unidos.
O disco, disponível desde 29 de maio, reúne nove faixas e tem apenas 25 minutos de duração. Apesar do nome em inglês, todas as músicas são cantadas em português e giram em torno do universo rural e das emoções típicas do sertanejo — com uma roupagem moderna, cheia de batidas eletrônicas e arranjos que dialogam com o pop internacional.
Influência americana e produção de peso
A proposta de “Let’s Go Rodeo” é clara: apresentar uma artista que abraça o legado do sertanejo, mas que também não tem medo de experimentar. Essa fusão aparece logo de cara em “Tropa do Chapelão”, faixa produzida em parceria com o DJ norte-americano Diplo, conhecido por colaborações com nomes como Anitta e Pabllo Vittar. Com um beat eletrônico que destoa do restante do álbum, a canção é ousada e cumpre bem o papel de chamar atenção para essa nova fase da artista sul-mato-grossense.
Diplo é o único nome estrangeiro diretamente envolvido no projeto, mas sua participação simboliza a intenção de levar a estética da boiadeira para um patamar global. O restante do disco tem assinatura do produtor Eduardo Godoy, que também foi responsável por moldar canções como “Rodeio no Texas”, “Se Amando nas BR” e “Não Precisa Ser Cowboy” — todas escritas em colaboração com Ana Castela e parceiros frequentes como Mateus Félix, Leo Souzza e Rodolfo Alessi.
Letras que exaltam o rodeio e o sertão
“Let’s Go Rodeo” é um álbum com forte unidade temática. As letras falam sobre o orgulho da vida no campo, o romantismo rural, a saudade e a paixão — elementos tradicionais do sertanejo. Em “Olha Onde Eu Tô”, por exemplo, Ana celebra sua trajetória e o espaço que conquistou dentro e fora dos rodeios, com um tom empoderado e festivo.
Em “Saudade é Saudade”, ela resgata a sofrência característica do gênero, mas sem abrir mão do toque pop que permeia toda a obra. Já em “Pra Quem Você Ligou”, a melodia introspectiva e a letra melancólica colocam a artista em um espaço mais vulnerável, reforçando sua versatilidade vocal.
A canção “As Cowgirl”, que conta com a participação do cantor Luan Pereira, tem refrão chiclete e é claramente pensada para bombar nas redes sociais e no TikTok. Com estrutura repetitiva e batida animada, ela é um dos pontos altos do álbum no quesito potencial viral.
Orgulho da roça com sotaque pop
Apesar de flertar com tendências globais, Ana Castela não se desconecta de suas raízes. Em “Tô Voltando”, que encerra o disco, ela reafirma o elo com a vida simples e o rodeio. A canção mistura elementos do sertanejo clássico com uma produção mais polida, funcionando como uma espécie de declaração final sobre quem ela é e onde pretende chegar.
Ana mantém o pé na roça, mas com o olhar voltado para o futuro — e para as pistas de dança.
Repetição de temas compromete o fôlego do disco
Mesmo com boas intenções estéticas e produção de alto nível, “Let’s Go Rodeo” sofre com um problema recorrente: a falta de variação temática e melódica. Todas as faixas orbitam em torno do mesmo conceito, e isso torna o álbum cansativo, principalmente por ser tão curto.
A fórmula — que combina letra sobre rodeio, batida pop e refrão pegajoso — é eficaz, mas perde impacto com o passar das músicas. Em vez de criar contrastes, Ana opta por manter um único tom ao longo do disco, o que pode restringir o apelo do projeto a um nicho mais específico.
Ainda assim, para um álbum de estreia, “Let’s Go Rodeo” cumpre bem seu papel: apresenta uma artista coerente com sua imagem, fiel às suas origens e disposta a experimentar. Resta saber se, nos próximos trabalhos, Ana Castela vai ousar mais na diversidade sonora para manter seu espaço em um cenário sertanejo cada vez mais competitivo.
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Autoria: Sarah Pacini.