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Anaurilândia destina quase 2 milhões para festas

Prefeitura de Anaurilândia investe alto em estrutura de shows, rodeio e festas populares; valor equivale a um ingresso premium por morador

A pequena cidade de Anaurilândia, localizada a 379 quilômetros de Campo Grande (MS) e com pouco mais de 7,6 mil habitantes, chamou atenção nesta semana após publicar uma série de contratos que, somados, ultrapassam R$ 1,9 milhão destinados à realização de eventos e festividades municipais. Os dados constam na edição desta quinta-feira (6) do Diário Oficial do Estado (DOE) e acenderam o debate sobre os gastos públicos em municípios de pequeno porte.

De acordo com as atas de registro de preços divulgadas, os contratos envolvem a locação de tendas, iluminação, sonorização e estruturas diversas, incluindo montagem, desmontagem e transporte dos equipamentos. Ao todo, são seis contratos firmados pela Prefeitura, todos voltados para atender diferentes ocasiões ao longo de 2025 — do rodeio anual ao Natal e Réveillon.

O contrato de maior valor chega a R$ 593.629,00, destinado à “locação de estrutura para eventos, sonorização e iluminação, incluindo serviços de montagem, desmontagem e transporte”. O segundo maior acordo, de R$ 384.318,00, traz descrição semelhante, sendo igualmente voltado para eventos promovidos pelo município. Os demais contratos, de valores menores, completam o montante total de R$ 1.910.000,00.

Para se ter uma ideia da proporção, o gasto equivale a R$ 248 por habitante — o mesmo valor aproximado de um ingresso de pista premium em um show do cantor Gusttavo Lima. O comparativo gerou reações entre moradores e nas redes sociais, que questionam se tamanha despesa é compatível com a realidade econômica de uma cidade com menos de 8 mil moradores.

Prefeito defende planejamento e diz que investimento é para o ano inteiro

Procurado para comentar o caso, o prefeito Rafael Gusmão Hamamoto afirmou que os contratos não significam que o valor total será efetivamente gasto. Segundo ele, trata-se de uma reserva orçamentária para cobrir todos os eventos do calendário anual, evitando a necessidade de novas licitações a cada data comemorativa.

“Não quer dizer que pretendemos usar todos os valores. Fizemos com sobra para, se precisar, a gente ter”, explicou Hamamoto.

O gestor reforçou que os recursos destinam-se a diferentes tipos de atividades, desde festividades tradicionais até ações institucionais e eventos turísticos. Entre as celebrações contempladas estão o Rodeio de Anaurilândia, que começa nesta sexta-feira (7) e segue até domingo (9), além das festas de fim de ano e a estrutura do Balneário Municipal, um dos principais pontos de lazer da cidade.

Hamamoto defende que o investimento em eventos é uma estratégia para fomentar o turismo regional e movimentar a economia local. “Queremos atrair visitantes de outras cidades, gerar renda e fortalecer o turismo em Anaurilândia”, declarou.

Turismo x prioridades públicas

Apesar da justificativa, o valor chamou atenção por destoar de outros gastos municipais e do porte da cidade. Especialistas em administração pública apontam que, embora o fomento ao turismo seja legítimo, é necessário ponderar prioridades orçamentárias, principalmente em municípios pequenos, que dependem fortemente de repasses estaduais e federais.

O economista e consultor de finanças públicas Carlos Menezes avalia que contratos desse porte, mesmo que sejam registros de preços e não representem desembolso imediato, demandam transparência e planejamento rigoroso. “O problema não é o valor em si, mas o contexto. É importante que a população saiba exatamente quanto será usado e em quais eventos. Sem isso, a sensação é de gasto excessivo”, observa.

Em paralelo, moradores da cidade relatam que alguns setores — como saúde e infraestrutura — ainda enfrentam dificuldades. “Tem rua que nem asfalto tem, mas o rodeio é sempre grande. A gente gosta de festa, mas também quer ver melhorias”, comentou uma moradora que preferiu não se identificar.

Gastos com festas se repetem em outras cidades

O caso de Anaurilândia não é isolado. Recentemente, outras prefeituras de Mato Grosso do Sul também chamaram atenção por investir somas consideráveis em eventos públicos. Em outubro, por exemplo, um município com 26 mil habitantes anunciou gasto de R$ 500 mil apenas com hospedagem de autoridades durante festividades locais. Esses episódios reacendem o debate sobre a gestão de verbas públicas em pequenas cidades, onde o impacto de cada despesa é proporcionalmente maior.

Para o advogado e professor de direito público Luiz Fernando Ribeiro, os contratos de locação de estruturas para eventos costumam ser legítimos, mas exigem prestação de contas minuciosa. “É fundamental garantir que os gastos estejam alinhados com o interesse coletivo e não se tornem instrumentos de promoção política. A transparência deve vir em primeiro lugar”, ressalta.

Equilíbrio entre festa e responsabilidade

Enquanto a programação festiva segue em Anaurilândia, o tema divide opiniões. Parte da população enxerga nas celebrações uma oportunidade de lazer e de movimentar o comércio local. Já outra parcela cobra priorização de áreas essenciais, como saúde, educação e infraestrutura urbana.

A administração municipal reforça que os contratos seguem a legislação vigente e que todos os processos licitatórios foram realizados dentro da legalidade. Ainda assim, o volume de recursos estimado — quase R$ 2 milhões — continua gerando questionamentos sobre a real necessidade do investimento.

Com a temporada de festas se aproximando, o caso de Anaurilândia se torna um símbolo do desafio enfrentado por pequenos municípios: conciliar o desejo de celebrar com a responsabilidade de administrar recursos públicos de forma equilibrada e transparente.

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Autoria: Sarah Pacini

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