Mais de um século antes da fundação de MS, a divisão do território mato-grossense já era discutida. Em 1975, um deputado chegou a propor a criação de quatro estados diferentes.
A separação entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, oficializada em 11 de outubro de 1977, foi o resultado de um longo processo político e histórico — uma história que começou muito antes do decreto presidencial de Ernesto Geisel. Documentos mostram que as conversas sobre dividir o imenso território mato-grossense começaram ainda no século XIX, e, surpreendentemente, chegaram a incluir a ideia de criar quatro estados distintos, e não apenas dois.
A primeira manifestação pública em favor da reorganização territorial remonta a 1870, quando o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro — um dos periódicos mais influentes do país na época — defendeu, em sua edição de 30 de maio, a mudança da capital de Cuiabá para Corumbá. O argumento era estratégico: aproximar o centro político do estado das fronteiras e das rotas comerciais do Sul, em busca de maior integração econômica.
Ao longo das décadas seguintes, as discussões sobre a extensão e a dificuldade de gestão do território mato-grossense voltaram a aparecer em jornais, discursos e documentos oficiais. A imensidão do estado, os contrastes geográficos e as diferenças culturais entre o Norte e o Sul alimentavam a ideia de que a divisão seria inevitável.
O cenário político que reacendeu o debate
Já na década de 1970, o Brasil vivia sob o regime militar e o governo federal iniciava um processo de reorganização administrativa. Foi nesse contexto que o debate sobre a separação voltou com força. As discussões ganhavam fôlego especialmente entre os representantes políticos da região Sul de Mato Grosso, que defendiam maior autonomia administrativa e investimentos proporcionais ao crescimento da região.
Em 7 de abril de 1975, a temperatura política subiu. O deputado Antônio Carlos de Oliveira, do MDB, com base eleitoral no Sul do estado, apresentou uma proposta ousada: em vez de criar apenas um novo estado, dividir Mato Grosso em quatro unidades federativas.
Quatro estados, um território
A ideia do parlamentar era justificar a proposta com base na heterogeneidade da região, que, segundo ele, tornava inviável a administração unificada. Sua proposta previa:
- Um Estado no extremo norte, ainda sem nome definido, que cortaria Mato Grosso ao meio;
- O Estado de Mato Grosso do Norte, concentrando a zona de Cuiabá e arredores;
- O Estado do Pantanal, ocupando toda a vasta área dos grandes alagados e regiões de pecuária;
- E, finalmente, o Estado de Mato Grosso do Sul, localizado na ponta mais meridional, com Campo Grande como principal centro político e econômico.
O projeto de Antônio Carlos de Oliveira buscava representar os interesses regionais e equilibrar o desenvolvimento de um território marcado por desigualdades históricas. A proposta, porém, nunca chegou a ser formalizada oficialmente: foi arquivada antes mesmo de ser discutida no Congresso Nacional.
Ainda assim, o episódio marcou o auge do chamado “clima divisionista”, que dominou o ambiente político entre 1975 e 1977. Deputados, prefeitos e lideranças civis passaram a defender a criação de um novo estado no Sul como forma de reconhecimento da identidade e das demandas locais.
O longo caminho até 1977
Mais de um século separou as primeiras ideias registradas em 1870 e a assinatura do decreto que, em 1977, criou oficialmente Mato Grosso do Sul. Nesse intervalo, inúmeros movimentos e articulações foram registrados — desde editoriais em jornais até discussões parlamentares e estudos técnicos.
O principal argumento era que Mato Grosso era grande demais para ser governado de forma eficiente. Com uma área superior a um milhão de quilômetros quadrados, o estado enfrentava dificuldades logísticas, econômicas e políticas. O Sul, mais próximo dos centros urbanos do Sudeste e do Paraná, já se destacava pelo agronegócio e pelo crescimento populacional.
Essas diferenças acentuavam a sensação de abandono por parte da população sulista, que se via distante da capital e das decisões políticas tomadas em Cuiabá. A ideia de separação, portanto, ganhou contornos de identidade regional — mais do que uma questão administrativa, tornou-se um movimento simbólico.
De proposta a realidade
Quando o presidente Ernesto Geisel assinou o Decreto-Lei nº 1.231, em 11 de outubro de 1977, o sonho antigo de autonomia finalmente se concretizou. O documento oficializou a criação do Estado de Mato Grosso do Sul, cuja instalação efetiva ocorreu em 1º de janeiro de 1979.
A divisão em quatro estados, como sugerida por Antônio Carlos de Oliveira, jamais saiu do papel. Ainda assim, a proposta representa um capítulo curioso e pouco lembrado da história política brasileira, revelando como a reorganização territorial do Centro-Oeste foi debatida e moldada ao longo de mais de um século.
Hoje, olhando para o passado, é possível perceber que a criação de Mato Grosso do Sul não foi um fato isolado, mas o resultado de uma trajetória de debates, disputas e aspirações regionais. Uma história de identidade, autonomia e pertencimento — escrita por gerações que sonhavam com um estado próprio, capaz de se reconhecer em suas fronteiras.
Autoria: Sarah Pacini
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