Acompanhar as constantes reviravoltas no cenário político atual tem exigido bastante da resiliência emocional de grande parte da população. Independentemente de posições ideológicas, a exposição contínua a crises e polarizações deixa marcas evidentes na saúde mental, interferindo diretamente na rotina diária.
O impacto do noticiário na rotina profissional
Pesquisadores identificaram que o reflexo desse desgaste ultrapassa a esfera pessoal e atinge diretamente a produtividade. Um estudo realizado com 308 profissionais nos Estados Unidos demonstrou que semanas marcadas por informações políticas desfavoráveis geram elevação nos níveis de ansiedade e reduzem o comprometimento com as tarefas diárias. Em contrapartida, conteúdos otimistas estimulam a motivação e a colaboração entre equipes.
“O estudo fala, portanto, em momentos políticos significativos e que geram esse estresse, o que é bem o que estamos vivendo agora no Brasil”, explica o psicólogo Francisco Nogueira, membro efetivo do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e colunista da VEJA SAÚDE.
Como a pesquisa foi estruturada
O levantamento acompanhou a rotina dos participantes ao longo de nove semanas durante as eleições primárias norte-americanas de 2024. O grupo relatava semanalmente o volume de conteúdo consumido na televisão, redes sociais e jornais, além de detalhar sentimentos recorrentes e aspectos de convivência corporativa.
Especialistas reforçam que a ansiedade funciona como um mecanismo de defesa contra incertezas futuras. “Por sua vez, é plausível que também sejamos afetados no contexto laboral, afinal, o trabalho não é uma bolha isolada dos outros acontecimentos de nossa vida”, comenta o psicólogo João Gabriel Modesto, doutor em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG).
Comportamento cauteloso e busca por apoio
Apesar da pressão emocional, reações variadas foram observadas entre os funcionários. Enquanto alguns intensificaram a busca por ajuda mútua, outros adotaram posturas mais reservadas para evitar desentendimentos com colegas de trabalho.
“As pessoas relataram que deixavam de fazer certas falas e ter certos comportamentos”, comenta Nogueira. Essa cautela reflete a tentativa de blindar o ambiente corporativo contra conflitos ideológicos.
Quando desligar a televisão
Especialistas ressaltam que o objetivo não é incentivar o isolamento cívico, mas promover pausas estratégicas para preservar o bem-estar. Sinais como alterações no sono ou queda acentuada na concentração indicam a necessidade de uma pausa no consumo excessivo.
“Afinal, estudos mostram que o crescimento da polarização política tem afetado os índices gerais de saúde mental das pessoas como um todo no mundo”, alerta Modesto.
Adotar horários flexíveis e investir em momentos de lazer são alternativas recomendadas para mitigar o esgotamento emocional causado pelo noticiário constante.
