Secretário de saúde do governo Trump fala em “epidemia de autismo” e promete descobrir causas do transtorno até setembro, mas especialistas criticam abordagem e apontam melhorias no diagnóstico como explicação principal.
O governo dos Estados Unidos voltou a colocar o autismo no centro do debate público após declarações do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., que classificou o aumento no número de diagnósticos como uma “epidemia catastrófica”. Segundo Kennedy, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) encomendou um estudo para identificar, até setembro, o que estaria por trás desse crescimento.
A proposta, porém, foi recebida com forte ceticismo por cientistas, médicos e entidades ligadas à comunidade autista, que veem na retórica do governo mais uma tentativa de politizar um tema sensível e complexo. Para os especialistas, o aumento na identificação do Transtorno do Espectro Autista (TEA) se deve, em grande parte, a avanços na ciência, maior conscientização social e à evolução dos critérios de diagnóstico — e não necessariamente a um surto de causas desconhecidas.
Diagnósticos de autismo aumentaram, mas não há surto
Segundo dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), cerca de 1 em cada 36 crianças nos EUA foi diagnosticada com TEA em 2020. Em 2000, a estimativa era de 1 para cada 150. Embora o crescimento pareça alarmante à primeira vista, especialistas alertam que o fenômeno está ligado a fatores como maior acesso a serviços de saúde mental, melhora na triagem precoce e mudanças nos critérios clínicos usados para definir o transtorno.
“Não é uma epidemia no sentido de uma doença contagiosa ou de algo que surgiu de repente”, explica o neurocientista Geoff Bird, professor nas universidades de Oxford e UCL, em Londres. “O que estamos vendo é o reflexo de mais informação, mais inclusão nos critérios diagnósticos e maior atenção dos profissionais de saúde.”
Transtorno complexo, causas multifatoriais
O autismo é uma condição neurológica caracterizada por diferenças no desenvolvimento cerebral, afetando a comunicação, o comportamento e a forma como o indivíduo interage com o mundo. Sua origem é multifatorial: estudos apontam que até 80% dos casos podem estar ligados a fatores genéticos.
Mutação em genes como o MECP2 já foi identificada em alguns indivíduos com TEA, mas a ciência ainda não tem consenso sobre uma única causa biológica ou ambiental que explique o transtorno. Pesquisas investigam também o impacto de poluentes ambientais, distúrbios no sistema imunológico e até a microbiota intestinal no desenvolvimento neurológico.
Apesar das linhas de investigação, Geoff Bird afirma que “as evidências sobre a influência direta desses fatores são limitadas e, muitas vezes, inconclusivas”. A afirmação do governo de que será possível identificar com precisão a causa do autismo em poucos meses foi considerada “irrealista” por cientistas da área.
Diagnóstico mais acessível e inclusivo
A evolução no entendimento do autismo ao longo das últimas décadas é um fator central para explicar o aumento dos números. Até recentemente, apenas casos mais graves ou estereotipados, em geral apresentados por meninos, recebiam diagnóstico. Hoje, há mais sensibilidade para variações sutis do espectro, e meninas são diagnosticadas com maior frequência, à medida que os critérios se tornam mais abrangentes.
“A forma como o autismo se manifesta nas meninas era subdiagnosticada porque os testes foram desenvolvidos com base em padrões masculinos”, comenta Bird. Essa inclusão, segundo ele, está diretamente relacionada ao aumento da prevalência.
Além disso, o movimento da neurodiversidade — que defende o reconhecimento e respeito às diferenças neurológicas — ajudou a impulsionar o interesse de muitas pessoas por avaliações médicas, fazendo com que indivíduos que antes passavam despercebidos finalmente fossem diagnosticados.
Vacinas e desinformação
Entre os argumentos já desmentidos pela comunidade científica está a antiga — e falsa — ligação entre vacinas e autismo. A teoria ganhou força nos anos 1990 com um estudo fraudulento que associava a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) ao TEA. O artigo foi retirado, e dezenas de pesquisas subsequentes comprovaram que não existe nenhuma relação entre imunizantes e o transtorno.
Mesmo assim, Kennedy, conhecido por seu histórico de declarações antivacina, já insinuou no passado que imunizações infantis seriam um possível fator. Embora recentemente tenha tentado se desvincular dessa imagem, afirmando não ser contra vacinas, suas falas seguem sendo criticadas por organizações médicas e de defesa dos direitos das pessoas autistas.
Comunidade autista reage
Entidades como a Associação Nacional do Autismo do Reino Unido reagiram com firmeza ao discurso de Kennedy. “Tratar o autismo como uma epidemia a ser combatida é não apenas incorreto, mas profundamente ofensivo”, disse Tim Nicholls, diretor assistente da instituição. Ele também criticou o que chamou de “sensacionalismo político disfarçado de ciência”.
Suzy Yardley, diretora da ONG Child Autism UK, também defende que o foco deveria estar em apoiar as pessoas autistas e suas famílias, em vez de promover campanhas para “identificar as causas” de uma condição que, para muitos, não precisa de cura, mas de aceitação e adaptação da sociedade.
Para Yardley, “as tensões em torno da narrativa sobre o autismo são inevitáveis, mas é preciso ouvir as próprias pessoas do espectro”. Enquanto alguns se sentem confortáveis com sua neurodivergência, outros enfrentam desafios severos e precisam de suporte real, não apenas promessas políticas.
Caminhos mais produtivos
Especialistas são unânimes em afirmar que o caminho mais eficaz para lidar com o autismo está longe de ser a caça por uma “causa única”. O investimento em diagnóstico precoce, inclusão escolar, políticas públicas de saúde mental e capacitação profissional para lidar com o TEA são as ferramentas que realmente podem transformar vidas.
Classificar o aumento de diagnósticos como uma “epidemia” é, para muitos, um retrocesso no entendimento sobre neurodiversidade — e um desserviço para a inclusão.
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Autoria: Sarah Pacini