Ibama e Ministério Público investigam presença de espécies exóticas em lago artificial de balneário onde 14 banhistas foram mordidos. Especialistas temem ameaça à fauna aquática local.
Bonito, no Mato Grosso do Sul, vive uma situação inusitada e preocupante. Após 14 turistas serem mordidos por peixes em um balneário da cidade, autoridades ambientais e especialistas em biodiversidade alertam para uma possível ameaça ecológica causada por espécies exóticas introduzidas em ambientes artificiais.
O caso ocorreu no balneário Praia da Figueira, localizado a 20 km do centro da cidade, um dos destinos mais procurados para ecoturismo no Brasil. O local possui uma lagoa artificial, onde aconteceram os incidentes.
Após os ataques, uma força-tarefa formada por agentes do Ibama e do Ministério Público foi ao local no dia 15 de abril para fiscalizar as condições da lagoa e coletar informações. A inspeção continua nesta semana e busca identificar a origem e a espécie dos peixes envolvidos.
Espécies exóticas ameaçam equilíbrio ambiental
Segundo o biólogo e professor da Unicamp José Sabino, especialista em ictiologia (ramo da biologia que estuda os peixes), existe a suspeita de que os animais responsáveis pelos ataques sejam peixes de outras bacias hidrográficas, como o tambaqui, o pacu ou o híbrido tambacu — espécies comuns na bacia amazônica.
“O problema de introduzir espécies de outras bacias é que isso pode gerar um impacto drástico sobre a biodiversidade local. Bonito é famoso por seus jardins submersos únicos no mundo, e espécies herbívoras de grande porte podem alterar essa vegetação de forma irreversível”, alerta Sabino.
Esses peixes, além de se alimentarem de frutos, também consomem plantas aquáticas, o que pode provocar desequilíbrio ecológico, mudança no habitat e disputa por alimento com espécies nativas. O especialista lembra que o apelo turístico de Bonito está diretamente ligado à preservação da natureza e à transparência dos rios, que pode ser afetada por alterações no ecossistema.
Ibama investiga origem dos peixes e impactos ambientais
A analista ambiental do Ibama, Fabiane Souza, explicou que o foco da investigação é descobrir como essas espécies chegaram até a lagoa. A suspeita é de que elas tenham sido introduzidas artificialmente, algo que contraria as normas ambientais e pode gerar sanções severas.
“A introdução de espécies exóticas pode gerar impactos negativos no ecossistema local. Elas competem com os peixes nativos por alimento e espaço. Precisamos identificar se houve negligência ou descumprimento das regras ambientais por parte dos responsáveis pelo atrativo”, afirmou Fabiane.
A fiscalização utiliza drones, mergulhos e coleta de dados in loco, e o laudo técnico com os resultados deve ser publicado em até 20 dias. Caso a presença de espécies exóticas seja confirmada, os responsáveis podem sofrer autuações, processo administrativo e até a obrigação de retirar os animais da lagoa.
Lagoa artificial já havia sido interditada anteriormente
Essa não foi a primeira vez que o balneário foi alvo de fiscalização. Em março de 2025, o local foi interditado temporariamente pelo Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) após registros de ataques semelhantes. No início de abril, o espaço foi reaberto parcialmente, após a instalação de uma grade de contenção para impedir o acesso de peixes grandes às áreas de banho.
Mesmo com a medida, novos casos voltaram a ocorrer, levantando dúvidas sobre a eficácia do controle implementado e reforçando os riscos da manutenção de espécies não nativas em áreas de lazer.
Administração do balneário nega responsabilidade
O gerente da Praia da Figueira, Alex Kossmann, negou que tenha havido introdução de espécies exóticas e atribuiu os ataques ao comportamento dos próprios turistas, que, segundo ele, desrespeitam regras de segurança ao tentar alimentar os peixes.
“Tivemos 14 casos de mordidas, e em muitos relatos os próprios clientes contaram que estavam oferecendo comida aos peixes, o que é terminantemente proibido. Temos placas, panfletos e orientações para evitar esse tipo de situação, mas nem todos seguem”, disse Kossmann.
O gerente afirma que, em um período de apenas três meses, o atrativo recebeu mais de 26 mil visitantes, número que demonstra a popularidade do local, mas também levanta preocupações sobre a capacidade de fiscalização interna e educação ambiental dos frequentadores.
Bonito e a urgência por turismo sustentável
Bonito é referência internacional em turismo sustentável e já recebeu prêmios por suas práticas de preservação. No entanto, episódios como o recente colocam em risco a reputação e a integridade ambiental da região.
Especialistas e autoridades alertam que, para preservar o ecossistema e garantir a segurança dos turistas, é fundamental que regras ambientais sejam rigorosamente cumpridas, e que haja transparência na gestão de atrativos turísticos — especialmente aqueles que envolvem ambientes artificiais inseridos na natureza.
Com a divulgação do laudo nos próximos dias, a expectativa é que sejam tomadas medidas efetivas para proteger a fauna aquática local, impedir novos incidentes e garantir que o turismo continue sendo um aliado da conservação, e não uma ameaça.
Confira mais notícias sobre meio-ambiente no Portal E-Brasil.