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Campo Grande tem 7 de Setembro com atos opostos

Manifestações simultâneas tomam as ruas da capital de Mato Grosso do Sul; enquanto um grupo pedia anistia ao ex-presidente, outro protestava contra abusos e exigia sua prisão

O feriado de 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, foi marcado por contrastes intensos em Campo Grande. Em diferentes pontos da cidade, dois grandes movimentos ocuparam as ruas: de um lado, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro exigiam anistia e liberdade de expressão; do outro, manifestantes do tradicional Grito dos Excluídos protestavam contra o que chamam de “desigualdade institucional” e pediam justiça — com gritos exigindo a prisão do ex-chefe do Executivo.

Ambos os atos foram realizados após o desfile cívico-militar, mas seguiram rumos políticos e sociais completamente opostos. Os eventos aconteceram em clima tenso e mobilizaram figuras políticas de diversos espectros ideológicos, além de terem contado com forte presença das forças de segurança.

Marcha pela anistia reúne conservadores e levanta bandeiras dos EUA e de Israel

Na região dos altos da Avenida Afonso Pena, centenas de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro participaram da chamada “Marcha para a Família”, um ato convocado pelo PL (Partido Liberal) e por lideranças religiosas como o pastor Silas Malafaia. O principal objetivo: pedir “anistia ampla, geral e irrestrita” para Bolsonaro, alvo de investigações no STF (Supremo Tribunal Federal).

A manifestação teve trio elétrico, discursos inflamados e presença de políticos locais, como os deputados federais Rodolfo Nogueira (o “Gordinho do Bolsonaro”) e Marcos Pollon, além de vereadores do PL e do deputado estadual João Henrique Catan. “Esse é um movimento nacional. A sociedade está dizendo ‘basta’ ao regime de exceção que vivemos. Queremos justiça e liberdade”, afirmou Pollon.

As cores da bandeira do Brasil se misturavam a símbolos dos Estados Unidos e de Israel. Muitos usavam camisetas com o rosto de Bolsonaro e, entre os itens à venda, estavam máscaras de Donald Trump. Um grande boneco inflável do ex-presidente também foi montado em frente ao Bioparque Pantanal.

Para o casal Márcio e Fabiana Vivian, presentes no ato, a data deveria ser de reflexão, e não de celebração. “O 7 de Setembro representa a liberdade, mas vivemos hoje uma ditadura disfarçada. Queremos retomar a aliança com os Estados Unidos, que está sendo destruída pelo atual governo”, declarou Márcio.

Outros manifestantes, como Gabriel Medina e Solange Gomez, associaram o ato à liberdade de expressão. “Não estamos aqui pedindo votos para Bolsonaro. Estamos lutando pelo nosso direito de escolher sem sermos censurados. E os EUA têm apoiado investigações que devem expor os abusos do STF”, comentou Medina.

Grito dos Excluídos termina com confronto, spray de pimenta e prisão

Enquanto isso, no centro da cidade, outro grupo ganhava as ruas: participantes do Grito dos Excluídos, movimento tradicional realizado há mais de duas décadas no Brasil. Com forte presença de movimentos sociais, sindicatos e lideranças de esquerda, o grupo protestava contra a desigualdade social, a militarização da política e o que chamaram de “perseguição institucional às camadas mais vulneráveis da população”.

A passeata começou pacífica, mas acabou em confusão na Rua 13 de Maio, onde os manifestantes foram impedidos de avançar por grades colocadas pela Polícia Militar. Ao tentarem ultrapassar as barreiras, a PM usou spray de pimenta, gerando revolta entre os presentes.

Tiago Botelho, superintendente da SPU (Superintendência do Patrimônio da União) e um dos atingidos, relatou que foi surpreendido com o gás no rosto. “Foi uma ação desproporcional. Temos o direito constitucional de nos manifestar, mas fomos reprimidos sem diálogo”, afirmou.

Após o incidente, as grades foram removidas, mas autoridades do palanque oficial já haviam se retirado. O deputado federal Vander Loubet (PT) também condenou a atuação policial. “O protesto já tinha começado, como sempre acontece todo ano. A repressão foi desnecessária.”

A tensão aumentou quando um dos manifestantes foi detido e levado para a Depac Cepol. Segundo informações da PM, ele portava um facão, uma enxada e uma quantidade não revelada de entorpecentes. Representantes do MPL (Movimento Popular de Luta) alegaram que os instrumentos fazem parte das atividades rurais do grupo, mas afirmaram que todos foram orientados a não levar objetos do tipo para o ato.

Dois Brasis nas ruas

As manifestações simultâneas do 7 de setembro escancararam a polarização política e ideológica do Brasil atual. De um lado, a marcha conservadora pedia liberdade e anistia para o ex-presidente, e de outro, o grito da oposição exigia justiça e denunciava repressões.

Apesar dos incidentes, ambos os atos reuniram centenas de pessoas e revelaram a força das mobilizações populares, seja por meio da fé, da ideologia ou da indignação.

Campo Grande, neste 7 de setembro, foi palco de dois Brasis — que coexistem, se confrontam e seguem mobilizados.

Autoria: Sarah Pacini

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