Produtores de Mato Grosso do Sul enfrentam perdas significativas com a soja e preocupações crescentes com a segunda safra de milho
A safra 2024/2025 de soja em Mato Grosso do Sul chegou ao fim com um cenário preocupante: mais da metade das lavouras avaliadas foram classificadas como em condições ruins ou regulares. Segundo dados preliminares da Associação dos Produtores de Soja de MS (Aprosoja/MS), cerca de 2,33 milhões de hectares — o equivalente a 52% da área cultivada — sofreram com estresse hídrico ao longo do ciclo produtivo.
Apesar de a colheita ter sido oficialmente encerrada em 16 de maio, duas semanas mais tarde do que no ano anterior, os impactos das condições climáticas adversas ainda não foram totalmente quantificados. A Aprosoja/MS informou que a revisão das estimativas finais de produtividade e produção deve ser divulgada nas próximas semanas, após análise mais aprofundada dos danos causados pelas oscilações climáticas.
Inicialmente, a expectativa era de um crescimento de 6,8% em relação à safra 2023/2024, com uma área plantada de 4,501 milhões de hectares e produtividade média estimada em 51,7 sacas por hectare. Isso representaria uma produção total de cerca de 13,977 milhões de toneladas. No entanto, a estiagem prolongada, principalmente entre setembro e meados de outubro — período crucial para o desenvolvimento das lavouras — comprometeu fortemente a expectativa dos produtores.
Soja afetada pelo estresse hídrico
O estresse hídrico foi apontado como o principal fator responsável pela queda no desempenho das lavouras. A falta de chuvas regulares durante o período crítico do desenvolvimento da soja prejudicou a formação das vagens e o enchimento dos grãos, afetando diretamente o rendimento.
Especialistas da Aprosoja/MS explicam que as lavouras plantadas no início da janela agrícola, entre o final de setembro e a primeira quinzena de outubro, foram as mais atingidas. O plantio precoce, que geralmente é adotado para permitir o cultivo de uma segunda safra — geralmente de milho —, este ano se mostrou arriscado diante da instabilidade climática registrada.
Milho também sente os efeitos do clima e dos custos
A segunda safra de milho, cultivada após a soja, também enfrenta desafios. A área destinada ao cereal em 2025 representa apenas 47% da área antes ocupada com soja — uma queda expressiva em comparação aos 75% de anos anteriores. O recuo revela uma tendência de retração por parte dos produtores, que estão cada vez mais cautelosos diante do aumento dos custos de produção e da instabilidade climática.
Apesar disso, há algum otimismo moderado. As chuvas registradas no mês de abril favoreceram parte das lavouras de milho que estavam entre os estádios fenológicos V10 e R2 — fases críticas para a formação da espiga e polinização. Aproximadamente 50% das lavouras estavam nesses estágios durante o período de maior volume pluviométrico, o que pode garantir um bom rendimento nessas áreas.
Ainda assim, o cenário não é completamente seguro. Existe risco de estiagem e até mesmo de geadas até o fim do ciclo da cultura, o que deixa os produtores em estado de alerta. Qualquer variação negativa nas condições climáticas pode comprometer o potencial produtivo que restou.
Impacto econômico e decisões para a próxima safra
Com uma safra de soja comprometida e uma segunda safra de milho ainda cercada de incertezas, os produtores do estado já começam a rever seus planejamentos para o próximo ciclo. A diversificação de culturas tem sido uma alternativa cada vez mais considerada, tanto como forma de diluir os riscos financeiros quanto de adaptar o sistema produtivo às novas realidades climáticas.
Alguns produtores também têm apostado em tecnologias como o plantio direto, irrigação localizada e uso de cultivares mais resistentes ao estresse hídrico como estratégias para mitigar os impactos do clima. Ainda assim, essas práticas exigem investimentos adicionais — o que nem todos estão em condição de fazer.
A cadeia produtiva da soja e do milho, que tem papel crucial na economia de Mato Grosso do Sul, já sente os efeitos do desempenho abaixo do esperado. O enfraquecimento da safra impacta diretamente os setores de logística, armazenamento, comércio de insumos e financiamento agrícola.
Expectativa de dados consolidados
A Aprosoja/MS deve apresentar nas próximas semanas um relatório mais completo com a revisão da produção estadual e o levantamento do impacto financeiro causado pelas perdas na soja e na redução da área plantada com milho. Esse relatório servirá de base para que entidades do setor possam buscar apoio junto ao governo estadual e federal, seja por meio de renegociação de dívidas, seguros agrícolas ou linhas de crédito emergenciais.
Enquanto isso, produtores seguem atentos às condições climáticas e às previsões meteorológicas para o encerramento do ciclo do milho e o planejamento da próxima safra, conscientes de que a resiliência e a adaptação serão cada vez mais determinantes no sucesso da atividade agrícola.
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Autoria: Sarah Pacini