Em seus momentos finais, Francisco celebrou a Páscoa, promoveu gestos pastorais marcantes e reforçou apelos por paz. Saiba como foram as últimas 48 horas do pontificado que comoveu o mundo.
O Vaticano amanheceu em luto nesta segunda-feira, 21 de abril de 2025, com o anúncio oficial da morte do Papa Francisco, aos 88 anos. O pontífice faleceu na residência da Casa Santa Marta, encerrando um dos papados mais transformadores da história moderna da Igreja Católica. Sua despedida aconteceu apenas um dia após sua última aparição pública — uma breve, porém impactante, saudação aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro, no Domingo de Páscoa.
Mesmo debilitado por uma pneumonia bilateral, o Papa fez questão de manter presença nos rituais centrais da Semana Santa, demonstrando resiliência e fidelidade à missão que assumira há mais de uma década. Suas palavras finais em vida pública ecoaram pela praça lotada e foram ouvidas ao redor do mundo, reafirmando a defesa da liberdade religiosa, do desarmamento e da justiça global.
Enfraquecido, mas presente: uma última Páscoa de fé e coragem
No dia 20 de abril, Domingo de Páscoa, Francisco apareceu na sacada da Basílica de São Pedro. A multidão, emocionada, testemunhou um momento tocante: o Papa, com a voz fraca e visível dificuldade respiratória, delegou a leitura de sua mensagem pascal a um assessor, mas fez questão de se dirigir aos fiéis com um gesto final de proximidade.
A mensagem, escrita por ele próprio, foi um apelo à paz duradoura, à liberdade de expressão e à solidariedade com os povos em sofrimento. Francisco denunciou a crise humanitária na Faixa de Gaza, pediu um cessar-fogo urgente e reafirmou seu compromisso com o desarmamento global — uma das bandeiras recorrentes de seu pontificado.
Ao término da celebração, o pontífice deu uma volta simbólica em seu papamóvel, acenando para os fiéis, que o aplaudiram comovidos. Seria a última vez que o mundo o veria em vida.
Encontro com JD Vance: diplomacia nos últimos momentos
Poucas horas antes da celebração da Páscoa, Francisco recebeu o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, em uma audiência reservada na Casa Santa Marta. O encontro foi breve, porém simbólico. Dois meses após ter criticado publicamente as políticas migratórias da gestão Trump, o Papa manteve o tom diplomático e cordial com o político republicano.
Na ocasião, Francisco presenteou Vance com rosários, uma gravata com o brasão do Vaticano e ovos de chocolate para os filhos do vice-presidente americano. O momento foi registrado em vídeo, no qual JD Vance expressou seus votos de saúde e gratidão ao Papa:
— É um prazer vê-lo com melhor saúde. Obrigado por me receber. Eu oro por você todos os dias. Que Deus o abençoe.
Durante o encontro, temas como liberdade religiosa, perseguição a cristãos e a crise migratória global foram discutidos. Mesmo com visões políticas divergentes, os dois líderes reforçaram o valor do diálogo inter-religioso e do respeito à dignidade humana — princípios constantemente reiterados por Francisco ao longo de seu papado.
Últimos gestos pastorais: a prisão, os fiéis e as crianças
Apesar do agravamento do seu estado de saúde, o Papa ainda encontrou forças para manter alguns compromissos da Semana Santa. Na Quinta-feira Santa, fez uma visita pastoral a um presídio em Roma, onde se encontrou com cerca de 70 detentos. A ação foi seu único compromisso oficial da semana, uma decisão motivada pelas limitações físicas que o impediram de participar da Via Sacra no Coliseu e da tradicional Vigília Pascal.
No sábado, 19 de abril, Francisco apareceu discretamente na Basílica de São Pedro para rezar diante da imagem da Virgem Maria. A visita, curta e silenciosa, foi seguida por um momento de carinho com os fiéis: o Papa cumprimentou pessoalmente algumas pessoas próximas ao altar e distribuiu doces às crianças.
Esses pequenos, mas significativos gestos foram a expressão final de sua identidade pastoral: um líder espiritual que priorizava o contato direto com as pessoas, sobretudo as mais vulneráveis, mesmo em seus últimos dias.
A luta contra a doença: pneumonia e internações prolongadas
A fragilidade física de Francisco já era visível há meses. Em 14 de fevereiro de 2025, ele foi internado no Hospital Gemelli, em Roma, com um quadro de bronquite severa, que evoluiu para pneumonia em ambos os pulmões. A infecção foi classificada pelos médicos como “polimicrobiana” — um tipo grave que exigiu o uso combinado de antibióticos e corticoides.
Após mais de um mês de hospitalização, o Vaticano anunciou a alta hospitalar no fim de março, e Francisco surpreendeu ao aparecer, no dia 6 de abril, na Praça São Pedro. Abençoou os fiéis e cumprimentou pessoalmente aqueles que celebravam uma missa dedicada aos doentes, dando sinais de que poderia retomar, ainda que parcialmente, suas funções.
Contudo, a melhora foi temporária. Internamente, já se reconhecia que seu estado era delicado. A decisão de participar de forma limitada da Semana Santa foi, para muitos, uma despedida silenciosa e consciente — uma última entrega à fé que o movia.
A morte e a comoção global
A notícia de sua morte na manhã do dia 21 de abril causou comoção entre católicos e líderes religiosos de todo o mundo. Fiéis se reuniram em igrejas e praças em Roma, Paris, Buenos Aires, Manila e dezenas de outras cidades para prestar homenagens. Missas e vigílias em sua memória foram celebradas em múltiplas línguas, um reflexo da dimensão universal de sua liderança.
O funeral de Francisco será marcado por uma cerimônia solene com caixão aberto de madeira e zinco, conforme os ritos reservados aos papas. Excepcionalmente, o enterro não ocorrerá nas tradicionais criptas do Vaticano, mas em local ainda não oficialmente divulgado, conforme seu desejo pessoal.
Uma vida que inspirou uma nova visão de Igreja
Desde que assumiu o papado em 2013, Francisco se destacou por romper com formalismos e por seu carisma acessível. Ex-arcebispo de Buenos Aires, foi um papa que preferiu a simplicidade à ostentação, que rejeitou títulos pomposos e morou na Casa Santa Marta, em vez do Palácio Apostólico.
Sua trajetória foi marcada por posições firmes em defesa dos pobres, dos migrantes, do meio ambiente e das minorias. Reformou estruturas internas do Vaticano, ampliou o espaço de atuação das mulheres e buscou uma Igreja mais aberta à inclusão, sem abrir mão dos pilares da fé católica.
A última Páscoa de Francisco não foi apenas um rito. Foi um adeus sereno, coerente com tudo que pregou: uma liderança espiritual firmada na compaixão, na justiça e na esperança.
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Autoria: Sarah Pacini