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Confira a história da Comunidade Quilombola Tia Eva

Fundada no fim do século XIX, a Comunidade Quilombola Tia Eva simboliza luta, ancestralidade e a realidade da população negra no Estado, ainda marcada por exclusão territorial e desigualdade socioeconômica.

A história da Comunidade Quilombola Tia Eva, em Campo Grande, é um retrato vivo da resistência negra, da ancestralidade preservada e também das desigualdades raciais que persistem em Mato Grosso do Sul. Fundada no final do século XIX pela líder espiritual e matriarca Eva Maria de Jesus, mais conhecida como Tia Eva, a comunidade atravessou gerações mantendo viva uma memória que a cidade, muitas vezes, preferiu esquecer. Hoje, o quilombo urbano se firma como símbolo de luta e de pertencimento para centenas de moradores, mesmo diante de desafios sociais antigos que continuam a marcar a vida da população negra da capital.

Em pleno Dia da Consciência Negra, celebrado oficialmente em Campo Grande desde 2024, a história de Tia Eva ressurge como espelho da realidade atual: ainda que a data estimule reflexões e políticas afirmativas, a exclusão territorial, a vulnerabilidade econômica e a invisibilidade histórica continuam sendo vivências concretas de muitos sul-mato-grossenses pretos e pardos.

Um território ancestral no coração da cidade

Atualmente, a Comunidade Quilombola Tia Eva abriga 428 moradores, dos quais 326 se autodeclaram quilombolas. O reconhecimento oficial do território, conquistado em setembro de 2025, marcou um passo importante na garantia dos direitos coletivos, mas também evidenciou o tempo que as comunidades tradicionais levaram para obter reconhecimento institucional. São 21,5 hectares de área que guardam a Igreja de São Benedito, referência espiritual do quilombo, e o busto da própria Tia Eva, homenagens que mantêm viva a força de sua liderança e das histórias transmitidas oralmente.

A igreja, construída com esforço comunitário e devoção, tornou-se marco histórico da resistência negra urbana em Campo Grande. Suas paredes guardam rezas, festas, tradições e rituais que atravessam gerações, mantendo uma cultura que, apesar da modernização da capital, nunca deixou de pulsar naquele território.

A herança de Tia Eva e a resistência negra urbana

Eva Maria de Jesus chegou à região no final do século XIX, fugindo da violência que atingia populações negras em diferentes partes do Brasil. Ao fundar o quilombo, criou não apenas um território físico, mas um espaço espiritual e cultural onde famílias negras pudessem viver, trabalhar, rezar e cultivar suas tradições. O quilombo cresceu, resistiu às pressões urbanas, às tentativas de descaracterização e ao racismo estrutural. Sobreviveu porque a memória de Tia Eva permanece viva em cada família que ali mora.

A comunidade é, até hoje, exemplo raro de quilombo urbano, mostrando que a resistência negra não pertence apenas ao passado rural, mas também às cidades, que muitas vezes escondem seus próprios territórios ancestrais sob camadas de crescimento urbano e invisibilidade.

Dados que revelam a desigualdade racial em Mato Grosso do Sul

O contexto social do Estado reforça a importância de comunidades como Tia Eva. Segundo o Censo 2022, Mato Grosso do Sul possui 46,93% de população parda e 6,50% preta — mais da metade dos moradores se autodeclaram negros. No entanto, quando indicadores de renda e moradia entram na análise, a desigualdade aparece de forma contundente.

Entre 2012 e 2023, os lares compostos exclusivamente por pessoas negras chegaram a 419,5 mil, equivalendo a 40,8% das residências do Estado. Apesar da presença significativa na composição demográfica, a renda média nesses lares continua inferior à de domicílios chefiados por pessoas brancas.

Os números mais recentes apontam que:

Esses recortes escancaram a dimensão econômica da desigualdade racial no Estado e ajudam a explicar por que comunidades como Tia Eva enfrentam desafios que vão muito além do reconhecimento identitário.

Políticas públicas ainda insuficientes

Em 2024, a Prefeitura de Campo Grande lançou o programa “Novembro Negro”, coordenado pela CPPIR (Coordenadoria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), com o objetivo de ampliar discussões sobre racismo, promover ações afirmativas e valorizar a cultura afro-brasileira. No entanto, medidas institucionais não têm sido suficientes para alterar a estrutura que mantém a população negra concentrada nas regiões periféricas, com menor acesso a serviços públicos, moradia digna e oportunidades de trabalho.

A realidade da capital demonstra que a desigualdade racial não se resolve apenas com datas comemorativas ou discursos – é preciso políticas permanentes, orçamento dedicado, reconhecimento territorial e reparação histórica.

Tia Eva como símbolo e resistência

A figura de Tia Eva, representada no busto instalado em frente à Igreja de São Benedito, segue inspirando gerações. Não apenas pela criação do quilombo, mas pela força da mulher negra que desafiou seu tempo, liderou famílias e ergueu um território onde a memória e a fé se tornaram indissociáveis da identidade local.

A comunidade se mantém como espaço de luta, orgulho e afirmação cultural. Suas tradições, festas, rezas e modos de vida resistem às pressões do crescimento urbano e funcionam como lembrete permanente de que a história de Campo Grande é, também, a história da resistência negra.


A Comunidade Quilombola Tia Eva permanece como um dos mais importantes marcos da luta por direitos, memória e igualdade racial em Mato Grosso do Sul. Suas conquistas recentes e seus desafios atuais revelam que, embora avanços existam, a desigualdade ainda marca profundamente a vida da população negra sul-mato-grossense. Honrar Tia Eva é, portanto, reconhecer que a luta continua — e que o futuro só será mais justo se vier acompanhado de ações concretas que transformem essa realidade.

Autoria: Sarah Pacini.

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