Filme emociona ao mostrar a vida de um artista que perde a visão e convida o público a repensar o capacitismo ainda presente na sociedade
Com uma abordagem sensível, poética e transformadora, o curta-metragem “Olhos Fechados” estreou na noite desta terça-feira (7) no Sesc Teatro Prosa, em Campo Grande, emocionando o público e abrindo espaço para uma importante reflexão sobre como a sociedade enxerga — ou deixa de enxergar — as pessoas com deficiência visual.
Dirigido pelo cineasta Roberto Leite, o filme traz como protagonista Guto, um artista plástico que perde a visão na fase adulta e precisa reconstruir sua vida, suas rotinas e, principalmente, sua forma de se relacionar com o mundo. Mas ao contrário do que muitos imaginam, a narrativa não gira em torno da perda, da dor ou da limitação. Pelo contrário: ela destaca a força, a independência e a alegria de viver que seguem intactas — ou até mais intensas — mesmo com a deficiência visual.
Um mergulho na realidade e nas emoções
Durante a produção, elenco e equipe passaram por uma imersão que foi além do set de filmagem. O chamado “laboratório da vida real” trouxe experiências práticas e conversas com pessoas cegas de nascimento ou que perderam a visão ao longo da vida. Essa convivência direta foi fundamental para desconstruir visões estereotipadas e enriquecer as interpretações.
“O que aprendemos com eles foi algo profundo. O capacitismo, para essas pessoas, simplesmente não existe. Elas não se veem como ‘coitadas’ ou ‘limitadas’. Elas vivem. Constroem suas histórias, criam filhos, trabalham, se divertem. Isso nos mostrou o quanto nossa visão, muitas vezes, é contaminada por uma ideia equivocada de deficiência”, destacou Roberto Leite, emocionado após a exibição do filme.
Segundo o diretor, o roteiro de “Olhos Fechados” estava guardado há anos, aguardando o momento certo para sair do papel. Esse momento chegou com o incentivo da Lei Paulo Gustavo, que possibilitou a captação de recursos para a realização do projeto.
Pantanal como cenário e inspiração
As paisagens do Pantanal sul-mato-grossense ganham destaque ao longo do curta. Mesmo que o protagonista não possa mais ver com os olhos físicos, o filme nos convida a sentir a beleza da natureza através de outros sentidos: sons, memórias, emoções.
“Mostramos o Pantanal como ele é: exuberante, grandioso, mas também delicado. É o céu, o verde, a travessia da boiada, o cheiro da terra molhada. Guto enxerga isso tudo com a alma, com a lembrança e com o sentimento. Essa é a mensagem: nem tudo o que importa na vida depende da visão”, explica Leite.
As imagens são entrelaçadas com diálogos intensos e silenciosos, deixando espaço para o público refletir. A fotografia do curta também é um ponto alto, revelando, com delicadeza, como a escuridão pode ser habitada por luz interior.
Protagonista emociona com atuação sensível
Vivido pelo ator Leandro Marques, o personagem Guto é a representação viva da resiliência e da redescoberta. Marques relata que mergulhar nesse papel foi um dos maiores desafios de sua carreira, não apenas pela técnica, mas pela carga emocional envolvida.
“Interpretar alguém que perde a visão me exigiu ir além da atuação. Tive que desconstruir muitas ideias que eu mesmo carregava. O processo de pesquisa já foi transformador. Estar com pessoas cegas, ouvir suas histórias, entender como elas vivem… Isso me emocionou profundamente”, contou o ator.
Ele destacou ainda que o filme serviu como aprendizado sobre capacitismo, termo que define a discriminação ou preconceito contra pessoas com deficiência. “Durante as filmagens, eu percebi o quanto somos ensinados a olhar para essas pessoas com pena, com superioridade. Mas elas são plenas, felizes, realizadas. Isso me marcou muito”, completou.
Um projeto para além das telas
Mais do que um filme, “Olhos Fechados” se propõe como um instrumento de educação e sensibilização. A intenção da equipe é levá-lo para escolas, centros culturais, universidades e promover rodas de conversa com o público. O objetivo é ampliar a discussão sobre inclusão, acessibilidade e a quebra de paradigmas relacionados à deficiência visual.
“A arte tem esse poder de abrir olhos — especialmente os olhos da alma. E é isso que queremos com esse projeto: tocar as pessoas de forma profunda e provocar uma mudança real no olhar da sociedade”, finalizou Roberto Leite.
Representatividade e autenticidade
Vale destacar que, durante a produção, o contato com pessoas com deficiência visual não foi apenas consultivo, mas essencial para garantir autenticidade ao roteiro. O elenco e a equipe técnica buscaram compreender nuances do cotidiano dessas pessoas para que a obra fosse respeitosa e verdadeira em sua proposta.
A recepção calorosa do público no Sesc Teatro Prosa indica que “Olhos Fechados” já cumpre seu papel: emocionar, educar e, principalmente, fazer pensar.
Com cenas impactantes e diálogos que tocam, o curta-metragem marca um importante passo na luta contra o capacitismo e a favor da inclusão com dignidade.
Autoria: Sarah Pacini
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