Movimentos históricos, oportunidades econômicas e a Marcha para o Oeste ajudaram a fixar a cultura gaúcha no território sul-mato-grossense
A história da presença gaúcha em Mato Grosso do Sul é muito mais do que uma migração em busca de terras férteis. É um legado cultural construído por gerações que deixaram o Sul do Brasil e trouxeram consigo tradições, costumes e um forte senso de comunidade. Neste 20 de setembro, data em que se comemora o Dia do Gaúcho, a memória desses movimentos migratórios ganha destaque e reforça a importância da cultura sulista no cenário sul-mato-grossense.
O enraizamento da cultura gaúcha no estado teve início ainda no século XIX, durante o período da Guerra do Paraguai (1864-1870). Foi nesse contexto que os primeiros grupos sulistas – compostos principalmente por italianos, alemães e negros do sul do Brasil – se deslocaram até o então território do Mato Grosso. A mobilização para o conflito gerou uma primeira onda migratória que marcaria o início da presença gaúcha na região.
Guerra do Paraguai: A Semente da Presença Gaúcha no Estado
De acordo com a professora, arquiteta e urbanista Graciana Goedert, esses primeiros gaúchos enviados à região para atuar na guerra encontraram aqui campos férteis, ideais para agricultura e pecuária, que lembravam as planícies do sul. Ao retornarem para suas cidades de origem, compartilharam as experiências positivas e passaram a incentivar novas migrações. Foi esse boca a boca que deu início ao que viria a ser um grande movimento de deslocamento em direção ao Centro-Oeste.
As primeiras áreas a receberem os gaúchos foram regiões como Amambai, Ponta Porã, Bela Vista e Dourados, municípios que ainda hoje mantêm forte influência das tradições do sul do país.
Marcha para o Oeste: A Consolidação da Migração
Décadas depois, durante o governo de Getúlio Vargas, a migração gaúcha ganhou um novo impulso com a política da Marcha para o Oeste, iniciada na década de 1930. O objetivo era claro: ocupar o território brasileiro de maneira estratégica, povoando áreas pouco exploradas no Norte e Centro-Oeste. Mais uma vez, os gaúchos atenderam ao chamado.
Com experiência em agricultura, pecuária e manejo da terra, os migrantes do sul viram no projeto de Vargas uma chance de melhorar de vida. Porém, a realidade no novo território não era simples. A maioria das áreas ainda apresentava matas fechadas, ausência de infraestrutura urbana e acesso difícil. Além disso, enfrentavam doenças tropicais, conflitos com povos indígenas e escassez de ferramentas agrícolas modernas.
Apesar das adversidades, a perseverança dos gaúchos foi determinante para que pudessem transformar áreas inóspitas em comunidades produtivas, contribuindo diretamente para o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul.
Tradições Mantidas Pela Força da Comunidade
O diferencial da migração gaúcha foi a forma como os grupos se organizavam. Segundo Graciana, as famílias gaúchas migravam em blocos, ocupando o mesmo território ou áreas próximas, o que facilitava a manutenção dos laços culturais e familiares.
Esses agrupamentos deram origem aos CTGs – Centros de Tradições Gaúchas, que são hoje os grandes guardiões da cultura sulista fora do Rio Grande do Sul. O CTG Farroupilha, fundado em 1º de maio de 1962, foi o primeiro a surgir no Estado, servindo de modelo para outros que seriam criados nos anos seguintes.
Nos CTGs, tradições como o churrasco, o chimarrão, as danças típicas, as vestimentas tradicionais e a música gaúcha são mantidas vivas. Mais do que espaços de lazer, esses centros funcionam como pilares da identidade gaúcha, reforçando valores como a união familiar, a religiosidade, o amor à terra e o respeito pelas raízes.
Identidade Gaúcha em Solo Sul-Mato-Grossense
Mesmo fora de seu estado natal, os gaúchos conseguiram preservar suas tradições e criar um ambiente onde a cultura sulista prospera até hoje. Essa permanência cultural não se limita às danças ou roupas típicas: ela está presente no modo de vida rural, na arquitetura das casas, nos almoços de domingo em família, na culinária e nas festas tradicionais.
A arquiteta Graciana destaca que esse fenômeno é resultado direto do forte senso de pertencimento e da valorização das origens. “As raízes culturais dos gaúchos estão no amor pela terra, na sua relação com o modo de vida nas instâncias, a agricultura e a pecuária. A identidade gaúcha se perpetua por meio dessas tradições que envolvem o uso das vestimentas típicas, o churrasco, o chimarrão, que são elementos de partilha”, explica.
Hoje, é possível encontrar essa influência em diversos municípios de Mato Grosso do Sul, não apenas nos CTGs, mas também nas feiras, nos hábitos alimentares, nas celebrações religiosas e até na política local, onde muitos descendentes de gaúchos ocupam cargos importantes.
Uma Cultura Que Se Misturou ao Estado
A migração dos gaúchos para Mato Grosso do Sul, ao longo dos séculos XIX e XX, não apenas ajudou a povoar e desenvolver regiões pouco exploradas, como também enriqueceu a diversidade cultural do estado. O que começou como uma mobilização de guerra, evoluiu para um movimento duradouro que moldou a economia, a sociedade e os costumes locais.
Neste 20 de setembro, Dia do Gaúcho, é importante reconhecer a contribuição desses migrantes para a formação da identidade sul-mato-grossense e celebrar a permanência de suas tradições. Mais do que uma lembrança histórica, o legado dos gaúchos no estado é uma presença viva que continua a influenciar gerações.
Autoria: Sarah Pacini
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