Audinei Edison de Carvalho, de 46 anos, havia chegado recentemente ao IPCG e dividia cela com mais de 70 presos
Um detento de 46 anos foi encontrado sem vida na noite desta quarta-feira (8) dentro de uma das celas do Instituto Penal de Campo Grande (IPCG), uma das unidades prisionais de regime semiaberto da Capital. O homem, identificado como Audinei Edison de Carvalho, havia ingressado recentemente na unidade e ocupava uma cela junto a outros 71 internos.
De acordo com o boletim de ocorrência, a equipe de perícia criminal da Polícia Civil foi acionada por volta das 20h para atender a ocorrência no IPCG. Ao chegar no local, os peritos constataram que o corpo não apresentava marcas visíveis de violência, como lesões externas ou sinais de agressão.
Informações preliminares levantadas no local apontam que Audinei possuía histórico médico, o que pode indicar que a morte tenha ocorrido por causas naturais ou relacionadas a problemas de saúde preexistentes. No entanto, a causa exata da morte ainda será esclarecida após os exames necroscópicos realizados pelo IMOL (Instituto de Medicina e Odontologia Legal).
Cela estava superlotada: 72 presos em um único espaço
Um dos pontos que mais chama atenção no caso é a superlotação da cela onde o detento foi encontrado. Conforme apurado, 72 homens ocupavam o mesmo espaço, o que revela a situação precária do sistema carcerário no estado de Mato Grosso do Sul.
O número ultrapassa em muito o limite aceitável para a convivência mínima com dignidade e segurança, dificultando o acesso a cuidados básicos de saúde, higiene e até mesmo observação de sinais de emergência médica entre os detentos.
Fontes do sistema penitenciário informaram que Audinei era considerado recém-chegado ao Instituto Penal e ainda não havia sido totalmente integrado às atividades da unidade. A forma como sua morte foi percebida e comunicada às autoridades segue em investigação, mas os internos teriam relatado que ele passou mal pouco antes de ser encontrado desacordado.
Morte registrada como “decorrente de fato atípico”
Após os trabalhos periciais, o caso foi registrado na Depac Cepol (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) como “morte decorrente de fato atípico”, um termo utilizado quando não há indícios claros de crime ou violência.
A investigação segue sob responsabilidade da Polícia Civil, que aguarda o laudo da necropsia para confirmar a causa da morte e verificar se houve negligência por parte da unidade prisional, seja no atendimento médico ou na vigilância dos internos.
Sistema prisional de MS acumula denúncias de superlotação
A morte de Audinei reacende o debate sobre as condições de encarceramento em Mato Grosso do Sul, um dos estados com maior população carcerária proporcional do Brasil. Em diversas unidades prisionais, especialmente de regime semiaberto, o número de internos supera em mais de 100% a capacidade oficial.
Organizações de direitos humanos e defensorias públicas já alertaram repetidamente sobre a falta de acesso a serviços de saúde, inclusive para detentos com doenças crônicas ou comorbidades. As celas superlotadas e mal ventiladas contribuem para o agravamento de quadros clínicos, que poderiam ser evitados com assistência adequada.
Segundo dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), o IPCG tem enfrentado dificuldades para manter a estrutura mínima diante do número crescente de presos transferidos ou admitidos após progressões de pena.
Situação de saúde de presos deve ser prioridade, alerta especialista
Para o advogado criminalista e especialista em execução penal Mateus Ferreira, o caso evidencia mais uma vez a urgência de reformas estruturais no sistema penitenciário.
“É inadmissível que uma cela abrigue mais de 70 pessoas. A dignidade da pessoa humana deve ser preservada mesmo durante o cumprimento da pena. Morrer sem atendimento médico adequado dentro de uma prisão é uma falha grave do Estado”, pontua.
Ele ressalta ainda que o Estado é responsável legal pela integridade física e moral dos detentos. “Se a morte for comprovadamente por negligência no atendimento ou pela ausência de condições mínimas, cabe responsabilização administrativa e até judicial dos responsáveis.”
Corpo foi levado ao IMOL e será sepultado após laudo
Após a liberação da perícia, o corpo de Audinei foi removido e encaminhado ao IMOL de Campo Grande, onde passará por exames necroscópicos. A previsão é de que o laudo preliminar com a causa da morte seja emitido nos próximos dias.
Parentes do detento foram comunicados e aguardam os procedimentos legais para realizar o sepultamento. Não há informações se Audinei deixa filhos ou companheira.
O IPCG ainda não se manifestou oficialmente sobre a morte ou as condições da cela onde o interno estava. O caso segue em apuração.
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Autoria: Sarah Pacini