Em produção no coração do bioma, filme sul-mato-grossense conduzido por equipe majoritariamente feminina retrata a vida de quatro mulheres pantaneiras por meio das fases da Lua
Com roteiro que entrelaça natureza, ancestralidade, identidade e a força do feminino, o documentário “Quatro Luas Pantaneiras” já está em plena fase de produção. A equipe da obra, composta em sua maioria por mulheres, deixou Campo Grande no início de maio e segue pelo bioma pantaneiro captando imagens e histórias que darão vida ao longa-metragem.
A obra documental — que se desenvolve ao longo das quatro fases da Lua — busca retratar a vida, os sonhos, os desafios e as belezas da existência de quatro mulheres pantaneiras “raiz”, vivendo em regiões remotas do Pantanal de Mato Grosso do Sul, como Paiaguás, Amolar, Paraguai-Mirim e Albuquerque.
O filme é mais do que um registro geográfico ou social: é um mergulho sensível na subjetividade feminina inserida em um dos ecossistemas mais ricos e ameaçados do planeta.
Um projeto concebido há mais de 20 anos
A ideia original surgiu ainda em 2003, fruto de conversas entre as amigas Ana Carla Loureiro e Lina Benitez — diretora de audiovisual e produtora cultural, respectivamente. À época, o projeto previa uma abordagem multiplataforma: um livro, um documentário e uma coletânea de fotos. No entanto, questões pessoais e profissionais deixaram a iniciativa adormecida por mais de duas décadas.
Foi com os recentes incentivos da Lei Paulo Gustavo que a proposta ganhou fôlego para ser finalmente executada. Agora em novo formato, “Quatro Luas Pantaneiras” renasce como um documentário com direção geral e roteiro assinados por Ana Carla Loureiro e produção da Cist, em coprodução com a Quíron 5 Filmes.
A realização conta com recursos da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, do Governo do Estado, Ministério da Cultura, Governo Federal e com apoio da Pantanal Film Commission.
Narrativas conduzidas pelas fases da Lua
A estrutura narrativa do documentário é inspirada nas quatro fases da Lua — nova, crescente, cheia e minguante —, que funcionam como metáforas poéticas para diferentes etapas da vida e dos ciclos das personagens retratadas.
Cada fase simboliza aspectos emocionais e simbólicos da jornada feminina no Pantanal: o nascimento dos sonhos, a construção da identidade, os momentos de plenitude e também as fases de recolhimento, dor ou renascimento.
“A Lua é uma guia ancestral para as mulheres, uma contadora de tempo e de emoções. É um símbolo poderoso que conecta as personagens entre si e também com a terra, com o bioma, com as águas”, explica Ana Carla Loureiro.
Mulheres por trás e diante das câmeras
Além de colocar as mulheres pantaneiras no centro da narrativa, a equipe responsável pela obra é majoritariamente feminina — uma escolha consciente e política da direção. A fotografia é comandada por Wlacyra Lisboa, uma das pioneiras brasileiras na direção de fotografia voltada à natureza e temas ecológicos.
A equipe conta ainda com a jornalista e fotógrafa Elis Regina Nogueira e o videomaker Kojiroh, ambos de Mato Grosso do Sul. A produção local e pesquisa de personagens está sob responsabilidade de Bianca Machado, que atua diretamente em Corumbá e regiões próximas. Já a direção de produção é assinada por Rogério Elton Hermes, proprietário da Cist.
“É um documentário feito por mulheres, sobre mulheres, mas que fala de humanidade, de resistência, de beleza e da conexão com a natureza. É também sobre sonhos que resistem ao tempo, assim como o próprio projeto, que renasceu depois de tantos anos”, afirma Lina Benitez.
Um Pantanal que vai além do turismo
Com forte presença na memória afetiva e cultural do Brasil, o Pantanal é muitas vezes retratado apenas sob a ótica do turismo ecológico ou da fauna exuberante. “Quatro Luas Pantaneiras” propõe uma inversão dessa lente, focando no olhar humano e feminino sobre o bioma.
As quatro mulheres pantaneiras retratadas vivem em regiões afastadas dos centros urbanos, e suas histórias revelam tanto os encantos quanto os desafios de uma vida marcada pela relação intensa com o território. São pescadoras, agricultoras, mães, artistas ou curandeiras — cada uma com sua história singular e potente.
Lançamento previsto e impacto cultural
Ainda em fase de filmagens, a previsão é que o documentário seja finalizado até o final de 2025. A proposta é que ele circule por festivais de cinema, mostras culturais, escolas, além de exibições abertas em comunidades pantaneiras.
“Queremos que o filme não apenas emocione, mas também reflita a importância da preservação do Pantanal e da valorização das mulheres que o habitam. São vozes invisibilizadas que agora ganham espaço e projeção”, afirma Ana Carla.
“Quatro Luas Pantaneiras” representa um esforço coletivo de valorização da memória, da ecologia e da força feminina — um retrato poético e político de um Brasil profundo, muitas vezes esquecido, mas de uma beleza e resiliência imensuráveis.
Para mais notícias sobre a produção cultural em Mato Grosso do Sul, confira o Portal E-Brasil.
Autoria: Sarah Pacini.