Ícone do site Portal E-Brasil

Entregadores reagem a mudanças do iFood após paralisação

Um mês após o movimento “Breque dos Apps”, entregadores criticam reajuste insuficiente e mantêm mobilização por melhores condições de trabalho.

Um mês após a paralisação nacional conhecida como “Breque dos Apps”, a plataforma iFood anunciou mudanças nas condições oferecidas aos entregadores. As alterações, porém, estão longe de atender às reivindicações da categoria, segundo líderes do movimento. Em Campo Grande, onde cerca de 40 entregadores participaram do protesto no dia 31 de março, a resposta da empresa foi recebida com frustração.

As medidas, que segundo o iFood são resultado de “diálogo com os entregadores”, incluem aumento da taxa mínima de entrega e ampliação da cobertura de seguros. No entanto, as principais demandas — como o reajuste do valor por quilômetro rodado e um aumento mais significativo da taxa mínima — não foram atendidas.

Para Douglas Ximenes, de 28 anos, um dos organizadores do protesto em Campo Grande, a atualização promovida pelo iFood é meramente simbólica. “Eles aumentaram só R$ 1,00 na taxa mínima. Isso não cobre o custo do nosso trabalho. E o pior é que só vai começar a valer a partir de 1º de junho”, afirma o entregador. “Não mudaram nada de verdade. Ficou tudo praticamente igual.”

Reivindicações ignoradas

O movimento nacional reivindicava reajustes há muito tempo considerados urgentes pela categoria. Dentre os pedidos principais estavam:

Em resposta, o iFood anunciou:

Mesmo com a inclusão de medidas sociais, como suporte à educação dos filhos e coberturas adicionais para entregadoras mulheres, os trabalhadores destacam que os pontos econômicos centrais não foram atendidos.

“O que pedimos é dignidade no pagamento. Tem entregador rodando 12 horas por dia para fazer R$ 70 ou R$ 80. Não adianta dar seguro se não conseguimos pagar o aluguel ou colocar comida em casa”, reforça Ximenes.

Ampliação do seguro: avanço limitado

A principal novidade anunciada pela plataforma está relacionada ao seguro ofertado aos entregadores. O iFood informou que a cobertura de Incapacidade Temporária (DIT) foi ampliada de 7 para 30 dias. Além disso, o valor de indenização em casos de morte ou invalidez total agora é de R$ 120 mil.

Outros benefícios incluem cobertura ou reembolso de despesas médicas, auxílio-funeral, apoio emocional e assistência à educação dos filhos até os 18 anos em caso de falecimento do trabalhador. Para as mulheres, o seguro oferece ainda cobertura em diagnósticos de câncer, auxílio à gestação e licenças especiais.

Apesar da relevância dessas garantias, a insatisfação permanece. A crítica mais recorrente é que, embora o pacote de seguro represente um avanço no cuidado com os entregadores, ele não responde ao problema imediato da baixa remuneração.

“Seguro é importante, mas e o agora? A gente precisa de dinheiro para trabalhar hoje. A moto precisa de combustível, manutenção, tem conta para pagar. Eles estão oferecendo um plano bonito no papel, mas que não ajuda no que mais precisamos neste momento”, destaca outro entregador que preferiu não se identificar.

Categoria cogita novas paralisações

Com a percepção de que o iFood ignorou as demandas centrais da categoria, entregadores em diversas partes do país já discutem novos atos. Douglas Ximenes afirma que articulações com entregadores de São Paulo e outros estados estão em curso. “Vamos conversar com outros grupos para decidir os próximos passos. Mas do jeito que está, não vai ficar”, garante.

A paralisação de março marcou o retorno das mobilizações em massa da categoria, que desde 2020 se organiza em movimentos como o “Breque dos Apps” para exigir condições mínimas de trabalho digno. Sem vínculo empregatício com as plataformas, os entregadores atuam como autônomos, o que os torna vulneráveis a variações bruscas nas remunerações e desprotegidos diante de acidentes, doenças e outras emergências.

Contexto mais amplo: precarização e resistência

O caso do iFood é apenas um exemplo da precarização enfrentada pelos trabalhadores de aplicativos em todo o país. Com o avanço da economia de plataformas, cresce também a discussão sobre a necessidade de regulamentação e proteção legal para esses profissionais.

Em 2024, o governo federal chegou a propor diretrizes para a formalização de entregadores e motoristas de aplicativos, mas o debate esbarrou na resistência das empresas e na complexidade do modelo de negócios. Enquanto isso, trabalhadores seguem se organizando por meio de redes sociais, grupos de WhatsApp e associações locais para pressionar por mudanças reais.

O que está em jogo não é apenas o valor de uma taxa de entrega, mas o reconhecimento de uma força de trabalho essencial para o funcionamento das cidades, especialmente em tempos de crise econômica. A insatisfação com o iFood pode, assim, ser apenas o início de uma nova onda de reivindicações por mais justiça e dignidade no trabalho.

Para mais notícias sobre manifestações de trabalhadores, confira o Portal E-Brasil.

Autoria: Sarah Pacini

Sair da versão mobile