Polícia aponta fraude contra produtores rurais e destruição de provas; defesa de Sérgio Assis nega participação no esquema
Polícia Civil de Mato Grosso indiciou o ex-deputado estadual de Mato Grosso do Sul Sérgio Assis, o filho dele e outros investigados no inquérito da Operação Agro Fantasma, que apura um esquema de fraude contra produtores rurais com prejuízo superior a R$ 58 milhões.
Sérgio Assis e Wanderley Soares Barboza Junior, administrador da Santa Felicidade Agro Indústria, foram indiciados por estelionato. Mário Sérgio Cometki Assis, filho do ex-parlamentar, e o empresário Pedro Henrique Cardoso também são apontados por associação criminosa e fraude processual.
Segundo a investigação, documentos teriam sido retirados e destruídos pouco antes do cumprimento das ordens judiciais em Cuiabá. A defesa de Sérgio Assis nega qualquer participação dele nas operações comerciais investigadas.
Polícia aponta retirada e destruição de documentos
Câmeras de segurança analisadas pela Polícia Civil teriam registrado Mário Sérgio e Pedro Henrique retirando caixas com documentos da sede da Imaculada Agronegócios durante a madrugada anterior à operação.
Depoimentos colhidos pelos investigadores indicam que os papéis teriam sido queimados.
O relatório policial também aponta que o sistema interno de monitoramento da empresa foi formatado remotamente enquanto um perito trabalhava na coleta das imagens.
Essas circunstâncias levaram ao indiciamento relacionado à suposta tentativa de eliminar elementos considerados relevantes para a investigação.
Ex-deputado havia sido preso durante buscas em Campo Grande
Mandados de busca e apreensão foram cumpridos na casa de Sérgio Assis, em Campo Grande, durante uma etapa da operação realizada em março.
Na ocasião, o ex-parlamentar foi preso em flagrante após a polícia encontrar cerca de 250 munições no imóvel.
Ele foi liberado depois do pagamento de fiança de R$ 5 mil.
Polícia diz que imagem política ajudava nas negociações
De acordo com o delegado Ricardo Marques Sarto, responsável pela investigação, Sérgio Assis utilizaria a trajetória política e a capacidade econômica como elementos de credibilidade nas negociações realizadas pelas empresas investigadas.
Para os investigadores, essa exposição ajudava a transmitir segurança às pessoas envolvidas nas operações comerciais.
A defesa contesta essa interpretação.
O advogado João Paulo Zampieri afirmou que Sérgio Assis não participava da gestão nem possuía poderes para representar as empresas investigadas.
Em nota, a defesa também rejeitou as acusações de estelionato, conluio e associação criminosa atribuídas ao ex-deputado.
Bloqueio bancário teria antecipado existência da operação
Outro ponto investigado é a forma como os suspeitos teriam descoberto antecipadamente que medidas judiciais estavam em andamento.
Segundo o relatório, em 3 de março, às 12h22, o sistema bancário cumpriu uma ordem judicial de bloqueio de R$ 70 milhões vinculada às contas do grupo.
A operação policial estava prevista para o dia seguinte.
Ao perceberem o bloqueio, os investigados teriam acionado advogados e recorrido ao Judiciário.
Conforme a apuração, ordens de prisão preventiva chegaram a ser revogadas antes que fossem cumpridas.
Investigadores apontam tempo para destruição de provas
Para a Polícia Civil, o conhecimento antecipado da existência de medidas judiciais teria permitido que integrantes do grupo adotassem ações para retirar ou destruir documentos.
O delegado responsável pelo caso registrou no relatório final que os suspeitos tiveram tempo para eliminar materiais de interesse da investigação.
Sérgio Assis também passou a responder por fraude processual no contexto da apuração sobre a suposta ocultação de documentos.
Pedro Henrique Cardoso, apontado pela investigação como responsável por comandar a estrutura, deixou o local e ainda não havia sido localizado pela polícia, conforme o material divulgado.
Como funcionaria o esquema
A Operação Agro Fantasma investiga negociações envolvendo a compra e revenda de grãos.
Segundo a Polícia Civil, integrantes do grupo convenciam produtores rurais a permitir que o nome das propriedades fosse utilizado em compras de grãos feitas a prazo.
Esses produtos seriam posteriormente revendidos à vista para indústrias.
O acordo apresentado aos produtores previa que os valores das compras a prazo seriam pagos pelas empresas investigadas.
Dívidas eram pagas no início, diz investigação
Segundo a apuração, os pagamentos eram realizados normalmente nos primeiros meses.
Essa dinâmica ajudaria a criar confiança entre os produtores e os responsáveis pelas negociações.
Depois de determinado período, porém, as dívidas teriam deixado de ser quitadas.
O débito acabava permanecendo vinculado ao produtor que havia permitido o uso de sua propriedade na operação comercial.
Uma vítima acumulou prejuízo acima de R$ 58 milhões
A investigação aponta que, depois de conquistar a confiança de uma das vítimas, o grupo realizou diversas operações de compra de grãos.
As dívidas não pagas relacionadas a essa vítima ultrapassaram R$ 58 milhões.
O inquérito deverá subsidiar as próximas etapas do caso e a análise das responsabilidades individuais dos investigados.
Os indiciamentos representam a conclusão policial sobre os elementos reunidos durante a investigação e não equivalem a condenação judicial.
