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Família de Campo Grande tem sobrenome dengue

IBGE aponta apenas 29 brasileiros com o sobrenome — todos de uma mesma família sul-mato-grossense; história envolve origem incerta, episódios de bullying e decisões pessoais sobre levá-lo adiante

Quando o IBGE divulgou o levantamento sobre os sobrenomes mais e menos comuns do país, um dado chamou atenção em Mato Grosso do Sul: 29 brasileiros carregam o sobrenome “Dengue” — e todos pertencem à mesma família de Campo Grande. A descoberta levantou curiosidade e gerou repercussão, já que o nome, associado a uma doença amplamente conhecida, dificilmente é visto como sobrenome em registros civis.

Entre os integrantes dessa família está Danielle Silva Dengue, de 29 anos, que cresceu convivendo com a surpresa — e às vezes a estranheza — que o sobrenome causa. Hoje adulta, ela relembra como recebeu o nome, fala sobre as origens e explica por que decidiu não repassá-lo aos filhos.


Um sobrenome herdado do padrasto — e uma história que antecede a doença

Danielle conta que o sobrenome “Dengue” entrou em sua vida quando seu padrasto decidiu registrá-la após já ter feito o mesmo com os filhos biológicos.

“Ele tinha registrado meus irmãos, que são filhos mesmo dele, e depois de um tempo quis me registrar também”, explica.

Segundo ela, a família sempre ouviu relatos de que o sobrenome era antigo e não tinha relação com a doença conhecida atualmente. O avô de seus irmãos dizia que o nome era carregado há gerações e teria origem espanhola, muito antes de os primeiros casos de dengue chegarem ao Estado.

Essa hipótese é coerente com explicações do Instituto Butantan, que aponta que o termo “dengue” surgiu no século XVIII, na Espanha, e não se referia originalmente à enfermidade. O vocábulo significava algo próximo de “delicado”, “frágil” ou “meticuloso”, remetendo ao modo como pessoas debilitadas se movimentavam durante surtos de doenças virais que ocorreram à época.


Da escola à adolescência: quando o sobrenome vira motivo de piada

Se por um lado o sobrenome traz uma história incomum, por outro rendeu comentários e brincadeiras que marcaram a infância e a juventude de Danielle. Na escola, o nome era frequentemente associado à doença, e os apelidos nem sempre vinham com boas intenções.

“Uns me chamavam de mosquito, outros falavam para os colegas: ‘cuidado para a Dengue não te picar’”, relembra. “Tenho amigos que até hoje só me chamam de Dengue, não de Dani.”

Apesar das brincadeiras, ela afirma que aprendeu a lidar com o nome — embora isso não signifique que goste de pronunciá-lo. Situações formais, especialmente em ambientes médicos, continuam sendo momentos desconfortáveis.

“Quando não preciso falar todo o meu nome, digo apenas Danielle Silva. Quando vou ao médico, sempre chamam pelo nome completo. Quando chamam bem alto, eu fico com vergonha. Levanto logo, pra não precisar chamar de novo”, conta.


Entre o desconforto e o humor: como Danielle lida com a coincidência

Apesar de toda a associação com a doença transmitida pelo Aedes aegypti, Danielle conta que, curiosamente, nunca teve dengue. E leva isso com bom humor:

“Graças a Deus eu nunca peguei dengue, deve ser porque já tenho na minha identidade, né?”, brincou.

Seu posicionamento em relação ao sobrenome mudou ao longo do tempo. Embora reconheça que ele faz parte da história da família, decidiu não transmiti-lo aos três filhos, preferindo poupá-los de possíveis constrangimentos semelhantes aos que viveu.

Hoje, ela usa o sobrenome apenas quando necessário por motivos legais, e tenta manter uma relação mais leve com o tema — inclusive encarando a curiosidade pública com naturalidade, já que sabe que o caso é raríssimo no Brasil.


Um sobrenome raro que virou identidade familiar em MS

O estudo do IBGE confirmou que “Dengue” está entre os sobrenomes menos comuns do país, e que seu registro se concentra exclusivamente em Campo Grande. A peculiaridade acabou transformando o nome em um marco identitário para a família — ainda que muitos, como Danielle, escolham não utilizá-lo no cotidiano.

Enquanto alguns familiares abraçam o sobrenome com orgulho e até o usam como apelido, outros preferem deixá-lo restrito aos documentos. Em todos os casos, a história permanece como um capítulo singular da formação cultural de Mato Grosso do Sul, mostrando como sobrenomes podem sobreviver ao tempo, às mudanças linguísticas e, às vezes, até a associações inesperadas.

De origem provavelmente espanhola, passando por episódios de bullying e decisões pessoais, o sobrenome Dengue segue sendo parte de uma linhagem única — uma história rara que sobrevive, justamente, porque nunca deixou de chamar atenção.

Autoria: Sarah Pacini.

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