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Feira de Bonito terá casa de Carolina de Jesus

Instalação será destaque na 9ª edição da Flib, que homenageia uma das maiores vozes da literatura marginal brasileira e leva poesia, livros e resistência à Praça da Liberdade

Entre os dias 17 e 21 de setembro, a cidade de Bonito (MS) será palco de uma verdadeira celebração à literatura, à memória e à resistência com a realização da 9ª Feira Literária de Bonito (Flib). Um dos grandes destaques desta edição será a recriação do lar de Carolina Maria de Jesus, escritora brasileira reconhecida internacionalmente por sua obra pungente, nascida na favela e moldada com palavras colhidas da realidade dura que viveu.

A instalação será montada na Praça da Liberdade, epicentro da programação cultural do evento, e promete transportar o público para dentro da vida da autora de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada. A casa, feita de madeira e com apenas um cômodo, representa a simplicidade com a qual Carolina viveu com seus três filhos, ao mesmo tempo em que simboliza a grandeza de sua voz literária, que rompeu as barreiras sociais e raciais do seu tempo.

Imersão na realidade de Carolina

A proposta da instalação é permitir que o público vivencie o espaço íntimo e criativo de Carolina Maria de Jesus, oferecendo não apenas uma reprodução física da sua moradia, mas uma verdadeira experiência sensorial e afetiva com a trajetória da escritora.

O projeto é resultado de um esforço coletivo, financiado por meio da Capes – PDPG Políticas Afirmativas, com apoio da Lei Paulo Gustavo e da UFGD – Proec (Universidade Federal da Grande Dourados). A escolha de Carolina como figura central desta edição da Flib reforça o compromisso da feira com a valorização da literatura de autoria negra, feminina e periférica.

Literatura acessível e viva

Além da recriação da casa, a Flib contará com outras duas instalações fixas que reforçam o papel transformador da literatura e incentivam o contato direto com os livros desde a infância.

A primeira delas é a “Árvore do Saber Nela”, uma estrutura criativa onde livros são pendurados como frutos, prontos para serem “colhidos” pelos leitores. A ideia é despertar o encantamento e a curiosidade em crianças, jovens e adultos, promovendo o acesso democrático à leitura de forma lúdica e interativa.

A segunda instalação fixa será a “Árvore de Aldravias – Carolina Vive no Vento”, um projeto poético concebido por crianças e adolescentes indígenas da Abraai (Academia Brasileira dos Autores Aldravianistas Infantojuvenil), localizada em Aldeinha, no município de Anastácio (MS).

Nessa árvore especial, bolinhas acrílicas transparentes funcionarão como pequenas cápsulas poéticas, contendo dentro de si aldravias – forma poética composta por apenas seis palavras – escritas por jovens indígenas. Em algumas das cápsulas, além dos poemas, estarão também sementes como urucum e feijão, numa simbólica união entre arte, ancestralidade e natureza.

Bonito transforma praça em palco da literatura

Durante os cinco dias da Flib, a Praça da Liberdade se tornará um ponto de encontro entre autores, editoras, estudantes, professores, artistas e leitores, em uma programação repleta de lançamentos de livros, rodas de conversa, oficinas, apresentações culturais e atividades infantis.

A feira busca fortalecer o hábito da leitura em todos os públicos e faixas etárias, além de fomentar o debate sobre identidade, diversidade cultural e o papel social da literatura. Ao trazer Carolina Maria de Jesus para o centro das homenagens, a Flib reafirma a importância de dar visibilidade à produção literária negra, feminina e periférica, historicamente marginalizada nos grandes espaços culturais do Brasil.

Carolina Maria de Jesus: da favela ao mundo

Nascida em Sacramento (MG), em 1914, Carolina Maria de Jesus mudou-se para São Paulo e viveu por muitos anos na favela do Canindé, onde sustentava seus filhos catando papel e materiais recicláveis. Sem acesso à educação formal plena, escreveu seus diários em cadernos encontrados no lixo.

Em 1960, sua obra foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, que ajudou na publicação de Quarto de Despejo, livro que rapidamente se tornou um sucesso de vendas, foi traduzido para mais de 10 idiomas e é, até hoje, considerado um dos maiores testemunhos literários da realidade das favelas brasileiras.

Mesmo com o sucesso inicial, Carolina enfrentou racismo, preconceito social e esquecimento institucional, morrendo em 1977, praticamente sem reconhecimento oficial. No entanto, nas últimas décadas, sua obra tem sido resgatada e celebrada como um dos marcos da literatura nacional.

A homenagem da Flib, ao reconstruir seu lar e oferecer ao público a chance de “entrar” na realidade de Carolina, é também um gesto simbólico de reparação e reverência à sua potência literária.

Serviço:

Ao unir memória, poesia e ação educativa, a Flib não apenas celebra a literatura — ela a torna acessível, viva e, acima de tudo, transformadora.

Autoria: Sarah Pacini

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