Imagem da anta com patas enfaixadas após incêndio é reconhecida como símbolo de resistência no Environmental Photography Award 2025; animal voltou à natureza após meses de recuperação
Uma imagem comovente da anta batizada de Valente, registrada com as patas enfaixadas após sobreviver a um incêndio devastador no Pantanal em 2024, foi premiada no Environmental Photography Award 2025, promovido pela Fundação Príncipe Albert II de Mônaco. A fotografia venceu na categoria “Agentes de mudança, portadores de esperança”, que homenageia registros fotográficos que inspiram ação e otimismo frente às crises ambientais.
A foto é assinada pelo ítalo-brasileiro Fernando Faciole e recebeu o título “Depois das chamas, esperança”. Nela, Valente aparece em um momento de vulnerabilidade e força: mesmo com as patas enfaixadas, o olhar do animal transmite resiliência e dignidade, se tornando um poderoso símbolo da luta pela preservação do Pantanal — bioma que sofre com queimadas cada vez mais frequentes e intensas.
Resgate e recuperação: a jornada de Valente
Valente foi resgatado no segundo semestre de 2024 em condições gravíssimas após fugir de uma área atingida por incêndios no Pantanal sul-mato-grossense. Segundo os veterinários do Projeto Onçafari, responsáveis pelo resgate, o jovem macho — à época com pouco mais de um ano — apresentava queimaduras severas nas patas e desidratação acentuada.
“Ele mal conseguia se manter em pé quando chegou. Era visível a dor, mas também a vontade de viver”, relatou um dos veterinários envolvidos no atendimento emergencial.
Valente foi levado à base Caiman Pantanal, uma das referências em conservação no Brasil, onde permaneceu por cinco meses recebendo cuidados intensivos. Nesse período, foi submetido a diversos procedimentos de limpeza, curativos diários, fisioterapia e monitoramento constante.
Após a estabilização do quadro clínico, o animal foi transferido para uma área de reabilitação, onde passou por um processo gradual de readaptação: ganhou peso, recuperou mobilidade, reaprendeu a caminhar longas distâncias e foi reintroduzido a uma dieta natural.
“É uma história que nos dá esperança. O resgate e a recuperação de Valente mostram que, quando há esforço conjunto e compromisso com a vida, é possível reverter cenários de destruição”, afirmou Fernando Faciole, autor da imagem premiada.
O retorno à natureza
No dia 25 de abril de 2025, Valente foi finalmente devolvido ao seu habitat natural, em uma área protegida no Pantanal. Segundo o Onçafari, ele será monitorado por um período para garantir que se adapte bem ao novo ambiente, mas já demonstrou comportamentos típicos da espécie, como busca autônoma por alimentos e movimentação constante.
O retorno do animal à natureza é visto como um marco na conservação de espécies afetadas pelas queimadas. “Valente representa não apenas a fauna atingida, mas a importância de se criar políticas públicas eficazes de combate aos incêndios e de apoio à recuperação da biodiversidade”, destacou a Fundação Príncipe Albert II na premiação.
A imagem que emocionou o júri
A foto de Faciole foi escolhida entre milhares de inscrições por um júri internacional formado por fotógrafos renomados, cientistas e conservacionistas. A comissão destacou a “delicadeza do registro, a potência emocional do enquadramento e o impacto visual da recuperação animal diante de uma tragédia ambiental”.
“Não é só uma anta. É uma história de dor, mas também de cura. A fotografia de Fernando transmite isso com uma simplicidade tocante. É um lembrete de que a natureza resiste, mesmo diante da devastação causada por nossas ações”, afirmou a curadora-chefe do prêmio, Marie Jouve.
Faciole disse que o momento da captura da imagem foi de intensa emoção. “Eu já havia acompanhado o processo de recuperação do Valente e, naquele dia, a luz estava suave, o ambiente silencioso. Quando ele olhou direto para mim, percebi que havia uma história ali que precisava ser contada ao mundo”, contou o fotógrafo.
O Pantanal em risco
O Pantanal, maior planície alagável do planeta, tem sido duramente impactado por incêndios provocados por mudanças climáticas e ações humanas. Nos últimos anos, milhares de animais morreram e ecossistemas inteiros foram destruídos. Iniciativas como a do Onçafari têm sido fundamentais para mitigar os danos e promover a recuperação da fauna.
A vitória da imagem de Valente em um concurso internacional de prestígio reforça a visibilidade das causas ambientais brasileiras e mostra que a fotografia pode ser uma aliada poderosa na mobilização pela conservação.
“O que aconteceu com Valente acontece todos os anos com centenas de animais que não têm a mesma sorte. Essa foto não é só sobre sobrevivência — é um alerta para que a destruição do Pantanal não seja naturalizada”, finalizou Faciole.
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Autoria: Sarah Pacini