Após identificar conteúdos similares divulgados em uma live no YouTube antes da aplicação do exame, Inep anulou três questões do segundo dia do Enem 2025; Ministério da Educação afirma que os demais itens continuam válidos.
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 voltou ao centro das atenções após o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) confirmar, nesta quarta-feira (19), a anulação de três questões do segundo dia de prova. A decisão foi tomada após relatos de que perguntas semelhantes teriam aparecido em uma transmissão ao vivo na internet dias antes do exame — situação que acendeu o alerta sobre possível quebra de segurança no processo de pré-testagem de itens.
A divulgação dos gabaritos oficiais, inicialmente prevista para quinta-feira (20), também foi antecipada em um dia. O objetivo, segundo o Inep, foi promover transparência diante dos indícios de vazamento detectados nas redes sociais. As questões anuladas foram identificadas em todos os cadernos de prova — amarelo, azul, verde, cinza, laranja e roxo — que, embora apresentem as mesmas 90 perguntas, variam apenas na ordem.
Nos cadernos amarelo, cinza, azul, verde, roxo e laranja, três questões foram desconsideradas. No caderno amarelo (número 5), foram anuladas as questões 115, 121 e 178; no cinza (6), 115, 118 e 172; no azul (7), 123, 132 e 174; no verde (8), 132, 135 e 168; no roxo (12), 115, 118 e 172; e no laranja (11), também 115, 118 e 172. A escolha dos itens anulados foi padronizada, respeitando a equivalência entre as versões.
As questões excluídas envolviam conteúdos de diferentes áreas. Uma delas, a questão 115 do caderno amarelo, tratava de acústica, relacionando conceitos de nível sonoro e logaritmos. Outra, também numerada como 115 em outra versão, abordava aspectos fundamentais da fotossíntese, tema central da biologia. A terceira, questão 178, era dedicada à matemática e trabalhava equações do segundo grau e raciocínio algébrico. A heterogeneidade dos conteúdos anulados mostra que a ação do Inep tentou evitar qualquer favorecimento indevido em áreas específicas do conhecimento.
A decisão, embora vista como necessária pelo Ministério da Educação (MEC), não foi suficiente para conter a reação de parte dos estudantes. Nas redes sociais, o movimento #AnulaEnem ganhou força e articula manifestações em Brasília nesta sexta-feira (21) e em outras capitais no sábado (22). Participantes afirmam que a suspeita de vazamento comprometeu a lisura do processo e defendem que o segundo dia do exame seja integralmente anulado.
O ministro da Educação, Camilo Santana, entretanto, tem reforçado que não há motivo para maior intervenção. Em entrevista à TV Educativa do Ceará, ele declarou que “todas as demais questões continuam válidas”, destacando que a anulação de apenas três itens garante equidade entre os mais de 4 milhões de inscritos. Segundo o ministro, a decisão é preventiva e tem como objetivo resguardar a credibilidade do exame, sem penalizar a maioria dos participantes.
O episódio teve origem em uma transmissão ao vivo feita por uma pessoa que teria participado do pré-teste do Enem — etapa experimental e sigilosa realizada para avaliar potenciais itens a serem utilizados futuramente. Nesse processo, grupos selecionados de estudantes resolvem questões que ainda não foram incluídas no Banco Nacional de Itens (BNI). O pré-teste fornece informações essenciais sobre dificuldade, clareza do enunciado, comportamento estatístico das alternativas e chance de acerto ao acaso, de acordo com os parâmetros da Teoria de Resposta ao Item (TRI).
Somente as questões aprovadas nessa filtragem são disponibilizadas para a montagem das provas oficiais. Por isso, a divulgação prévia de itens, mesmo que por meio de transmissão informal, representa violação grave às regras de sigilo que orientam o Enem. Embora apenas uma parcela relativamente pequena de pessoas tenha assistido ao vídeo, segundo o ministro, isso já justificou uma ação imediata para evitar que qualquer participante fosse prejudicado.
Com o registro de irregularidade, o Inep acionou a Polícia Federal, que abriu investigação para identificar o responsável pela transmissão e possíveis cúmplices. O objetivo é apurar responsabilidades, entender o caminho percorrido pelas questões e fortalecer os protocolos de segurança exigidos em processos de grande escala, como o Enem.
Mesmo diante das anulações, a estrutura geral do exame permanece intacta. As outras 87 questões do segundo dia — voltadas para matemática e ciências da natureza — seguem válidas, assim como a redação e as provas aplicadas no primeiro domingo. O Inep assegura que o desempenho dos participantes será calculado normalmente, respeitando os critérios técnicos da TRI.
Com o caso ainda em apuração, o episódio reacende discussões sobre segurança e transparência no Enem, especialmente num momento em que o exame segue sendo o principal meio de acesso ao ensino superior público no Brasil. Enquanto isso, milhões de estudantes aguardam com expectativa — e, para muitos, com ansiedade — a divulgação dos resultados, já marcada para janeiro de 2026.
Autoria: Sarah Pacini
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