O Japão superou a marca histórica de 100 mil centenários, registrando exatamente 107.677 pessoas com idade na casa dos três dígitos neste ano. Conforme os dados divulgados pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês, o país acumula 56 anos consecutivos de alta nessa estatística populacional, consolidando-se na liderança mundial em proporção de moradores com cem anos ou mais.
Entre os recordistas atuais estão Fuyo Kishimoto, reconhecida como a matriarca com 114 anos de idade, e Hikaru Kato, apontado como o homem mais longevo do país aos 112 anos. O cenário atual contrasta drasticamente com o panorama verificado em 1963, período em que o governo iniciou o registro oficial e o território nipônico contava com apenas 153 centenários, além de apresentar a menor expectativa de vida entre as grandes economias do G7.
A virada histórica na saúde e no saneamento
Nas décadas seguintes ao encerramento da Segunda Guerra Mundial em 1945, o governo implementou investimentos profundos em saneamento básico, práticas de higiene e na estruturação de um sistema público de saúde universal. A iniciativa ajudou a combater patologias que antes dizimavam a população, como tuberculose, AVC e câncer de estômago associado à bactéria H. pylori.
“A mudança reflete uma combinação de fatores, como melhores condições sanitárias, redução da mortalidade por diversas doenças, avanços da medicina, acesso aos serviços de saúde, alimentação de qualidade e hábitos de vida”, resume Isabela Trindade, fisioterapeuta, especialista em gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
O papel da alimentação e do estilo de vida
O padrão alimentar da população passou por transformações significativas com o desenvolvimento econômico, incorporando porções controladas de proteínas de origem animal e produtos lácteos, mas mantendo o foco em vegetais e frutos do mar. Esse equilíbrio reduziu a ingestão de gorduras saturadas e elevou o consumo de ômega-3, além de manter o açúcar refinado e o sal em níveis reduzidos no cotidiano.
A prática de exercícios físicos também se integrou à cultura local ao longo das décadas, impulsionada historicamente por iniciativas governamentais como o programa Radio Taiso, criado em 1928, e por projetos mais recentes voltados a incentivar caminhadas diárias e exames preventivos.
“A atividade física merece destaque porque seus benefícios atravessam praticamente todos os sistemas do organismo”, atesta Trindade.
Propósito de vida e o fator genético
O conceito cultural do ikigai — que representa a razão de levantar da cama todas as manhãs — é frequentemente associado ao bem-estar mental na velhice, mantendo o cérebro ativo e reduzindo os níveis de estresse por meio de laços comunitários e propósitos diários. No entanto, pesquisadores ressaltam que a biologia ganha protagonismo absoluto conforme a idade avança para a faixa dos supercentenários.
“Depois dos 90, e principalmente dos 100, quem manda é a genética”, explica Mayana Zatz, bióloga, professora do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).
Segundo a especialista, indivíduos que alcançam idades extremas podem portar variantes conhecidas como genes de resistência. A pesquisadora também destaca que a longevidade saudável não depende unicamente de méritos individuais, mas também das oportunidades sociais disponíveis ao longo da trajetória de cada indivíduo.
“Longevidade saudável é construída ao longo da vida e resulta da interação entre biologia, hábitos, ambientes, relações sociais e acesso ao cuidado”, conclui Trindade.
