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Livro resgata história de Margarida Neder

Em “Margarida – Retratos Culturais de Mato Grosso do Sul”, escritora traça panorama da formação cultural do Estado a partir da memória afetiva, da moda à música

Com sensibilidade histórica e olhar literário, a escritora Lenilde Ramos, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, mergulha em cinco décadas de transformações sociais, artísticas e afetivas em Mato Grosso do Sul no livro “Margarida – Retratos Culturais de Mato Grosso do Sul” (Life Editora). A obra reconstrói, por meio da trajetória de Margarida Neder, uma narrativa viva sobre a construção da identidade cultural sul-mato-grossense – que segue em movimento, entre raízes e reinvenções.

No centro dessa jornada está Margarida Simões Corrêa Neder, mulher que, além de mãe e estilista, se tornou uma espécie de guardiã e fomentadora da arte e cultura regional. Ao seu redor, gravitam nomes e acontecimentos que marcam a formação do Estado, como o compositor Paulo Simões, seu sobrinho, autor de clássicos como Trem do Pantanal; Norma Jornada, uma das meninas que Margarida acolheu como filha; e a efervescência da Peña Eme Ene, espaço cultural que promoveu durante uma década o encontro de vozes, sabores e saberes de MS.

Um livro que costura memórias, música, moda e identidade

Com ênfase nas relações humanas e nas manifestações culturais locais, o livro parte da história pessoal de Margarida para contar a história coletiva de um Estado ainda em busca de uma identidade própria quando se separou de Mato Grosso em 1977. A pergunta “Qual é nossa identidade cultural?” guiou debates entre intelectuais e artistas da época – e é essa resposta múltipla, feita de encontros e influências, que Lenilde Ramos ajuda a desenhar.

A narrativa começa com a família Simões Corrêa, no Rio de Janeiro, e atravessa cidades como Maracaju, onde Margarida nasceu em 1925, e Campo Grande, onde sua história se entrelaça definitivamente com o cenário cultural do Estado. Casada com Alfredo Neder, filho de Rachid Neder, Margarida teve seis filhos e criou outras oito meninas, incluindo Norma Jornada, a quem ofereceu não só educação formal, mas também contato com a arte e a criatividade.

Nesse ambiente doméstico cheio de vozes e talentos, circularam também figuras como Almir Sater, então apenas um jovem frequentador da casa. Margarida se tornou estilista de moda clássica, fundou a marca Eme Ene, promoveu desfiles em Campo Grande e São Paulo e, ao lado de suas filhas do coração, influenciou profundamente a cena artística local — inclusive na formação de Paulo Simões como compositor.

De estilista à inspiração cultural: Margarida como elo entre gerações

A história ganha ainda mais força com o surgimento da Peña Eme Ene, nos anos 1980, um espaço de convivência e valorização das expressões culturais regionais, inspirado na Peña Naira, em La Paz, que Paulo Simões conheceu em uma viagem à Bolívia. A Peña campo-grandense promoveu por 10 anos encontros musicais, poéticos, gastronômicos e artísticos, reunindo nomes como Délio e Delinha, Guilherme Rondon, Anna Ballatore e Emmanuel Marinho.

Com essa iniciativa, Margarida deixou de ser apenas personagem de bastidores para se tornar protagonista silenciosa de um movimento de valorização da cultura local. Seus modelos de moda deram lugar a camisetas com tuiuiús, letras de músicas regionais e símbolos pantaneiros — um gesto de transição da elegância da costura para a força visual das raízes culturais.

Uma homenagem às mulheres que moldaram a cultura de MS

Mais do que uma biografia, “Margarida” é uma obra de resgate. Lenilde Ramos investiga, por meio da oralidade, da memória e da pesquisa documental, como mulheres invisibilizadas historicamente foram fundamentais na construção de um MS culturalmente forte. Através da figura de Margarida, a autora ilumina também outras mulheres que ajudaram a manter viva a cultura popular, promovendo educação, arte, moda e convivência comunitária.

O livro tem prefácio de Pedro Ortale, apresentação do artista plástico e ex-secretário de Cultura Humberto Espíndola, capa assinada por Saulo Flores Sampaio e design gráfico de Marília Leite Ramires. A edição faz parte do esforço contínuo da autora em contar a história de Mato Grosso do Sul a partir de seus protagonistas mais humanos e cotidianos.

Uma obra para quem quer entender o coração cultural do Estado

“Margarida – Retratos Culturais de Mato Grosso do Sul” é leitura essencial para quem deseja compreender a formação da identidade sul-mato-grossense sob uma perspectiva afetiva, feminina e plural. A obra revela como a cultura se constrói nas casas, nas rodas de conversa, nos saraus e nas mãos de quem costura, canta, escreve, cozinha ou simplesmente acolhe.

Mais do que resgatar o passado, o livro de Lenilde Ramos propõe um olhar sobre o futuro: como manter viva uma cultura tão rica e diversa sem esquecer de quem a costurou com paciência e paixão

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Autoria: Sarah Pacini

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