Em artigo publicado em jornal norte-americano, presidente classificou sobretaxa de 25% como injusta e prejudicial aos dois países
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a política tarifária dos Estados Unidos contra produtos brasileiros em artigo publicado neste domingo (26) no jornal The Washington Post. No texto, ele afirmou que a medida tem motivação política, poderá prejudicar consumidores norte-americanos e não levará o Brasil a abrir mão de sua soberania.
Lula também acusou o governo de Donald Trump de tentar usar as relações comerciais para interferir no cenário político brasileiro e nas eleições de outubro. Segundo o presidente, parcerias entre países não devem ser submetidas a interesses ideológicos ou eleitorais.
“Ninguém vai nos derrotar com base em mentiras”, escreveu Lula ao defender a atuação das instituições brasileiras.
Presidente vê tentativa de interferência política
No artigo, Lula mencionou declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e afirmou que o Brasil passou a ser tratado de maneira hostil pelo governo dos Estados Unidos.
O presidente sustentou que a pressão comercial ocorre em meio a divergências políticas e a questionamentos norte-americanos sobre decisões tomadas pelas instituições brasileiras.
O Ministério das Relações Exteriores já havia classificado como ofensivas as declarações de Rubio e apontado motivação política na adoção das novas tarifas. Segundo o Itamaraty, o governo brasileiro participou de mais de 30 reuniões e contatos com autoridades norte-americanas desde março de 2025, sem que as negociações impedissem a aplicação da sobretaxa.
Sobretaxa de 25% entrou em vigor em julho
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos determinou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre diferentes produtos brasileiros. A cobrança começou em 22 de julho e possui exceções previstas em uma lista oficial.
Entre os setores atingidos estão ferro e aço, calçados, roupas, açúcar, etanol, produtos farmacêuticos, máquinas agrícolas, equipamentos elétricos e outros bens manufaturados.
O governo norte-americano justificou a medida com críticas a políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e desmatamento.
O Brasil contesta as alegações e afirma que as políticas investigadas são legítimas, não discriminatórias e não prejudicam o comércio norte-americano.
Lula aponta prejuízo para consumidores dos EUA
Lula classificou as tarifas como um “erro estratégico” e avaliou que a medida poderá aumentar o preço de produtos vendidos nos Estados Unidos.
Segundo o presidente, diferentes setores da indústria norte-americana dependem de matérias-primas e produtos fornecidos pelo Brasil. A sobretaxa poderá elevar os preços de alimentos, calçados, móveis, tecidos e autopeças para os consumidores daquele país.
O governo brasileiro também argumenta que os Estados Unidos mantêm vantagem histórica na relação comercial com o Brasil, o que afastaria a justificativa de que as tarifas serviriam para corrigir um desequilíbrio contra empresas norte-americanas.
Empresas brasileiras podem substituir fornecedores
Outro alerta apresentado no artigo envolve a reorganização das cadeias produtivas. Lula afirmou que empresas brasileiras poderão substituir fornecedores dos Estados Unidos por parceiros de outros países caso as tarifas sejam mantidas.
Para o presidente, a mudança não ocorrerá imediatamente, mas poderá avançar no médio prazo, reduzindo a participação de companhias norte-americanas no mercado brasileiro.
A posição segue a estratégia do governo de manter negociações com Washington e, ao mesmo tempo, ampliar as relações comerciais com outras economias. Antes da decisão final dos Estados Unidos, representantes brasileiros haviam reiterado que a sobretaxa não seria o caminho adequado para a construção de um acordo bilateral.
Pix e legislação ambiental foram defendidos
Lula também respondeu às críticas norte-americanas ao Pix, às normas brasileiras para as plataformas digitais e à política de combate ao desmatamento.
O sistema de pagamentos eletrônicos foi incluído pelo governo dos Estados Unidos entre os temas investigados por possível impacto sobre empresas norte-americanas. As discussões também envolveram comércio digital, propriedade intelectual e políticas ambientais.
No artigo, o presidente defendeu que o Brasil possui o direito de criar regras para proteger consumidores, enfrentar crimes praticados nas redes sociais e preservar o meio ambiente.
Governo mantém disposição para negociar
Apesar das críticas, Lula declarou que o Brasil continua aberto ao diálogo com os Estados Unidos.
O presidente afirmou que as negociações deverão ocorrer com respeito à soberania dos dois países e com base no princípio da reciprocidade.
O governo brasileiro também sinalizou que poderá utilizar os mecanismos legais disponíveis para responder às tarifas caso não haja uma solução negociada.
