Ferramenta “Origem Verificada” identifica quem está ligando, ajuda a combater fraudes telefônicas e já funciona em alguns modelos de smartphones; adesão de empresas ainda é baixa.
Milhões de brasileiros lidam diariamente com ligações suspeitas, números desconhecidos que desligam na hora ou tentativas de golpe por telefone. Para tentar mudar esse cenário, um novo sistema batizado de Origem Verificada começou a funcionar no país e promete ajudar a reduzir essas ameaças, embora ainda esteja em fase inicial de adoção.
Desenvolvido em parceria entre operadoras de telecomunicações e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o recurso foi criado para exibir na tela do celular o nome da empresa que está realizando a ligação, além de outros dados como logotipo e até o motivo do contato — uma inovação que, até então, era inexistente no Brasil.
A tecnologia utiliza o protocolo internacional STIR/SHAKEN, que autentica as chamadas em tempo real. A checagem é feita por meio de um banco de dados mantido pela ABR Telecom, entidade que coordena a implementação do projeto. Quando um número é usado por uma empresa cadastrada, os dados são validados e, se tudo estiver correto, a chamada aparece como “verificada” para o consumidor.
Como funciona na prática?
Para o usuário, não é necessário instalar aplicativos ou ativar configurações específicas. O sistema funciona automaticamente nos aparelhos compatíveis, desde que conectados a uma rede 4G ou 5G.
Contudo, apenas alguns smartphones mais modernos conseguem exibir todas as informações fornecidas pela Origem Verificada. Entre os modelos compatíveis estão celulares da Apple com iOS 18.2 ou superior (do iPhone 11 em diante) e aparelhos da Samsung com Android 14 ou mais recente — como os das linhas Galaxy S23, S22, A54 e diversos modelos Galaxy M.
Em dispositivos com Android 11 a 14, como alguns Motorola, o sistema também funciona, mas exibe informações mais limitadas.
Empresas ainda não aderiram em massa
Apesar do potencial da ferramenta, a adesão das empresas que realizam ligações — como bancos, operadoras e call centers — ainda é bastante tímida. Isso porque essas companhias precisam contratar o serviço para que suas chamadas sejam autenticadas, o que envolve custos.
A ABR Telecom não revelou quantas empresas estão utilizando o sistema atualmente. O banco Bradesco confirmou que está em fase de testes com a nova tecnologia, mas demais instituições ainda não se manifestaram.
De acordo com Ildeu Borges, gerente da ABR Telecom, o uso ainda é restrito justamente por conta da adesão limitada das empresas e da necessidade de aparelhos atualizados. A expectativa, no entanto, é de expansão significativa ao longo de 2025. A Anatel prevê que até o fim do primeiro semestre, 75% dos smartphones no Brasil já sejam compatíveis com chamadas autenticadas.
Proteção contra golpes e robôs de ligação
A principal vantagem da Origem Verificada é o combate ao spoofing, técnica na qual criminosos usam números falsos — muitas vezes começando com 0800 — para se passar por empresas legítimas e enganar vítimas. Esse tipo de golpe, comum no país, frequentemente envolve a solicitação de senhas, códigos de segurança ou dados bancários.
Outro alvo da ferramenta são as chamadas automáticas que desligam assim que o usuário atende, conhecidas como robocalls. Essas ligações são utilizadas por golpistas para identificar se um número está ativo, preparando o terreno para tentativas futuras de fraude.
Casos de golpes por telefone são comuns. Em um exemplo recente, uma mulher perdeu R$ 7.800 após ser enganada por um falso atendimento telefônico. Os criminosos conseguiram seus dados ao fingirem cancelar uma transação suspeita — que nunca existiu.
Para o consumidor, fica a dica essencial: nunca forneça informações pessoais ou bancárias por telefone, especialmente se a ligação não for verificada.
E se a ligação não tiver identificação?
Nem toda chamada sem identificação é um golpe. Isso porque, neste momento, o uso do sistema ainda é voluntário — tanto por parte das operadoras quanto das empresas. Assim, ainda é comum receber ligações legítimas sem autenticação, mas isso deve mudar com o tempo.
Segundo a Resolução nº 777 da Anatel, até outubro de 2028, todas as operadoras serão obrigadas a autenticar chamadas feitas por telefones fixos e móveis. Essa obrigatoriedade garantirá apenas que o número de origem é real, mas a exibição de dados adicionais (nome da empresa, logotipo, motivo da ligação) seguirá sendo opcional, limitada às empresas que aderirem ao sistema Origem Verificada.
Quais celulares são compatíveis?
A lista de aparelhos compatíveis está crescendo, especialmente entre os modelos mais modernos. Veja alguns exemplos:
- Apple iPhone (iOS 18.2+): iPhone 11 ao 16 — exibe nome, número e logotipo da empresa.
- Samsung Galaxy (Android 14+): linhas S21 a S25, A13 a A56, M23 a M55, Z Flip e Fold — exibe nome, logotipo, selo de verificação e motivo da chamada.
- Motorola (Android 11 a 14): Razr 50, Edge 50 Neo — exibe nome, número, selo e mensagem “número validado”.
Para que o sistema funcione corretamente, é necessário manter o celular atualizado e conectado à internet por redes móveis de quarta ou quinta geração (4G ou 5G).
Um passo importante, mas que ainda precisa avançar
A Origem Verificada é uma inovação relevante no combate às fraudes e incômodos das ligações abusivas no Brasil, mas seu sucesso depende diretamente da adesão de empresas e da atualização dos aparelhos dos consumidores.
Enquanto isso, a recomendação é redobrar a atenção com ligações não identificadas e, em caso de dúvidas, jamais fornecer dados pessoais ou bancários. A tecnologia está a caminho de se tornar um novo padrão, mas, até lá, a cautela ainda é a melhor defesa.
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Autoria: Sarah Pacini