Dados da Pnad Contínua revelam que 18,9% dos campo-grandenses vivem sozinhos — a maioria é composta por homens, e tendência é puxada por jovens.
A vida solo nunca esteve tão em alta em Campo Grande. Segundo a mais recente edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (22), 18,9% da população da capital sul-mato-grossense mora sozinha, o equivalente a aproximadamente 65 mil pessoas. Trata-se do maior índice já registrado nos últimos anos e confirma uma tendência crescente de lares unipessoais, especialmente entre jovens e adultos solteiros.
Em comparação, esse percentual era de 13,4% em 2016, o que representa um crescimento de 5,5 pontos percentuais em menos de uma década. A maior parte dos moradores solo em Campo Grande são homens (cerca de 35 mil), enquanto 30 mil mulheres vivem sozinhas atualmente.
Campo Grande segue tendência nacional
Esse crescimento acompanha uma movimentação observada em todo o Brasil. De acordo com o levantamento, o número de domicílios com apenas uma pessoa aumentou 4,5 pontos percentuais em oito anos, passando de 14,1% em 2016 para 18,6% em 2024 em âmbito nacional. Campo Grande, com seus 18,9%, já ultrapassa a média brasileira.
Especialistas apontam que esse fenômeno está relacionado a mudanças no comportamento social e nos modelos familiares tradicionais. A busca por independência, o adiamento de casamentos e da maternidade/paternidade, o foco na carreira e a valorização do autocuidado e da privacidade são alguns dos fatores que explicam esse novo perfil de moradia.
Além disso, há quem prefira viver sozinho por questões emocionais ou mesmo por experiências negativas em relacionamentos anteriores. O avanço da tecnologia e a facilidade de manter conexões sociais virtuais também contribuem para que viver só não represente necessariamente isolamento.
Mulheres sozinhas: um perfil em expansão
Apesar dos homens ainda representarem a maioria dos que vivem sozinhos em Campo Grande, a diferença entre os gêneros tem diminuído. O crescimento de mulheres chefes de domicílio, a ampliação do acesso ao ensino superior e a entrada cada vez mais sólida no mercado de trabalho tornam o morar sozinha uma escolha viável e, para muitas, libertadora.
Além disso, há uma parcela significativa de mulheres acima dos 50 anos, divorciadas ou viúvas, que optam por continuar sozinhas após os filhos saírem de casa ou após encerramentos de relacionamentos de longa data.
Cenário estadual apresenta leve queda
Enquanto na capital o número de pessoas morando sozinhas cresce, no restante do estado a tendência foi contrária no último ano. Em Mato Grosso do Sul, o índice de moradores solo caiu de 19,1% em 2023 para 18,3% em 2024, o que representa aproximadamente 187 mil pessoas. Ainda assim, o número é expressivo: 107 mil homens e 80 mil mulheres vivem sozinhos em diferentes regiões do estado.
Essa leve retração, segundo analistas, pode estar relacionada a aspectos econômicos, como o custo elevado de vida e aluguel, além de um movimento natural de retorno ao convívio familiar, impulsionado por situações como desemprego ou mudanças de cidade para estudo ou trabalho.
Lares a dois ainda são maioria
Apesar do avanço das residências unipessoais, o modelo de moradia mais comum em Campo Grande ainda é aquele composto por duas pessoas. Em 2024, 28,3% dos domicílios na cidade estão nesse formato — ou seja, cerca de 97 mil unidades domésticas.
Esse número, no entanto, mostra uma leve queda em relação aos anos anteriores. Em 2022, por exemplo, o percentual era de 28,5%. Já as moradias com três pessoas ocupam o segundo lugar, com 22,5% da representatividade.
No estado como um todo, os lares a dois atingiram o maior patamar dos últimos anos, com 28,9% das residências nesse formato — totalizando 295 mil domicílios. O número representa um crescimento de cerca de 39 mil lares a mais que aqueles com três moradores.
Um retrato em transformação
O que os números revelam é que o modo de habitar tem se diversificado profundamente em Campo Grande e em todo o país. A ideia tradicional de que uma casa precisa ser ocupada por uma família nuclear — pai, mãe e filhos — vem dando lugar a múltiplos arranjos, entre eles o da moradia individual.
A chamada “solidão urbana”, embora para muitos pareça negativa, também pode representar autonomia, liberdade e escolha. O desafio das cidades, agora, é adaptar políticas públicas, infraestrutura urbana e serviços sociais a essa nova realidade demográfica.
A capital sul-mato-grossense, com seus quase 19% de pessoas morando sozinhas, pode até ser chamada, com certo exagero, de “cidade dos solteiros”, mas, mais do que isso, é o reflexo vivo de uma sociedade em constante transformação.
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Autoria: Sarah Pacini