O mercado de suplementos nutricionais e a indústria láctea enfrentam uma forte transformação devido à alta procura por itens ricos em proteína, gerando uma disparada expressiva nos valores do WPC (whey protein concentrado) e do WPI (whey protein isolado), que são derivados do soro do leite.
Alta internacional e impacto no bolso do consumidor
Dados de uma consultoria especializada apontam que o custo do WPC80 quase triplicou no mercado norte-americano em poucos meses, passando de cerca de US$ 10 mil a tonelada no início de 2025 para US$ 28 mil em agosto. No mesmo período, o WPI teve um acréscimo de 47% e atingiu US$ 32 mil por tonelada, enquanto o WPC34 registrou alta de 40%. Internamente, o quilo do WPC80 alcançou R$ 180 em setembro, marcando um crescimento de 24% frente ao mês de junho.
Os fatores por trás da alta generalizada
Três razões principais explicam esse cenário de encarecimento contínuo. O primeiro motivo é o avanço acentuado do consumo de itens proteicos, impulsionado inicialmente após a pandemia de covid-19 e potencializado recentemente pela popularização das canetas emagrecedoras.
Como esses fármacos diminuem o apetite, o público busca garantir uma nutrição adequada mesmo ingerindo menos comida. “Para usar essas canetas, esse público está disposto a comprar mais proteína para não perder massa magra”, explica Juliana Torres Santiago, analista de inteligência de mercado da StoneX.
A diversificação de produtos também marcou esse período, inserindo a proteína não apenas em barras e bebidas, mas em snacks, chocolates, pães, vinhos e cervejas. Se antes o suplemento era restrito a frequentadores de academias, o cenário mudou. “Algumas pesquisas de mercado já apontam que pelo menos metade dos lares brasileiros possui algum indivíduo que utiliza suplementos”, afirma o CEO da Integralmedica, empresa de suplementos com fábrica em Embu-Guaçu (SP), Filipe Bragança.
O gargalo na produção e na infraestrutura industrial
O segundo ponto crítico envolve a oferta do soro, matéria-prima essencial para a fabricação do whey. No entanto, a produção brasileira de queijos cresce em ritmo moderado, de 4% a 5% ao ano, enquanto o mercado de bebidas proteicas avança em ritmo acelerado.
“Há um descompasso entre o crescimento da demanda por proteína concentrada de soro e o crescimento da disponibilidade de soro como subproduto da produção de queijo”, diz Marcel de Barros, CEO da Tirolez, uma das principais fabricantes de queijos do país. “Esse descompasso gera uma pressão de demanda, que leva a toda essa alta. É um fenômeno mundial”, acrescenta.
O terceiro fator é a limitação na capacidade de processamento. Embora o Brasil produza mais de 35 bilhões de litros de leite por ano segundo o IBGE, cerca de 70% do WPC80 e do WPI consumidos internamente ainda são importados por falta de infraestrutura de fracionamento adequada.
“Para você produzir o WPC tem todo um processo industrial que não é barato. Quando começou esse ‘boom’, até as empresas se adaptarem, fazerem o planejamento, adaptações na própria fábrica, tudo isso demora muito tempo”, afirma Juliana Santiago.
Expectativas e futuro para o mercado de proteínas
Para o futuro, a tendência de valorização motivou o anúncio de novos aportes financeiros no setor para ampliar a capacidade fabril, o que deve amenizar a pressão sobre os preços de forma gradual nos próximos anos.
“A gente tende a ter um balanço melhor de oferta em que, acompanhado por essa demanda, que não deve recuar a níveis anteriores, junto com uma oferta um pouco mais tranquila, aí sim podemos ter um novo patamar de preços que pare um pouco com essa alta”, explica Juliana Santiago, analista da StoneX.
Companhias como Sooro Renner e Grupo Piracanjuba lideram os aportes no segmento. “Esses preços tendem a se acomodar nos próximos três anos com o aumento da oferta pela construção de novas plantas e pelas substituições por outras proteínas”, conclui Eduardo Serra, CEO da Sooro Renner.
