Postagem compartilhada por Luiza Ribeiro (PT), com frase polêmica sobre Rafael Tavares (PL), gera tensão entre vereadores; Ana Portela chegou a protocolar denúncia, mas recuou antes da sessão.
Uma publicação em rede social quase se tornou tema de apuração no Conselho de Ética da Câmara Municipal de Campo Grande. A vereadora Ana Portela (PL) chegou a protocolar um pedido para que a colega Luiza Ribeiro (PT) fosse investigada após compartilhar uma postagem polêmica que continha a frase “Rafael Tavares deveria queimar no inferno”. O nome citado é do vereador do PL, que reagiu com veemência ao conteúdo.
O episódio teve início após a aprovação de um projeto legislativo na semana passada. A postagem original, feita por terceiros, criticava a atuação de Tavares. Ao republicar o conteúdo em seu perfil, Luiza Ribeiro passou a ser acusada de endossar um discurso de ódio. Apesar de ter formalizado o pedido de apuração, Ana Portela recuou momentos antes do início da sessão ordinária desta quinta-feira (25), retirando o documento.
Clima tenso na Casa
O clima nos bastidores da Câmara ficou tenso. A fala de Ana Portela indicava a gravidade com que parte da bancada entendeu o episódio. “Retirei por questão de respeito. Essa fala dela foi muito infeliz. Desejar a morte, mesmo que esteja repostando a publicação de alguém, ela está endossando. Não é atitude de um representante dentro da Casa de Leis. Vamos ver se ela vai se retratar”, afirmou a vereadora do PL.
O principal alvo da postagem, Rafael Tavares, também se pronunciou com indignação. Para ele, o caso ultrapassa o limite do debate político e exige posicionamento institucional da Câmara. “A Casa tem que se manifestar. Aqui a gente pode brigar, discutir, mas desejar a morte de um colega? Justo a Esquerda que diz desejar o amor. Dizem que a Direita é extremista, que tem ódio, mas é ao contrário. Conforme o próprio Conselho de Ética, é irregular e devem ser tomadas as medidas cabíveis”, declarou o parlamentar.
Tavares também pediu mais responsabilidade nas redes sociais por parte dos colegas. Para ele, a posição pública de um vereador deve ser pautada pela responsabilidade institucional e pelo respeito ao contraditório. “Não é sobre ser contra ou a favor, é sobre limites. Uma coisa é o embate político. Outra é cruzar a linha do discurso civilizado”, disse.
Luiza Ribeiro rebate: “Cortina de fumaça”
Por sua vez, a vereadora Luiza Ribeiro minimizou a repercussão do caso e sugeriu que o episódio está sendo usado politicamente para desviar o foco de problemas reais da cidade. Ela negou que tenha intenção ofensiva com a republicação do post e criticou a postura da bancada do PL.
“A bancada do PL que costuma ficar falando do trabalho dos outros. Eu só quero cuidar da cidade. Se a gente ficar colocando cortina de fumaça, não tratamos dos verdadeiros problemas. É um pouco de tática do PL e do PP para defender o Executivo. Tudo isso é cortina de fumaça. A gente sai daqui e as pessoas estão gritando por melhorias na cidade”, declarou Luiza.
A petista também disse que não costuma usar suas redes sociais para criticar diretamente outros parlamentares e que a publicação em questão era apenas uma republicação de um conteúdo feito por terceiros. Mesmo assim, o ato gerou desconforto entre os colegas e poderia ter se tornado uma investigação formal caso o pedido tivesse sido mantido.
Liberdade de expressão vs. responsabilidade política
O episódio reacende o debate sobre os limites da liberdade de expressão no exercício de cargos públicos. Ainda que a vereadora Luiza Ribeiro não tenha sido autora da frase, o ato de compartilhar o conteúdo foi interpretado por colegas como uma validação da mensagem, especialmente pela gravidade das palavras usadas.
Especialistas em direito público apontam que, embora o direito à livre manifestação de pensamento seja garantido pela Constituição, parlamentares têm a obrigação de manter condutas compatíveis com a função pública. Em ambientes institucionais, discursos que incitem violência — mesmo de forma metafórica — podem configurar quebra de decoro, dependendo do contexto.
Além disso, o caso expõe um dos reflexos da hiperconectividade na política: a velocidade com que um post pode escalar de um gesto individual para um debate institucional. Em tempos de redes sociais, o ambiente digital também se tornou uma extensão do plenário — e, com isso, sujeito às mesmas normas de conduta.
Tentativa de apaziguamento
A retirada da representação por parte de Ana Portela pode ter sido uma tentativa de evitar um prolongamento da crise dentro da Casa. Ao recuar, ela deu à colega a oportunidade de se retratar publicamente sem que o caso evoluísse para um processo formal de apuração no Conselho de Ética, o que poderia resultar em sanções políticas.
Até o momento, Luiza Ribeiro não se retratou oficialmente, mas também não reafirmou o conteúdo da postagem. Não está descartado que o assunto volte à tona em futuras sessões, principalmente se novas tensões entre os parlamentares surgirem.
Enquanto isso, a repercussão da polêmica revela como os embates ideológicos continuam a marcar a rotina legislativa em Campo Grande — muitas vezes, em detrimento das discussões sobre os reais problemas enfrentados pela população.
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