Alta histórica nos preços do café moído é impulsionada por crise climática, aumento da demanda global e custos logísticos elevados; impacto chega ao consumidor e à indústria brasileira.
O preço do café moído no Brasil disparou 80,2% nos últimos 12 meses, registrando a maior inflação da bebida em três décadas, de acordo com dados divulgados nesta sexta-feira (9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se do maior aumento acumulado desde maio de 1995, quando a inflação foi de 85,5% — pouco depois da implantação do Plano Real.
A forte elevação nos preços foi registrada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e reflete uma série de fatores que impactaram tanto o mercado interno quanto a produção e distribuição global do café.
Inflação recorde do café moído
O café moído, um item essencial nas casas brasileiras, vem enfrentando uma escalada contínua de preços. Só no mês de abril, a alta foi de 4,48%, desacelerando em relação a março (8,14%) e fevereiro (10,77%). Mesmo assim, o cenário geral é de forte pressão inflacionária.
De acordo com Fernando Gonçalves, gerente do IPCA, o produto segue encarecendo devido à combinação de fatores climáticos e financeiros. “O dólar valorizado e a pressão internacional de preços tornam o cenário mais difícil. O Brasil ainda sente os efeitos da crise climática sobre a lavoura”, afirmou Gonçalves ao portal Valor Online.
Por que o café está tão caro?
Especialistas e entidades do setor, como a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), apontam quatro causas principais para essa disparada nos preços:
1. Calor extremo e seca prolongada
As lavouras brasileiras vêm sofrendo com condições climáticas adversas há pelo menos quatro anos, incluindo geadas e ondas de calor mais frequentes. Em 2024, o estresse térmico das plantas causou abortamento de frutos, ou seja, o café não se desenvolveu adequadamente. Como consequência, a produção foi severamente afetada.
2. Redução da oferta global
O problema não é exclusivo do Brasil. Países como Vietnã — segundo maior produtor mundial — também enfrentaram quebras de safra devido ao clima. A queda da oferta global pressiona os preços internacionais e afeta diretamente os mercados consumidores.
3. Custos logísticos em alta
Conflitos no Oriente Médio, como as tensões no Mar Vermelho, encareceram significativamente o custo do transporte marítimo. Isso elevou os preços dos contêineres, principal meio de exportação do grão, afetando os contratos comerciais e encarecendo o produto final.
4. Demanda crescente no Brasil e no exterior
O café é a segunda bebida mais consumida no mundo, atrás apenas da água. Com o crescimento do consumo em países como a China, que subiu da 20ª para a 6ª posição no ranking de importadores brasileiros entre 2023 e 2025, a competição pelos grãos aumentou. Isso reduz a oferta interna e influencia diretamente o valor do produto no mercado nacional.
Impacto para o consumidor
O café, presente em 98% dos lares brasileiros, está se tornando um artigo de luxo para muitas famílias. Nos últimos cinco anos, o preço da bebida triplicou no Brasil, acumulando uma alta de mais de 110% no varejo.
Os efeitos já são sentidos na ponta do consumo: muitos estabelecimentos, como cafeterias e padarias, precisaram reajustar preços de bebidas e produtos à base de café. Já nas prateleiras dos supermercados, pacotes de café moído ultrapassam os R$ 25 em algumas regiões do país.
Efeitos na indústria e no campo
A indústria cafeeira brasileira também tem enfrentado dificuldades para repassar gradualmente os custos da matéria-prima, que subiram 224% desde 2020. Apesar da inflação, muitos empresários do setor vêm relatando aumento de lucratividade com a valorização do grão — produtores chegam a ter retorno até 150% maior do que o registrado há três anos.
Em contrapartida, a crise também levanta preocupações sobre sustentabilidade da produção a longo prazo. Soluções como o sombreamento das lavouras com árvores nativas e a diversificação de cultivos começam a ser estudadas como alternativas viáveis para reduzir o impacto da temperatura elevada no cultivo do café.
Um futuro incerto para o cafezinho
Enquanto o Brasil segue como maior produtor e exportador mundial de café, a crise atual mostra que nem mesmo a liderança global protege o país de pressões climáticas e econômicas. A conjugação de aumento de custos, expansão da demanda e problemas logísticos gera um cenário de incertezas.
Ainda não há previsão de recuo significativo nos preços no curto prazo. Segundo a Abic, o consumidor deve se preparar para novos ajustes até o fim do primeiro semestre de 2025, já que parte dos estoques da última safra ainda não foi processada.
Diante da inflação mais alta desde a estabilização econômica pós-Plano Real, o café passa a ser símbolo da vulnerabilidade do setor agrícola às mudanças climáticas e de como um produto cotidiano pode refletir desafios complexos da economia global.
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Autoria: Sarah Pacini