Funcionário afirma ter sido alvo de humilhações, punições públicas e comentários homofóbicos por parte da chefia; processo trabalhista foi aberto após três anos de serviço
Um professor de musculação de 30 anos, morador de Campo Grande (MS), decidiu romper o silêncio e denunciar uma série de abusos que teria sofrido dentro de uma academia de grande porte da capital. Após quase três anos de trabalho no local, ele afirma ter sido vítima de assédio moral, retaliações, homofobia e humilhações públicas por parte dos seus superiores.
A situação se agravou nos últimos meses, levando o profissional a procurar a Justiça do Trabalho. Em ação protocolada recentemente, o ex-funcionário pede uma indenização de R$ 400 mil pelos danos psicológicos e morais sofridos durante o período em que esteve na empresa.
“Era como se quisessem me forçar a pedir demissão”
Segundo o relato do educador físico, os problemas começaram a se intensificar após um episódio aparentemente banal: o furto de uma garrafa d’água. A vítima contou que teve seu objeto pessoal levado por uma frequentadora da academia. Ao tentar resolver a situação, foi repreendido pela chefia.
“Além de ter sido roubado, fui impedido de buscar meu direito. Alegaram que eu não poderia reclamar porque ‘o cliente sempre tem razão’. Foi a partir daí que senti que tudo começou a piorar”, afirma o professor.
Ele relata que passou a ser constantemente punido por pequenas falhas. Em uma das ocasiões, chegou dois minutos atrasado para o turno de trabalho e, como forma de punição, foi obrigado a realizar exercícios físicos diante dos alunos, constrangido e humilhado. “Fui exposto na frente dos alunos como se fosse uma criança malcomportada. Nunca passei por isso em nenhum lugar”, diz.
Descoberta acidental expôs plano para sua demissão
O momento decisivo veio de forma inesperada. Durante um problema técnico na rede de internet da academia, o professor precisou utilizar o computador da gerência e se deparou com uma conversa aberta no e-mail corporativo. A tela estava ligada, embora o monitor estivesse desligado.
“Quando liguei o monitor, vi a conversa entre minha chefe direta e o diretor de operações da academia. Foi ali que entendi tudo o que vinha sofrendo”, explica.
Na troca de mensagens, a coordenadora usava termos homofóbicos como “viadinho”, “vagabundo” e “mau-caráter” para se referir ao funcionário. Além disso, falava abertamente sobre um plano para forçá-lo a pedir demissão, evitando assim o pagamento da rescisão contratual, estimada em cerca de R$ 7 mil.
“Ela dizia que ia me aplicar advertências propositalmente, para que eu perdesse a paciência e saísse por conta própria, sem direito ao acerto. Era um plano construído com frieza”, completa o professor.
Discriminação e prejuízos financeiros
As situações relatadas vão além dos insultos verbais e das punições. O educador físico também afirma que recebia benefícios menores que os dos colegas, mesmo exercendo funções similares. Entre os exemplos estão férias concedidas fora do prazo legal, ausência de reajuste salarial proporcional e pressão para manipular avaliações de clientes da academia.
De acordo com a ação movida na Justiça do Trabalho, ele chegou a ser coagido a alterar resultados de avaliações físicas para atender aos interesses comerciais da academia. “Era antiético. Pediam para ajustar dados dos clientes para parecerem melhores do que eram de fato, como estratégia de marketing”, diz.
Demissão após ação judicial
A demissão ocorreu na sexta-feira, 16 de maio, pouco depois de o professor entrar com a ação judicial. A decisão da empresa reforçou, segundo ele, o padrão de represálias sofridas ao longo dos últimos meses.
No processo, o ex-funcionário detalha todos os episódios de assédio moral, homofobia e perseguição, além das provas documentais obtidas nas mensagens corporativas. A indenização de R$ 400 mil foi calculada com base na extensão dos danos psicológicos, perdas materiais e violações de direitos trabalhistas e humanos.
Repercussão e debate sobre ambientes tóxicos de trabalho
O caso reacende o debate sobre o assédio moral e a LGBTfobia no ambiente de trabalho, especialmente em empresas do setor de saúde e bem-estar, onde o discurso de acolhimento e inclusão nem sempre condiz com a realidade dos bastidores.
Organizações de direitos humanos e coletivos LGBTQIA+ têm acompanhado com atenção episódios como esse, que mostram que a orientação sexual ainda é alvo de preconceito institucional. Para o professor, tornar público o que viveu é uma forma de buscar justiça e de impedir que outros passem pelo mesmo.
“Eu resolvi falar porque não sou o único. Muitos colegas enfrentam esse tipo de tratamento, mas têm medo de denunciar. Isso precisa mudar”, finaliza.
Até o momento, a academia não se pronunciou oficialmente sobre o caso. A Justiça do Trabalho deve analisar o pedido de indenização nos próximos meses, após as audiências preliminares.
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Autoria: Sarah Pacini