Influenciador nega uso de contas de demonstração e declara que seus ganhos com publicidade de jogos não estão ligados às perdas dos seguidores
O influenciador digital Rico Melquíades, de 32 anos, foi o centro das atenções na sessão desta quarta-feira (14) da CPI das Bets, no Senado Federal. Chamado a depor como testemunha, ele se viu diante de um teste inusitado: jogar ao vivo no “Jogo do Tigrinho” durante a própria audiência. A jogada rendeu R$ 120, mas a ação dividiu opiniões dentro e fora da comissão.
Em sua fala aos senadores, Rico negou o uso de contas de demonstração, prática comum nas campanhas de apostas online em que influenciadores jogam em sistemas simulados, manipulados para mostrar apenas ganhos. Segundo ele, a conta usada nas gravações é a mesma que ele utiliza em sua vida pessoal, e todas as apostas feitas são com dinheiro real.
“Eu uso a minha conta, é tudo meu. Se perco, perco meu dinheiro. Se ganho, é meu também”, afirmou diante dos parlamentares.
A participação do ex-vencedor do reality A Fazenda 13 ocorreu em meio a um debate nacional sobre a influência de celebridades digitais na promoção de jogos de azar, especialmente entre jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade financeira. Rico é atualmente embaixador da plataforma Zeroum Bet.
“Não sou responsável pelas escolhas dos outros”
Durante seu depoimento, Rico sustentou que os influenciadores não podem ser responsabilizados pelas decisões de seus seguidores. Segundo ele, o vício em jogos de azar não é diferente de outros comportamentos compulsivos e precisa ser enfrentado com políticas públicas adequadas, e não com perseguição a quem faz publicidade legalmente.
“Antes dos influenciadores, já existia jogo, jogo do bicho, loteria. Sempre vai existir gente que joga. A gente não obriga ninguém a apostar. Cada pessoa tem sua consciência”, declarou.
A fala gerou reação imediata da relatora da CPI, senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), que considerou a comparação entre jogos de azar e outros vícios, como álcool, como uma tentativa de minimizar o impacto social da promoção dessas plataformas.
“Estamos falando de mecanismos criados para explorar vulnerabilidades, com algoritmos que estimulam comportamentos compulsivos. Não é só uma questão de livre arbítrio, é sobre manipulação psicológica”, rebateu a senadora.
Teste ao vivo: aposta sob pressão
Em um dos momentos mais controversos da audiência, a senadora Soraya solicitou que Rico jogasse ao vivo no Jogo do Tigrinho, aplicativo frequentemente usado por influenciadores para promoção de apostas instantâneas. Ele aceitou o desafio e apostou com sua própria conta, ganhando R$ 120 na rodada.
Quando foi solicitado que jogasse novamente, Rico recusou.
“Já fiz uma jogada, ganhei, estou feliz. Não tem por que insistir. Isso não é brincadeira, é meu dinheiro”, disse.
A ação dividiu os senadores. Enquanto alguns viram a aposta ao vivo como um gesto de transparência, outros consideraram a atitude como um espetáculo desnecessário que pode reforçar justamente a glamourização das apostas que a CPI busca entender e conter.
Controvérsias sobre comissões e lucros
Rico também foi questionado sobre os termos contratuais com a Zeroum Bet, incluindo a existência da chamada “cláusula da desgraça” — quando influenciadores seriam bonificados a partir das perdas dos jogadores.
Ele negou qualquer remuneração com base nesse tipo de cláusula.
“Eu recebo cachê fixo para divulgação, não ganho nada em cima da perda de ninguém. Meu contrato é claro quanto a isso. O que faço é publicidade, não manipulação”, explicou.
Documentos sobre o contrato foram entregues sob sigilo à comissão e devem ser analisados nos próximos dias.
Virginia Fonseca também depôs
Na véspera, Virginia Fonseca, outra influenciadora de peso nas redes sociais, também esteve na CPI. Com mais de 50 milhões de seguidores, ela respondeu sobre o uso de contas fornecidas pelas empresas e a convivência com familiares que também jogam.
Questionada pela senadora Soraya sobre a influência que exerce sobre o marido e a mãe, Virginia foi direta:
“Eles jogam comigo, mas cada um tem sua conta. Não é uma questão de imposição, é de escolha.”
Avanço da CPI e próximos passos
A CPI das Bets foi criada para investigar possíveis abusos e crimes associados à promoção de jogos de azar por influenciadores, com especial atenção para a lavagem de dinheiro, publicidade enganosa e os efeitos sociais do vício em jogos.
Nas próximas semanas, novos depoimentos estão agendados, incluindo representantes de plataformas, agências de marketing e especialistas em saúde mental. A relatora da comissão sinalizou que pretende propor regras mais rígidas para a publicidade de apostas nas redes sociais, especialmente no que diz respeito à transparência e à proteção de menores de idade.
“O que está em jogo aqui não é apenas o dinheiro dos brasileiros, é a saúde mental de uma geração”, concluiu Soraya Thronicke.
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Autoria: Sarah Pacini