Volume de 190 milímetros em dois dias altera cor do rio, interdita balneários e impacta o turismo na principal cidade turística de Mato Grosso do Sul
O paraíso natural de Bonito (MS), conhecido mundialmente pelas águas cristalinas e passeios ecológicos, amanheceu diferente nesta semana. Após dois dias de chuvas intensas, que somaram 190 milímetros, o Rio Formoso, um dos principais cartões-postais da cidade, ficou barrento e turvo, perdendo temporariamente o tom azul-esverdeado que o consagrou como símbolo do ecoturismo sul-mato-grossense.
Imagens feitas por moradores e turistas mostram o rio praticamente irreconhecível: a correnteza forte, a água escura e o acúmulo de sedimentos revelam a força da enxurrada que atingiu a região entre o domingo (26) e a segunda-feira (27). A situação levou à interdição do Balneário Municipal e à suspensão de atividades turísticas em vários pontos da cidade, medida adotada pela Prefeitura de Bonito como precaução diante do risco para banhistas e visitantes.
Enxurradas e lama: o impacto das chuvas no Rio Formoso
De acordo com a Prefeitura de Bonito, o grande volume de chuva registrado em apenas dois dias fez o nível do Rio Formoso subir rapidamente, arrastando detritos e lama das áreas de mata e estradas vicinais até o leito do rio. A força da água alterou completamente a aparência do curso d’água, deixando-o turvo e comprometendo a visibilidade subaquática — condição essencial para os tradicionais passeios de flutuação, uma das experiências mais procuradas por turistas brasileiros e estrangeiros.
O prefeito Josmail Rodrigues (PSDB) afirmou que a equipe municipal já está atuando para minimizar os efeitos do temporal, com trabalhos de manutenção em estradas rurais e drenagem para evitar que o excesso de água continue escoando para os rios. Segundo ele, essa foi uma das causas do turvamento.
“Estamos realizando serviços nas estradas vicinais para evitar que a água acumulada escorra para os rios. Isso ajuda a conter o carreamento de lama e sedimentos”, explicou o prefeito.
Apesar da situação preocupante, Rodrigues garantiu que alguns trechos do Rio Formoso, especialmente os localizados acima do Balneário Municipal, já começam a retomar a coloração natural. No entanto, o processo de recuperação completa depende diretamente das condições climáticas dos próximos dias.
“Os rios, quando enchem, acabam se limpando naturalmente. Mas o tempo para que o Formoso volte ao normal depende de quanta chuva ainda teremos. Acredito que pode levar de cinco a seis dias para a água clarear novamente”, estimou o prefeito.
Turismo em alerta e atrações suspensas
Com a mudança nas condições do rio, diversos passeios foram temporariamente suspensos. Além do Balneário Municipal, a Gruta do Lago Azul — outro ponto turístico icônico da região — também teve suas visitas interrompidas no fim de semana por questões de segurança.
A Gruta, tombada como monumento natural e conhecida pela impressionante coloração azul de seu lago subterrâneo, é um dos destinos mais visitados do Mato Grosso do Sul. As chuvas intensas provocaram alagamentos na trilha de acesso e aumento do nível da água dentro da cavidade, o que levou à interdição temporária.
O setor turístico, responsável por grande parte da economia local, monitora a situação com apreensão. Operadores de turismo e guias relatam cancelamentos pontuais de reservas, mas esperam que o cenário se normalize em poucos dias. “É uma situação natural, que acontece em períodos de chuva intensa. O importante é garantir a segurança dos visitantes e preservar o meio ambiente”, explicou um guia local ouvido pela reportagem.
Chuvas intensas em todo o Estado
Segundo o Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul), as chuvas que atingiram Bonito fazem parte de um sistema de instabilidade que se formou sobre o Estado no início da semana. Nuvens carregadas avançaram pelas regiões Centro e Sudoeste, trazendo pancadas intensas, típicas do período da primavera.
A previsão indica manutenção do tempo instável nos próximos dias, com possibilidade de novas tempestades isoladas, altas temperaturas e índices elevados de umidade. Essas condições favorecem a formação de novas áreas de chuva, o que mantém em alerta os municípios com rios e cachoeiras que dependem do turismo ecológico.
Investigações e impactos ambientais
O episódio reacendeu discussões sobre a preservação do Rio Formoso e as atividades que podem estar contribuindo para o aumento do assoreamento. Em agosto deste ano, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) instaurou um inquérito civil para investigar a construção de um açude às margens do rio, suspeita de causar turvamento das águas.
Durante a apuração, o MPMS constatou o escoamento de água por meio de canos, que drenavam parte do lago artificial para uma área de mata próxima, o que teria provocado o acúmulo de sedimentos e prejudicado a transparência das águas. A investigação segue em andamento, com fiscalização de órgãos ambientais e acompanhamento da prefeitura.
Para especialistas em meio ambiente, a combinação de chuvas volumosas e manejo inadequado do solo pode acelerar processos de erosão e carreamento de sedimentos, comprometendo ecossistemas frágeis como o do Rio Formoso. “É fundamental manter práticas sustentáveis e um controle rigoroso das atividades humanas próximas às margens dos rios”, reforçam técnicos da área.
Beleza ameaçada, mas recuperação garantida
Apesar da aparência atual, autoridades e ambientalistas afirmam que o fenômeno é temporário e que o Rio Formoso deve recuperar sua transparência natural assim que as chuvas cessarem e o nível da água estabilizar.
Para os moradores, o cenário turvo causa tristeza, mas também serve de lembrete da importância da preservação ambiental e da gestão sustentável do turismo que fez de Bonito um dos destinos mais admirados do Brasil.
Enquanto a cidade aguarda o retorno das águas cristalinas, o que permanece intocado é o sentimento de respeito e admiração pela força da natureza — capaz, em poucos dias, de transformar paisagens e lembrar que cada gota de chuva carrega também a responsabilidade de cuidar do que o tempo não pode reconstruir.
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Autoria: Sarah Pacini