Ícone do site Portal E-Brasil

Impacto das bets: como o vício em apostas destruiu famílias no Brasil

Saiba como as bets adoeceram e endividaram os brasileiros

A recente proibição das empresas de apostas online no Brasil trouxe um sentimento de alívio para quem sofreu com as consequências da dependência financeira. Histórias de perda total de bens e afastamento familiar revelam a gravidade da crise gerada pelas chamadas bets no país nos últimos anos.

O histórico da regulamentação e a vulnerabilidade social

Autorizadas originalmente em 2018, as plataformas operaram por cerca de cinco anos sem regras rígidas de controle até sua regulamentação em dezembro de 2023. Especialistas apontam que populações em situação de vulnerabilidade foram os principais alvos de campanhas publicitárias agressivas que prometiam renda fácil.

De acordo com a psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, as pessoas foram atacadas por anúncios que induziam a uma falsa ideia de que o jogo serviria como uma complementação de renda. “São pessoas que querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter isso com as bets. Isso se tornou realmente muito perigoso.”

Prejuízos bilionários e falhas no bloqueio

Dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) indicam que, entre outubro de 2024 e março de 2026, as famílias brasileiras acumularam perdas líquidas de R$ 62,5 bilhões para as plataformas. Embora a legislação exigisse o bloqueio de apostadores compulsivos, advogados apontam que a prática foi ignorada em troca do envio constante de bônus e estímulos ao jogo.

O advogado Júlio Leone destacou que as empresas mandavam inúmeros bônus e anúncios aos jogadores. “É aí que ela perde todo o capital”, disse o advogado à Agência Brasil em agosto.

O impacto devastador entre os jovens

O vício também atingiu crianças e adolescentes. Pesquisas apontam que mais de 20% dos estudantes do ensino fundamental e médio realizaram apostas online, com registros de início precoce aos 11 anos de idade. Psicólogos alertam que o cérebro jovem, em fase de desenvolvimento, possui maior dificuldade para controlar impulsos diante de estímulos rápidos de dopamina.

“O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, explica a psicóloga Mariana Kehl.

Riscos de saúde mental e o apoio do SUS

O avanço da dependência resultou em quadros graves de ansiedade, desespero financeiro e ideação suicida. Profissionais de saúde reforçam a necessidade de acolhimento psicológico e psiquiátrico para os afetados, que muitas vezes encontram nas plataformas um mecanismo desregulado de recompensa disponível a qualquer momento no celular.

“É um cassino dentro do seu bolso”, afirmou Luiz Carlos*, 71 anos, integrante do Jogadores Anônimos. ”Graças a Deus eu não jogo hoje, porque, se eu jogasse, estava perdido. Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais”, afirmou em entrevista à Rádio Nacional, dias antes de o governo proibir as plataformas de bets por problema de saúde pública.

Diante do cenário crítico, o Ministério da Saúde anunciou o fortalecimento do atendimento especializado por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo estratégias de busca ativa para oferecer suporte e tratamento médico aos apostadores em situação de vulnerabilidade.

Sair da versão mobile