Vídeo com fiéis tatuando versículo bíblico viraliza e divide opiniões entre cristãos; pastor da Reino Church defende liberdade individual.
Uma iniciativa inusitada realizada por uma igreja evangélica em Balneário Camboriú, litoral norte de Santa Catarina, ganhou grande repercussão nas redes sociais nos últimos dias. Fiéis da Reino Church participaram de uma sessão coletiva de tatuagem, onde marcaram na pele o versículo bíblico Mateus 24:14, como um símbolo do compromisso com a missão de evangelizar. O episódio, registrado em vídeo e publicado pelo pastor da igreja, Eduardo Reis, no último domingo (13), gerou reações diversas — de apoio e entusiasmo a duras críticas, principalmente de outros cristãos.
O vídeo, que já ultrapassa 1,5 milhão de visualizações até esta quarta-feira (16), mostra uma fila de jovens aguardando para fazer suas tatuagens nas dependências da igreja. A escolha do versículo se deu, segundo os organizadores, por representar o chamado à propagação do evangelho por todo o mundo: “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações. E então virá o fim.”
Gravadas no estilo lettering, as tatuagens têm um visual artístico, com letras desenhadas de forma estilizada. No vídeo, os participantes explicam a motivação por trás do gesto. “É mais do que uma tatuagem. É uma marca que vai nos lembrar diariamente da missão que Jesus nos deixou”, afirma uma das jovens entrevistadas.
Reação nas redes sociais: entre apoio e condenação
Apesar de parte dos fiéis verem a tatuagem como um ato de fé, a iniciativa dividiu opiniões nas redes sociais. Mais de 12 mil comentários foram registrados na publicação até a manhã desta quarta-feira, com muitos internautas — inclusive cristãos — questionando a coerência da ação com os ensinamentos bíblicos.
“Precisava tatuar para lembrar de Jesus? Que Bíblia vocês estão lendo?”, escreveu uma seguidora. Outro comentário mencionava que as verdadeiras marcas de fé são as “nos joelhos”, em referência ao ato de orar. Houve também quem considerasse a prática uma forma de vaidade disfarçada de espiritualidade.
Uma mulher relatou nos comentários que abandonou a carreira de tatuadora após se converter. Para ela, a tatuagem é uma tentativa externa de preencher um vazio espiritual. “Uma frase na pele não suja o coração, mas vejo isso como vaidade. É um desejo de mostrar que está tudo bem por fora, quando por dentro há algo a ser preenchido”, disse.
Igreja não se pronunciou oficialmente, mas pastor defende liberdade
Procurada pela reportagem, a Reino Church ainda não respondeu oficialmente às críticas. Já o pastor Eduardo Reis, responsável pela publicação do vídeo, comentou a repercussão em uma pregação transmitida nas redes sociais na segunda-feira (14). Ele defendeu a liberdade individual de cada fiel em expressar sua fé da forma que achar mais significativa.
“A questão não é se tatuar é certo ou errado. É sobre liberdade. As pessoas são livres para fazer o que Deus colocou no coração delas. A nossa missão é pregar o evangelho, e isso pode ser feito de várias formas”, declarou.
Eduardo também questionou o julgamento moral de outros cristãos em relação à prática, destacando que a essência do evangelho está no amor e não na aparência. Segundo ele, a tatuagem, nesse contexto, é apenas uma ferramenta de expressão pessoal da fé e não um fim em si mesmo.
Tatuagens e fé: um tema recorrente entre cristãos
O debate sobre tatuagens no meio cristão não é novo. Por décadas, fiéis e líderes religiosos têm discutido se a prática é compatível com a doutrina cristã. Alguns citam passagens do Antigo Testamento, como Levítico 19:28, que adverte contra marcas no corpo. Outros defendem que, no contexto do Novo Testamento e da nova aliança, tais proibições não têm o mesmo peso, e que o mais importante é a intenção do coração.
No Brasil, onde há uma enorme diversidade de práticas religiosas dentro do cristianismo, a aceitação de tatuagens varia bastante entre denominações. Igrejas mais tradicionais, como algumas linhas do protestantismo histórico, ainda veem com restrição a prática. Já movimentos neopentecostais, como é o caso de muitas igrejas contemporâneas, costumam adotar uma abordagem mais flexível, valorizando o testemunho pessoal acima das aparências.
Expressão de identidade ou estratégia de evangelismo?
Especialistas em sociologia da religião apontam que ações como essa da Reino Church refletem uma tentativa de aproximar a fé das novas gerações, especialmente em tempos onde identidade, estética e espiritualidade muitas vezes caminham juntas.
“Essa é uma forma que algumas igrejas encontram para se conectar com o público jovem, que valoriza autenticidade e expressão pessoal. Marcar a fé no corpo pode ser visto como uma maneira de demonstrar comprometimento, mas também é um convite à reflexão sobre os limites entre o pessoal e o institucional no campo da religião”, afirma a socióloga e pesquisadora de religiões contemporâneas, Carla Nogueira.
Enquanto o debate continua acalorado, a Reino Church segue atraindo olhares — e discussões — sobre os novos caminhos da fé evangélica no Brasil. Com ou sem tatuagem, a missão declarada dos fiéis é clara: levar a mensagem do evangelho até os confins do mundo. E, ao que tudo indica, eles estão dispostos a usar todos os meios para isso — inclusive a própria pele.
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Autoria: Sarah Pacini