Conhecida como “a guardiã do Buraco das Araras”, cobra foi vista poucas vezes desde 2017 e permanece sozinha em uma dolina com mais de 100 metros de profundidade
No coração do cerrado sul-mato-grossense, uma cena digna de documentário da natureza ocorre de forma quase secreta. Isolada do mundo, uma sucuri gigante vive solitária no fundo do Buraco das Araras, uma cratera com mais de 100 metros de profundidade localizada na cidade de Jardim, no Mato Grosso do Sul. Avistada pela primeira vez em 2017, a presença da serpente no local continua sendo um enigma para guias, turistas e cientistas.
O local é uma dolina — uma formação geológica resultante da decomposição de rochas ao longo de milênios — e atualmente faz parte de uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural). Além da sucuri, o buraco é habitat de mais de 150 espécies de animais silvestres, incluindo cerca de 120 araras-vermelhas, que coloram as paredes do paredão com seus voos circulares.
Apesar da riqueza da fauna e flora do local, é a presença da sucuri que mais desperta curiosidade e mistério. Conhecida popularmente como “sucuri do buraco”, a cobra é raramente vista, mesmo por guias experientes e visitantes frequentes. Desde sua descoberta oficial, há oito anos, estima-se que tenha sido avistada não mais do que seis vezes.
O primeiro avistamento: um “tronco que se mexe”
O primeiro registro da presença da sucuri aconteceu por acaso, em 2017, quando um turista observava o buraco com binóculos durante um passeio guiado. Ao notar o que pensava ser um tronco se movendo, chamou a atenção do guia, que rapidamente percebeu se tratar de uma serpente gigantesca. Desde então, avistamentos são raros e imprevisíveis.
“Ela vive em isolamento total, presa naquele ambiente. É um mundo à parte, o mundo dela é o buraco”, descreveu o turismólogo Josenildo Vasquez, que trabalha na reserva. Segundo ele, mesmo os guias, que percorrem a trilha diariamente, veem a sucuri apenas em ocasiões especiais e com muita sorte.
Um mistério sem resposta
O maior mistério envolvendo a sucuri é como ela chegou até ali. Devido à profundidade e à inclinação das paredes da dolina — que possui 100 metros de altura e cerca de 500 metros de circunferência —, a possibilidade de a serpente ter escalado ou descido por conta própria é considerada improvável. Uma das hipóteses levantadas pelos guias locais é de que ela tenha sido arrastada até o interior do buraco por uma enxurrada, durante uma forte chuva.
Por se tratar de uma RPPN, a entrada no Buraco das Araras é proibida para o público em geral, o que dificulta qualquer tentativa de aproximação ou resgate do animal. Só pesquisadores credenciados, com autorização de órgãos ambientais, podem acessar o interior da dolina.
Solitária, mas saudável
A doutora em Ecologia e especialista em répteis, Juliana de Souza Terra, esclarece que não é incomum que sucuris vivam sozinhas. “Elas são animais solitários por natureza. Vivem isoladas, com exceção do período reprodutivo, quando fêmeas liberam feromônios para atrair machos. Fora isso, tendem a evitar o contato com outras serpentes da mesma espécie”, explica.
Com base nas imagens e registros já coletados, a pesquisadora acredita que a serpente do Buraco das Araras seja uma fêmea. Ainda assim, o isolamento extremo chama a atenção, especialmente porque o animal vive há anos sem qualquer interação com outros de sua espécie.
Um santuário de biodiversidade
A dolina onde vive a sucuri é um verdadeiro relicário natural. Estima-se que sua formação tenha começado há mais de 10 milhões de anos, com o colapso de cavernas subterrâneas de calcário. O buraco atual teria se formado há cerca de 300 mil anos.
A região foi reconhecida oficialmente como RPPN em 2007, após iniciativa dos proprietários da área. A criação da reserva impõe regras rigorosas de preservação: é proibido caçar, construir, desmatar ou alterar o ambiente natural. A visitação é limitada a trilhas monitoradas, voltadas para educação ambiental e ecoturismo.
O que é permitido na RPPN do Buraco das Araras?
De acordo com a legislação que regulamenta as Reservas Particulares do Patrimônio Natural (Decreto Federal nº 5.746/2006), três atividades principais são permitidas:
- Pesquisa científica, desde que autorizada pelos órgãos ambientais;
- Educação ambiental, com foco na conscientização dos visitantes;
- Ecoturismo controlado, com trilhas, observação de aves e visitas guiadas.
Graças a esse modelo de gestão, o Buraco das Araras se tornou referência em conservação no Centro-Oeste, atraindo pesquisadores e turistas do Brasil e do mundo.
A guardiã de um mundo perdido
A imagem da sucuri vivendo sozinha no fundo de uma cratera milenar parece saída de um conto fantástico, mas é um fenômeno real e vivo no coração do Mato Grosso do Sul. Guardiã silenciosa de um ecossistema preservado, ela é ao mesmo tempo símbolo da força da natureza e do mistério que ainda existe mesmo em tempos de tecnologia avançada.
Sem contato com o mundo exterior, sem nome, sem dono — a sucuri do buraco é, para muitos, a encarnação de um mundo perdido que ainda resiste no interior do Brasil.
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Autoria: Sarah Pacini