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Trajetória de Willian culminou no assassinato de criança

 Marcos Willian, morto em confronto pela polícia, cometeu primeiro estupro aos 14 anos. Sua passagem por unidades de internação e a subsequente liberdade levantam debate crucial sobre a eficácia das medidas para adolescentes autores de atos infracionais graves.

A trajetória criminal de Marcos Willian Teixeira Timóteo, de 20 anos, terminou na manhã desta quinta-feira (28) em um confronto com o Grupo de Operações e Investigações (GOI) na região conhecida como Inferninho, em Campo Grande. Sua morte, durante tentativa de prisão, encerra a busca pelo principal suspeito do estupro e assassinato brutal de Emanuelly Victória Souza, de 6 anos. No entanto, a sua história, que se inicia na adolescência com crimes sexuais de extrema gravidade, deixa um rastro de questionamentos sobre a capacidade do Estado em conter, tratar e monitorar adolescentes infratores reincidentes, cuja periculosidade persiste na vida adulta.

A cronologia da violência perpetrada por Marcos Willian é chocante. Conforme apurado pelo Midiamax, sua primeira investida criminosa ocorreu quando ele tinha apenas 14 anos de idade. Nessa época, ainda sob a égide do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ele sequestrou, violentou sexualmente e abandonou em um matagal um bebê de 1 ano e 5 meses. Milagrosamente, a criança sobreviveu. Em vez de ser processado criminalmente como um adulto, Willian foi enquadrado como autor de um ato infracional análogo ao estupro. A legislação brasileira considera adolescentes inimputáveis penalmente, portanto, ele não foi criminalmente responsabilizado como um adulto, mas submetido a medidas socioeducativas.

Willian cumpriu duas internações na Unidade Educacional de Internação (Unei), o equivalente ao sistema prisional para adolescentes. As medidas, cujo caráter teórico é tanto de punição quanto de ressocialização, claramente não atingiram seu objetivo final. Anos depois, ainda durante a adolescência, ele cometeu um novo estupro, desta vez contra sua própria enteada, então com 11 anos. Os abusos foram contínuos e se estenderam por vários anos, criando um ciclo de terror doméstico que só foi interrompido quando a escola da menina notou alterações em seu comportamento e acionou a família. A mãe, ao tomar conhecimento dos fatos, registrou a ocorrência. Apesar da reincidência em crimes sexuais violentos dentro do próprio núcleo familiar, o sistema não conseguiu impedir que, ao atingir a maioridade, ele fosse liberado.

Como adulto, Marcos Willian já possuía uma passagem por violência doméstica, mas estava em liberdade quando sequestrou Emanuelly na tarde de quarta-feira (27). Imagens de câmeras de segurança, que correram as redes sociais, mostram a calma da menina ao caminhar ao lado de um homem conhecido da família. Ele a levou para sua casa na Vila Carvalho, onde, de acordo com as investigações, a estuprou repetidas vezes e a assassinou por estrangulamento.

A operação policial que localizou o corpo da criança foi desencadeada a partir da análise dessas imagens pelos pais da vítima, que, desesperados, saíram em sua busca e reviraram a vizinhança em busca de gravações. Por volta da 1h da madrugada de quinta-feira, os policiais chegaram à casa de Willian. O imóvel estava vazio e apresentava sinais de desordem: roupas e brinquedos espalhados, e o chão da cozinha, sujo de barro com marcas de chinelo. Durante a busca, a polícia fez a descoberta macabra. Escondida sob uma cama, uma banheira de bebê estava coberta. Dentro, um volume grande estava enrolado em uma coberta marrom, firmemente presa com fita adesiva. Ao abrirem o pacote, encontraram o corpo inerte de Emanuelly.

O destino do assassino foi selado horas depois. Com base em inteligência, o GOI localizou Marcos Willian na região do Inferninho. Ao ser abordado, o homem, considerado de altíssima periculosidade, reagiu e entrou em confronto com os policiais, resultando em troca de tiros. Baleado, ele foi socorrido, mas não resistiu aos ferimentos e morreu na unidade de saúde.

A morte de Marcos Willian encerra a caçada policial, mas abre um debate social urgente e doloroso. Sua história é um caso extremo que coloca sob um microscópio crítico o sistema socioeducativo brasileiro. Questões inevitáveis surgem: As unidades de internação estão preparadas para lidar e, principalmente, tratar adolescentes autores de crimes sexuais tão bárbaros? Existe um ponto em que a proteção integral ao adolescente infrator, prevista no ECA, entra em rota de colisão com o direito da sociedade à segurança e à vida? Como o sistema pode prever e evitar que um adolescente com esse perfil psicopático, após cumprir medida, se torne um adulto criminoso ainda mais perigoso?

O caso de Marcos Willian expõe uma falha de articulação crítica: a transição entre o sistema socioeducativo para o sistema penal comum. Ao completar 18 anos, mesmo com um histórico grave, ele saiu sem nenhum tipo de monitoramento ou medida cautelar que impedisse seu contato com novas vítimas em potencial. A tragédia de Emanuelly não é apenas um crime isolado de uma monstruosidade incomensurável. É um sintoma de um problema estrutural complexo, que exige uma discussão nacional profunda, responsável e sem simplismos, sobre justiça, segurança pública e a real capacidade de ressocialização daqueles que cometem os crimes mais hediondos ainda na adolescência.

Autoria: Sarah Pacini.

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