Segundo reportagem, banqueiro teria relatado pagamentos em troca de negócios com fundos de pensão; PGR afirma que proposta de colaboração foi rejeitada
Relatos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, apontam que ele teria liberado cerca de R$ 30 milhões para um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo reportagem publicada pela revista Veja, o empresário afirmou que o aporte estaria relacionado à expectativa de obter negócios com fundos de pensão de servidores federais.
O conteúdo foi divulgado nesta sexta-feira (9) a partir de áudios atribuídos a Vorcaro. Segundo a reportagem, o banqueiro teria relatado uma articulação que envolveria João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, e um pagamento em dinheiro ao Instituto Lula, dirigido por Paulo Okamotto.
As informações teriam sido encaminhadas à Procuradoria-Geral da República (PGR), que não deu andamento à proposta de colaboração apresentada pela defesa de Vorcaro. A Procuradoria afirmou que não houve depoimento oral do banqueiro e que a proposta foi rejeitada por falta de elementos materiais que comprovassem os relatos apresentados.
PGR diz que não houve depoimento de Vorcaro
Em nota divulgada após a publicação da reportagem, a PGR afirmou que as tratativas de colaboração premiada foram conduzidas exclusivamente pelos advogados de Vorcaro.
Segundo a Procuradoria, todas as propostas foram recebidas da forma como foram apresentadas pela defesa. O órgão também esclareceu que não houve contato direto entre Vorcaro e representantes da PGR.
A Procuradoria informou ainda que a ausência de depoimento oral ocorreu justamente porque a proposta de colaboração foi rejeitada. Os motivos da decisão, segundo o órgão, foram apresentados à defesa.
A defesa de Vorcaro, por sua vez, teria informado que possui materiais que poderiam sustentar os relatos. Entre os documentos citados estão capturas de tela, mensagens de WhatsApp, registros de pessoas que teriam participado de retiradas de dinheiro em espécie e informações sobre rotas e locais utilizados.
Relato menciona fundos de pensão
Segundo a reportagem da Veja, Vorcaro teria afirmado que João Vaccari Neto exigiria uma taxa de 10% sobre recursos que o Banco Master conseguisse captar junto a fundos de previdência ligados à Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Petrobras e Correios.
O relato atribuído ao banqueiro menciona uma divisão de valores entre o partido e o próprio banco. Essas informações, porém, fazem parte de uma narrativa que, segundo a PGR, não apresentou comprovação material suficiente para sustentar uma colaboração premiada.
Em outro trecho de áudio divulgado pela revista, Vorcaro teria mencionado pagamentos relacionados a um filme sobre Lula e feito referência a valores destinados ao Instituto Lula.
PT contesta acusações
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, contestou as informações atribuídas ao banqueiro.
Em áudio enviado à militância do partido, ele afirmou que o conteúdo não foi aceito como delação pela Polícia Federal nem pelo Ministério Público e classificou as declarações como acusações sem comprovação.
Edinho também afirmou que as informações teriam sido apresentadas com viés político e questionou a diferença de tratamento em relação às investigações envolvendo Flávio Bolsonaro e o filme Dark Horse.
As declarações do dirigente partidário fazem parte da reação política à divulgação dos relatos atribuídos a Vorcaro.
Articulação teria envolvido integrantes do governo
Ainda segundo a reportagem, a aproximação do Banco Master com integrantes do governo federal teria sido articulada pelo então sócio e CEO da instituição, Augusto Lima, com intermediação do senador Jaques Wagner (PT-BA).
Wagner foi alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em junho de 2026. A operação investiga suspeitas relacionadas ao Banco Master.
A reportagem também cita o então ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, o secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, e operadores ligados ao banco.
Segundo o relato atribuído a Vorcaro, uma estrutura interna teria sido criada no Banco Master para buscar negócios com fundos de pensão estatais. O banqueiro teria afirmado que, nesse processo, passou a receber pedidos de pagamentos que chamou de “mordidas”.
Um operador identificado apenas como “Júlio” também é mencionado na reportagem como suposto intermediário nas conversas com dirigentes de fundos de pensão.
Documentário sobre Lula teria sido produzido no exterior
Segundo a revista, o projeto relacionado a Lula seria um documentário produzido no exterior, com participação de pessoas próximas ao presidente.
O advogado Walfrido Warde é citado como um dos possíveis entrevistados. A reportagem também afirma que teria existido outro pagamento à instituição, sem detalhar o valor.
A PGR teria considerado insuficientes as informações apresentadas sobre esses pagamentos, principalmente porque os valores mencionados teriam sido entregues em espécie.
Até o momento, os relatos divulgados permanecem como acusações atribuídas a Vorcaro e não foram apresentados no texto como fatos comprovados pela Justiça.
Banco Master também financiou filme sobre Bolsonaro
O Banco Master também aparece relacionado ao filme Dark Horse, produção que conta a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Segundo as informações apresentadas na reportagem, R$ 61 milhões teriam sido destinados à produção. Um áudio divulgado anteriormente pelo site The Intercept, atribuído a Flávio Bolsonaro, mostra o senador cobrando de Vorcaro pagamentos relacionados ao projeto.
O episódio já faz parte das investigações envolvendo o banqueiro e o financiamento do filme.
Defesa afirma que Vorcaro não prestou novo depoimento
Procurado pelo Metrópoles, o advogado Daniel Bialski, que atualmente representa Vorcaro, afirmou que não há depoimentos recentes do banqueiro sobre o assunto.
Segundo o advogado, ele não integrava a defesa de Vorcaro quando as propostas de colaboração foram apresentadas. Bialski também declarou que o banqueiro não prestou novo depoimento à Polícia Federal tratando das acusações mencionadas.
A PGR mantém sob sigilo o procedimento relacionado à tentativa de colaboração premiada. As informações divulgadas sobre o suposto financiamento do documentário e as negociações com fundos de pensão ainda dependem de comprovação documental e de eventual apuração pelas autoridades.
