Pentacampeão vê treinador como ideal para ciclo de quatro anos e alerta que pressa por vitórias na base sufoca criatividade em campo.
Eliminação brasileira diante da Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo reacendeu debates sobre o futuro do futebol nacional. Em meio ao cenário de dor após os dois gols de Erling Haaland que mandaram os pentacampeões para casa, Cafu, capitão do título de 2002, surge com um diagnóstico claro: o país precisa de tempo, confiança no comando técnico e, acima de tudo, devolver o prazer de jogar às crianças.

Projeto de longo prazo com Ancelotti Confiança é a palavra de ordem para o ex-lateral quando o assunto é Carlo Ancelotti. Para Cafu, o italiano, que o comandou nos tempos de Milan, não pode ser julgado apenas pelo resultado imediato, já que assumiu a Seleção em uma “situação de emergência” após um período de instabilidade com três técnicos interinos.
— Ancelotti chegou a esta Copa do Mundo para apagar um incêndio. Ele assumiu o leme de um navio que já estava em movimento — comparou o capitão, ressaltando que agora, com o “navio atracado”, o treinador terá a chance real de traçar o rumo correto para o ciclo de quatro anos até 2030.
Crise na formação de talentos Preocupação maior, no entanto, reside no que acontece longe dos holofotes da equipe principal. Cafu alerta que o Brasil está confundindo desenvolvimento com a obrigação de vencer precocemente. O diagnóstico é severo: o país parou de formar atletas com liberdade criativa para fabricar apenas “competidores”.
Essa mudança de paradigma reflete-se na carência de funções específicas em campo. Segundo o veterano, as categorias de base não estão mais entregando laterais com a qualidade de outrora, pois a função foi descaracterizada dentro de sistemas rígidos.
Criatividade em xeque Resgate da essência lúdica do futebol foi o tema central de Cafu durante a inauguração de uma escultura monumental de Lego, no Rockefeller Plaza, em Nova York. Ao observar a obra de 8,47 metros construída com mais de 1,3 milhão de peças, ele traçou um paralelo com a formação ideal de um jogador: um processo gradual onde o prazer deve preceder a cobrança.
— Deixem as crianças serem crianças. Aos oito anos, uma criança deve estar brincando com uma bola, rindo e se divertindo — sentenciou o ídolo, temendo que a pressão por resultados esteja sufocando a inventividade que sempre foi a marca registrada do futebol brasileiro.
Com o jejum de títulos mundiais podendo chegar a 28 anos em 2030 — marca superior aos 24 anos de espera que ele próprio ajudou a encerrar em 1994 —, Cafu entende que a pressão sobre a próxima geração será imensa. Por isso, defende que a reconstrução comece pela base, protegendo o potencial e o calibre que o Brasil ainda possui.


