Presidente da entidade que representa o setor americano cita volume, qualidade e eficiência do Brasil após disputa sobre tarifas
Café brasileiro ocupa uma posição difícil de substituir no mercado dos Estados Unidos, segundo avaliação do presidente da National Coffee Association (NCA), Bill Murray. Para ele, nenhum outro país reúne ao mesmo tempo escala de produção, eficiência e qualidade suficientes para ocupar integralmente o espaço do Brasil no abastecimento americano.
A declaração foi feita às vésperas do Vitória Coffee Summit, evento realizado em Vitória, no Espírito Santo, e ocorre depois de mais de um ano de negociações envolvendo representantes da cadeia cafeeira brasileira e americana.
A articulação buscou retirar o café brasileiro do alcance de novas tarifas impostas ou estudadas pelo governo dos Estados Unidos.
Em julho deste ano, a NCA comemorou a decisão americana de excluir o café brasileiro, incluindo o café solúvel não aromatizado, de novas tarifas vinculadas à investigação da Seção 301. A própria associação afirma que os Estados Unidos não produzem café em quantidade suficiente para atender ao consumo interno.
Brasil tem peso estratégico no mercado americano
Segundo Murray, a relevância brasileira não está ligada apenas à quantidade produzida.
O executivo cita a combinação entre volume, qualidade dos grãos e eficiência da cadeia produtiva como fatores que dificultam uma substituição por outros fornecedores.
Colômbia e Vietnã estão entre os grandes produtores mundiais, mas, na avaliação dele, não conseguiriam preencher sozinhos a lacuna que seria criada por uma redução significativa das compras do Brasil.
A National Coffee Association também aponta que praticamente todo o café necessário para abastecer o mercado dos Estados Unidos precisa ser importado de países produtores.
Tarifas chegaram a afetar exportações brasileiras
A disputa comercial ganhou força em 2025.
Em agosto daquele ano, cafés brasileiros passaram a enfrentar uma tarifa total de 50% para entrar nos Estados Unidos, resultado da combinação de uma tarifa anterior de 10% com uma sobretaxa adicional de 40%.
A medida permaneceu em vigor por quase quatro meses para grande parte dos produtos.
Durante esse período, as exportações brasileiras para o mercado americano recuaram.
Entre agosto e novembro de 2025, os embarques caíram de 2,917 milhões para 1,315 milhão de sacas na comparação com o mesmo período de 2024, redução de 54,9%, segundo os dados apresentados pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil.
Setor articulou mais de 100 reuniões
A retirada das barreiras foi precedida por uma mobilização conjunta entre entidades brasileiras e americanas.
Participaram das discussões representantes do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, da Associação Brasileira da Indústria de Café, da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel, da NCA e de importadores americanos.
Segundo as informações divulgadas, foram realizadas mais de 100 reuniões durante mais de um ano.
Os encontros envolveram representantes dos departamentos de Comércio, Estado e Agricultura dos Estados Unidos, além do Escritório do Representante Comercial americano.
Café movimenta milhões de empregos nos Estados Unidos
Um dos principais argumentos usados pelo setor americano foi o peso econômico da cadeia do café dentro dos próprios Estados Unidos.
A NCA afirma que o produto sustenta cerca de 2,2 milhões de empregos americanos e movimenta quase US$ 350 bilhões por ano na economia do país.
A entidade também informa que cerca de dois terços dos adultos americanos consomem café diariamente.
Esse nível de consumo ajuda a explicar por que o abastecimento externo permanece essencial.
Brasil respondeu por 19% das importações
Segundo Murray, o Brasil representou cerca de 19% do valor das importações americanas de café no ano passado.
Esse peso comercial faz do país um fornecedor importante para torrefadoras, indústrias e empresas que processam o produto nos Estados Unidos.
A dependência também é influenciada pela limitação da produção doméstica americana, insuficiente para atender ao tamanho do consumo interno.
Novas tarifas foram evitadas em julho
A discussão sobre tarifas voltou ao centro das atenções em julho de 2026.
Naquele mês, o governo americano decidiu excluir cafés brasileiros das tarifas que poderiam ser aplicadas no âmbito de uma investigação da Seção 301.
O café solúvel não aromatizado também entrou na lista de exceções após pedidos do setor.
Dias depois, o produto brasileiro também ficou fora de outra possível sobretaxa.
Com essas decisões, os cafés do Brasil permaneceram fora das novas tarifas em análise naquele momento.
NCA deve continuar defendendo isenção
Bill Murray evitou afirmar que o risco de futuras tarifas está definitivamente encerrado.
A posição da NCA, porém, é continuar defendendo que o café seja tratado de maneira diferenciada em eventuais disputas comerciais.
A entidade argumenta que novas barreiras poderiam aumentar os custos para empresas e consumidores americanos.
Em novembro de 2025, a própria NCA já havia comemorado a retirada de tarifas sobre parte das importações brasileiras, argumentando que a medida ajudaria a reduzir custos e preservar a cadeia econômica ligada ao café.
Para o setor, a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos permanece marcada por uma dependência mútua: o Brasil encontra no mercado americano um dos principais destinos para o produto, enquanto os Estados Unidos dependem das importações para manter o abastecimento de uma das bebidas mais consumidas no país.


