Alir Terra Lima e outros sete denunciados responderão a ação penal por suspeita de irregularidades em contrato de digitalização de prontuários
A ex-presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, e outros sete denunciados passaram a responder a uma ação penal por suspeita de participação em um esquema que teria causado R$ 1,9 milhão em prejuízos ao hospital. A decisão é da 5ª Vara Criminal Residual de Campo Grande, após o recebimento da denúncia apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).
Além de Alir, tornaram-se réus Jary de Carvalho e Castro, ex-vice-presidente da instituição; Rinaldo Hakme Romano, diretor administrativo-financeiro; Alessandro Dias Junqueira, diretor administrativo; Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, diretor de finanças adjunto e conselheiro; Monique Gregório de Oliveira, supervisora do serviço de arquivo médico e estatística; e o empresário Maurício Aparecido Benites. Alguns dos denunciados estavam afastados cautelarmente em razão de prisões preventivas.
O caso surgiu a partir da Operação Antidotum, deflagrada em setembro pelo MPMS, por meio do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). A investigação apura possíveis fraudes em um contrato firmado pela Santa Casa para digitalização de prontuários e outros documentos.
O recebimento da denúncia não significa condenação. Com a abertura da ação penal, os acusados poderão apresentar suas defesas, produzir provas e contestar as acusações feitas pelo Ministério Público.
Ex-presidente admite que diretoria soube dos problemas
Em depoimento prestado ao Gaeco quatro dias após ser presa na Operação Antidotum, Alir reconheceu que a direção da Santa Casa tomou conhecimento de inconsistências no contrato firmado com a empresa Redvalue. Segundo ela, o Conselho Fiscal levou os problemas à diretoria, que discutiu a situação e decidiu manter a contratação.
A ex-presidente afirmou que a decisão foi tomada em conjunto. Na versão apresentada durante o interrogatório, a preocupação era evitar que a instituição perdesse os valores já investidos caso o contrato fosse encerrado.
Alir também relatou que houve discussão sobre a interrupção de novos pagamentos e que o contrato deveria ser reorganizado para que os valores fossem compensados. Apesar dos alertas, a contratação não foi encerrada.
É justamente nesse ponto que existe uma divergência entre o depoimento da ex-presidente e a acusação do Ministério Público. Alir sustenta que a decisão foi colegiada e buscava evitar prejuízos à instituição. Para o MP, porém, ela ocupava posição central na estrutura investigada e tinha conhecimento dos problemas relacionados à execução do contrato.
Contrato previa R$ 150 mil por mês
Segundo a denúncia, o grupo teria atuado na Santa Casa entre janeiro de 2024 e setembro de 2026. A acusação aponta uma divisão de tarefas para obtenção de vantagens indevidas por meio de crimes contra o patrimônio.
O contrato investigado previa pagamento mensal de R$ 150 mil à Redvalue para a digitalização de até 3 milhões de páginas. Um dos pontos que chamou a atenção do Conselho Fiscal foi a diferença entre o volume de documentos registrado como digitalizado e os valores pagos à empresa.
Entre janeiro e 16 de abril de 2025, foram registradas 1.772.198 páginas digitalizadas. Pelo preço previsto no contrato, esse volume corresponderia a R$ 88.609,90. Nesse período, porém, a empresa já havia recebido R$ 750 mil. O Ministério Público calculou uma diferença de R$ 661.390,10 nesse recorte.
Um relatório bancário anexado ao processo apontou ainda que a Santa Casa transferiu diretamente R$ 1.548.525 para a Redvalue durante o período analisado pelos investigadores.
O mesmo relatório registrou movimentações em dinheiro vivo nas contas da empresa, com 109 saques que somaram R$ 4.628.563,85 e 15 depósitos em espécie, totalizando R$ 583,4 mil. O documento, porém, não significa que todo esse dinheiro tenha origem na Santa Casa ou que tenha sido desviado da instituição.
Alir nega controle direto dos pagamentos
Embora tenha admitido que tomou conhecimento das inconsistências e participou da reunião que decidiu pela continuidade do contrato, Alir afirmou que não acompanhava diretamente a execução dos serviços nem os pagamentos.
Segundo o depoimento, essa tarefa cabia ao fiscal e ao gestor do contrato. Alir apontou Monique Gregório de Oliveira como fiscal. Rinaldo Hakme Romano teria exercido inicialmente a função de gestor, posteriormente assumida por Alessandro Dias Junqueira. Os três também estão entre os réus da ação.
Na denúncia, o Ministério Público atribui a Rinaldo e Paulo Guilherme atuação na estrutura financeira e administrativa relacionada aos pagamentos. Alessandro e Monique são apontados como participantes de atividades ligadas à elaboração ou validação de informações sobre a execução do serviço.
Vice-presidente teria participado da contratação
Durante o interrogatório, Alir também falou sobre Jary de Carvalho e Castro, que ocupava a vice-presidência da Santa Casa.
Segundo ela, a necessidade de digitalizar os prontuários estava relacionada ao grande volume de documentos armazenados e às condições do espaço físico. Jary, que é engenheiro, teria ficado responsável por buscar uma solução para o problema.
Alir disse, no entanto, não saber quem formalizou a demanda que deu origem à contratação nem se Jary já tinha relação com Maurício Aparecido Benites, empresário ligado à Redvalue. O Ministério Público afirma que Jary participou do direcionamento de recursos para a empresa mesmo depois dos problemas identificados na execução do contrato.
Serviço apresentou problemas
O próprio depoimento da ex-presidente também registra problemas na execução do contrato. Segundo Alir, parte dos documentos foi digitalizada em preto e branco, embora algumas informações dos prontuários precisassem ser preservadas em cores.
Ela também relatou dificuldades relacionadas à certificação necessária para permitir o descarte dos documentos físicos. De acordo com seu depoimento, a empresa foi chamada para corrigir essas questões. Foi durante as discussões sobre os problemas que Alir afirmou ter passado a ter contato com Maurício.
A ex-presidente negou ter mantido relação pessoal ou profissional com o empresário antes da contratação.
Investigação também alcança outra frente
O interrogatório de Alir abordou ainda uma segunda frente da Operação Antidotum, relacionada à operadora Santa Casa Saúde e a empresas ligadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte.
Alir negou ter sido sócia formal de Paulo, mas confirmou que os dois tiveram uma relação profissional no passado. Segundo ela, ele trabalhou em seu escritório e houve divisão de honorários em determinados processos.
A ex-presidente também confirmou que, posteriormente, alugou o próprio escritório para Paulo e passou a receber mensalmente os valores referentes ao aluguel.
Paulo da Cruz Duarte e Beatriz Lemes da Silva, que era gestora da Santa Casa Saúde, não fazem parte dos sete réus desta ação penal. A investigação sobre possíveis fraudes em contratos da Santa Casa Saúde e eventuais crimes de lavagem de dinheiro foi desmembrada e ainda não estava concluída, conforme documento anexado ao processo.
Defesa nega participação em corrupção
O advogado Murilo Marques, responsável pela defesa de Alir Terra Lima, negou qualquer envolvimento da ex-presidente em um esquema de corrupção.
Segundo a defesa, Alir foi denunciada em razão do cargo que ocupava e todas as decisões foram tomadas em conjunto com a diretoria. O advogado também afirma que não houve ato ilícito praticado por ela e destaca que a ex-presidente não foi denunciada por corrupção.
A ação penal seguirá agora com a apresentação das respostas dos réus e o andamento das demais etapas previstas no processo. A denúncia recebida pela Justiça trata especificamente do contrato de digitalização e do dano material de R$ 1.970.850 apontado pelo Ministério Público nessa frente da investigação. Esse valor não deve ser confundido com outras cifras apuradas em diferentes frentes da Operação Antidotum.


