Em Mato Grosso do Sul, a quantidade de gado supera a de habitantes, revelando um cenário peculiar que chama a atenção para o papel da pecuária e as desigualdades alimentares no estado.

Mato Grosso do Sul, conhecido por sua imensurável contribuição à pecuária nacional, apresenta um dado curioso e impressionante: para cada habitante do estado, há nada menos que seis cabeças de gado. Esse fenômeno reflete o poderio do setor agropecuário na economia local e destaca a importância da pecuária para o estado, que ocupa a quinta posição no país em número de rebanho bovino.
De acordo com os dados mais recentes da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2023 o rebanho bovino de Mato Grosso do Sul alcançou a marca de 18,8 milhões de cabeças de gado, um número impressionante quando comparado com a população do estado, que é de cerca de 2,9 milhões de habitantes, segundo o último Censo. Essa discrepância cria uma relação que revela a força do setor: para cada morador de Mato Grosso do Sul, há seis bois.
A Pecuária no Centro-Oeste: gigantesca e dominante
O município de Corumbá, localizado no Pantanal sul-mato-grossense, lidera esse ranking. Com um rebanho que ultrapassa 2 milhões de cabeças de gado, a cidade se destaca não apenas no estado, mas em todo o Brasil. Logo atrás, Aquidauana, com um rebanho de 853 mil bois, e Ribas do Rio Pardo, com 826 mil, completam o pódio dos maiores rebanhos de gado de Mato Grosso do Sul. Esses números evidenciam como a pecuária está profundamente enraizada na economia local, especialmente no interior do estado, onde as grandes propriedades rurais dominam a paisagem e os municípios são fortemente voltados para o setor agropecuário.
Para colocar os números em perspectiva, os dados do IBGE sobre a população dos municípios refletem uma disparidade significativa. Corumbá, com mais de 99 mil habitantes, possui mais de 2 milhões de bois, enquanto Aquidauana, com menos de 50 mil habitantes, abriga quase 900 mil bois. A cidade de Ribas do Rio Pardo, com seus 23 mil habitantes, possui mais de 800 mil cabeças de gado. Esses números ressaltam o peso da atividade pecuária na configuração social e econômica do estado, com municípios que, em termos de população humana, são pequenos, mas em número de gado, se tornam potências.
O papel da pecuária na economia e as desafios sociais
A presença dominante da pecuária em Mato Grosso do Sul não é surpresa, considerando o papel central da agropecuária para o estado, que é um dos maiores produtores de carne bovina do Brasil. No entanto, o que torna essa realidade ainda mais impactante é o contraste com as condições sociais e de segurança alimentar que afetam grande parte da população sul-mato-grossense. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), também do IBGE, revelam uma situação alarmante: ao longo dos últimos seis anos, cerca de 27 mil domicílios em Mato Grosso do Sul enfrentaram uma severa insegurança alimentar, precisando reduzir a quantidade de alimentos disponíveis para garantir a sobrevivência. Esse dado coloca em destaque uma triste realidade: enquanto o estado exporta grandes quantidades de proteína, muitos de seus habitantes ainda sofrem com a falta de acesso a alimentos de qualidade.
Além disso, a pesquisa aponta que cerca de 157 mil domicílios vivem em insegurança alimentar leve, o que significa que, apesar de ainda conseguirem acessar alimentos, as famílias precisam alterar a qualidade de sua alimentação, sacrificando itens essenciais para garantir a quantidade necessária de comida.
Este contraste entre a produção abundante e o sofrimento de uma parte da população é um dos maiores desafios sociais enfrentados por Mato Grosso do Sul. O setor agropecuário, embora seja uma das maiores fontes de renda e emprego do estado, não tem sido suficiente para garantir que todos os seus habitantes tenham acesso a uma alimentação adequada e de qualidade.
O que o futuro reserva para o estado?
Apesar do cenário de desigualdade, Mato Grosso do Sul continua a se destacar pela sua força no setor agropecuário, principalmente no que se refere à produção de carne bovina, soja e galináceos. O estado, com seu vasto rebanho de gado e produção agrícola, é um dos pilares da economia nacional. No entanto, para que o desenvolvimento do setor seja verdadeiramente sustentável e benéfico para todos, é essencial que políticas públicas sejam implementadas com foco na melhoria da qualidade de vida da população local.
É fundamental que a riqueza gerada pela agropecuária não beneficie apenas os grandes produtores, mas que também chegue às famílias que vivem nas áreas rurais e urbanas, garantindo acesso a alimentos de qualidade e promovendo a segurança alimentar para todos. Esse é um dos maiores desafios para Mato Grosso do Sul nos próximos anos: conciliar o crescimento do setor agropecuário com a necessidade urgente de combater as desigualdades sociais.
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Autoria: Sarah Pacini

