Espetáculo provocador, que se passa em uma enfermaria psiquiátrica, questiona quem são os verdadeiros loucos e encerra temporada no domingo com casa cheia.

O domingo em Campo Grande foi marcado pela última apresentação do espetáculo Escorial, uma obra teatral que mergulhou o público em um universo de loucura, poder e grotesco. Encenada no espaço Teatral Grupo de Risco (TGR), a peça, escrita pelo dramaturgo belga Michel Ghelderode em 1927, encerrou sua temporada com uma narrativa intensa e cheia de simbolismos, deixando o público em reflexão sobre a natureza humana e as estruturas de poder.
A trama: caos e ironia em uma enfermaria psiquiátrica
Escorial se desenrola em uma enfermaria psiquiátrica, onde os limites entre sanidade e insanidade se confundem. A história acompanha a relação entre um Rei (interpretado por Fábio Arruda) e o bobo da corte, Folial (George Lalier). Juntos, eles tramam contra os sinos, planejam a morte da Rainha e lamentam cães degolados, em uma trama repleta de ironia e críticas sociais. A peça é conduzida por “atores loucos”, que personificam o caos e a desordem, questionando quem são os verdadeiros loucos: aqueles que estão dentro da enfermaria ou aqueles que observam de fora, calados.
O diretor Breno Moroni explica que o espetáculo usa o humor grotesco para escancarar verdades incômodas. “O riso pode ser cruel. Quando o riso é grotesco, ele revela verdades que poucos ousam dizer. Escorial provoca essa reflexão: quem é o verdadeiro louco? O rei? O bobo da corte? Ou aquele que assiste a tudo calado?”, reflete Moroni.
Acessibilidade como parte da dramaturgia
Um dos grandes destaques de Escorial foi a inclusão de um intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) como parte ativa da encenação. Jessé Macedo, que interpreta “O Monge”, não apenas traduziu a peça para o público surdo, mas também participou da narrativa, integrando-se à dramaturgia de forma orgânica. Essa abordagem inovadora garantiu que a acessibilidade não fosse um elemento à parte, mas sim uma peça fundamental da obra.
A decisão de incorporar o intérprete à trama foi tomada para garantir que a experiência teatral fosse acessível a todos, sem perder a essência da encenação. “A acessibilidade não pode ser um adendo, algo que se coloca depois. Ela precisa estar na raiz da criação, fazendo parte da história que queremos contar”, explica Breno Moroni.
O humor ácido e a crítica social
Escorial é uma peça que desafia o público a refletir sobre as estruturas de poder e a natureza da loucura. O humor ácido e grotesco serve como uma ferramenta para expor as contradições e absurdos da sociedade, questionando quem detém o poder e como ele é exercido. A relação entre o Rei e o bobo da corte, por exemplo, é uma metáfora para a dinâmica entre opressores e oprimidos, onde os papéis se invertem e se confundem.
A peça também aborda temas como a morte, a traição e a decadência, sempre com um tom de ironia e irreverência. A presença dos “cães degolados”, por exemplo, é um símbolo da violência e da perda de inocência, enquanto os sinos representam a opressão e o controle social. Tudo isso é apresentado de forma caótica e desconcertante, convidando o público a questionar suas próprias certezas.
A última apresentação de Escorial no domingo contou com casa cheia, reunindo um público diversificado que incluiu amantes do teatro, estudantes e famílias. O espetáculo, que já havia conquistado o público nas apresentações anteriores, encerrou sua temporada com um impacto ainda maior, deixando uma marca profunda na cena cultural de Campo Grande.
Ao final da peça, o público foi convidado a participar de um bate-papo com o elenco e a equipe de produção, em um momento de troca e reflexão sobre os temas abordados. Muitos espectadores destacaram a importância de obras como Escorial para provocar discussões necessárias sobre poder, loucura e acessibilidade.
O espetáculo Escorial encerrou sua temporada no domingo com chave de ouro, consolidando-se como uma das produções mais ousadas e relevantes da cena teatral de Campo Grande. Com uma narrativa rica em simbolismos, uma encenação inovadora e a inclusão de acessibilidade como parte da dramaturgia, a peça deixou um legado de reflexão e provocação.
Para quem teve a oportunidade de assistir, Escorial foi mais do que uma peça de teatro; foi uma experiência que desafiou o público a pensar e sentir de forma intensa. E, para aqueles que não puderam comparecer, a temporada encerrada deixa a certeza de que produções como essa continuarão a transformar a cena cultural da cidade.
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Autoria: Sarah Pacini

