Portal E-Brasil

O que seu sobrenome revela sobre a história do Brasil

O que seu sobrenome revela sobre a história do Brasil

Estudo realizado por linguista baiana mapeia as origens e os significados dos sobrenomes mais comuns no país, e mostra como eles guardam memórias de imigração, colonização e identidade familiar.

Você já parou para pensar no significado do seu sobrenome? Pode parecer apenas um detalhe burocrático do registro civil, mas, na verdade, ele carrega séculos de história, identidades culturais, memórias familiares e até indícios de como seus ancestrais viviam. Essa é a conclusão de uma pesquisa desenvolvida ao longo de cinco anos por Letícia Santos Rodrigues, doutora em linguística pela Universidade de São Paulo (USP).

Letícia é autora do primeiro dicionário de sobrenomes brasileiros com base científica, que reúne a origem e o significado de 1.707 sobrenomes que aparecem em mais de 80% da população brasileira. O projeto, que nasceu ainda na graduação, foi sendo aperfeiçoado ao longo do mestrado e do doutorado, com base em fontes históricas como fichas de imigração, passaportes antigos e documentos portugueses do século XIX.

“Não queria um trabalho acadêmico que ficasse engavetado. Queria que qualquer pessoa pudesse consultar e se reconhecer no próprio nome”, afirma a pesquisadora, nascida em Salvador, que se encantou com a onomástica – ciência que estuda nomes próprios – ainda durante a graduação na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Sobrenomes como janelas para o passado

A pesquisa foi motivada pela curiosidade em entender o que nomes como Rodrigues, Souza, Pereira ou Machado dizem sobre a trajetória de quem os carrega. E a resposta, segundo Letícia, vai muito além da etimologia: “O nome é uma forma de memória viva. Ele carrega origem, território, profissão, religião e até humor”.

Segundo dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), cerca de 87,5% dos brasileiros têm sobrenomes de origem ibérica, o que inclui nomes portugueses e espanhóis. Esse índice se deve, principalmente, ao passado colonial e à intensa imigração portuguesa no século XIX, período que serviu de base para grande parte do levantamento feito por Letícia.

Ela analisou cerca de 50 mil nomes distintos, mas reduziu o material a 1.707 itens com repetição comprovada em registros históricos e representatividade nacional. Variações como “Sousa” e “Souza”, por exemplo, foram consolidadas em entradas distintas por conta da grafia, mas têm mesma origem.

Oito categorias explicam os sobrenomes mais comuns

Para organizar os dados, a linguista dividiu os sobrenomes em oito grandes categorias:

  1. Patronímicos: nomes derivados do pai ou ancestral masculino. Exemplos: Rodrigues (“filho de Rodrigo”), Antunes, Domingues. A terminação “-es” é típica da língua portuguesa.
  2. Profissões e materiais: baseados em ofícios ou materiais relacionados. Como Ferreiro, Bronze ou Machado.
  3. Características físicas ou comportamentais: descrevem traços marcantes. Por exemplo, Salgado (espirituoso) ou Batata (termo pejorativo ligado a alguma deficiência física).
  4. Regionais, vegetação ou origem geográfica: remetem a locais, plantas ou nacionalidades. Como Oliveira, Lage, Brasileiro ou Português.
  5. Religiosos: fortemente influenciados pela Igreja Católica. Santos, Nascimento, Bonfim são alguns exemplos.
  6. Animais: nomes que remetem a animais com significado simbólico ou comportamental. Lobo, Coelho, Pinto.
  7. Antropônimos: nomes próprios que viraram sobrenomes, como Duarte, Paulino, Abraão.
  8. Agnomes: usados para diferenciar gerações com mesmo nome, como Filho, Júnior e Neto.

Essas categorias ajudam a entender como a sociedade se organizava no passado, com nomes que indicavam o papel de cada um no meio onde vivia – seja como ferreiro, agricultor, filho de alguém importante ou devoto de determinado santo.

Documentos históricos revelam a trajetória dos nomes

O dicionário foi construído a partir de cruzamento de fontes históricas. Letícia consultou:

  • Registros de matrícula de imigrantes portugueses que chegaram ao Brasil entre 1887 e 1889;
  • Passaportes emitidos entre 1888 e 1890;
  • Arquivos da Universidade de Coimbra, em Portugal;
  • Lista de aprovados na Fuvest de 2017, como amostra da atualidade.

“Esses documentos mostraram padrões. Nomes que surgiram em regiões específicas de Portugal e depois se espalharam pelo Brasil. Ou sobrenomes que mudaram de grafia para se adaptar à língua falada localmente”, explica.

Sobrenome como identidade e reconhecimento

Além do aspecto histórico, o estudo reforça a importância emocional que o nome carrega. “As pessoas se veem no nome. Quando leem o significado, reconhecem o avô, a cidade natal, uma piada de família”, conta Letícia.

Com a defesa da tese em 2024, ela agora pretende transformar o dicionário em uma plataforma interativa, onde qualquer pessoa poderá buscar seu sobrenome, descobrir sua origem e contribuir com informações familiares. “É um trabalho de base viva. A memória oral e familiar também tem valor científico.”

Enquanto isso, o dicionário pode ser consultado na íntegra no trabalho de 500 páginas intitulado “Caminhos da imigração: os sobrenomes que contam histórias”, disponível nos repositórios acadêmicos da USP.

A obra já é considerada uma referência inédita na área de linguística histórica no Brasil e, mais do que isso, uma oportunidade de reconectar os brasileiros com suas raízes e suas histórias.

Para mais notícias sobre a história do país, confira o Portal E-Brasil.

Autoria: Sarah Pacini

Arquivos Relacionados

Deixe um comentário