Fenômeno natural faz com que a duração do dia varie em milissegundos; cientistas monitoram a aceleração da rotação desde 2020 com auxílio de relógios atômicos

A Terra deve registrar, nesta quarta-feira (9), o dia mais curto de 2025. De acordo com o Observatório Nacional, o planeta realizará sua rotação em um intervalo ligeiramente menor do que o habitual, com previsão de encerrar o giro completo em 1,30 milissegundo a menos do que as 24 horas padrão. Apesar de imperceptível para os seres humanos, essa diferença é considerada significativa pela comunidade científica, que vem acompanhando uma tendência de aceleração nos últimos anos.
Essa variação na duração dos dias não é novidade, mas vem se tornando mais frequente e intensa desde 2020, quando começaram a ser registrados sucessivos recordes de dias mais curtos. O fenômeno é monitorado com extrema precisão graças ao uso de relógios atômicos — instrumentos altamente sofisticados capazes de detectar desvios de tempo na casa dos milissegundos.
O que está acontecendo com a rotação da Terra?
Embora, em termos gerais, a Terra esteja desacelerando sua rotação ao longo de milhões de anos — uma consequência direta das interações gravitacionais com a Lua e de fenômenos internos do planeta —, variações temporárias também ocorrem e podem fazer com que a velocidade de rotação aumente ligeiramente por curtos períodos.
Fernando Roig, pesquisador do Observatório Nacional, explica que fatores como terremotos, deslocamentos de massa nos oceanos e atmosfera, alterações no núcleo terrestre, oscilação dos polos geográficos e até a maré atmosférica podem interferir momentaneamente na rotação. “Mudanças sazonais e climáticas em grande escala geram redistribuições de massa no planeta, afetando diretamente seu momento de inércia”, afirma.
O fenômeno das marés atmosféricas, semelhante às marés oceânicas, está diretamente relacionado à movimentação de grandes massas de ar provocada por alterações térmicas globais. Isso pode modificar o equilíbrio da Terra e influenciar a velocidade com que ela gira sobre seu próprio eixo.
Por que a Terra gira mais rápido em alguns dias?
Entre os diversos fatores identificados, a posição da Lua em relação ao equador terrestre também exerce influência direta sobre a velocidade da rotação do planeta. Quando o satélite natural se encontra mais distante, especialmente nos extremos Norte ou Sul, há uma tendência para que a Terra gire com maior rapidez. Isso contribui para os fenômenos de encurtamento do dia observados em datas específicas, como neste 9 de julho, além dos dias 22 de julho e 5 de agosto — outras datas com previsão de aceleração significativa.
Mesmo com essas pistas, os cientistas ainda não possuem uma explicação conclusiva sobre por que essas acelerações momentâneas têm se tornado mais recorrentes nos últimos anos. Os especialistas destacam que as variações de milissegundos não causam impacto perceptível no cotidiano humano, mas são de grande interesse científico, principalmente por seu potencial impacto em sistemas globais de medição de tempo e geolocalização.
Recordes e medições precisas com tecnologia atômica
O parâmetro usado para mensurar essas alterações na duração do dia é chamado de Length of Day (LOD) — que mede quanto tempo, em milissegundos, a rotação real da Terra difere das 24 horas convencionais. Até o início da década de 2020, o menor LOD já registrado era de -1,05 milissegundo, valor registrado antes do início da atual sequência de dias mais curtos.
Em 5 de julho de 2024, foi registrado o dia mais curto desde o início das medições modernas, com LOD de -1,66 milissegundo. A expectativa é que os valores de julho e agosto de 2025 mantenham essa tendência de encurtamento.
Desde a década de 1950, com a introdução dos relógios atômicos, tornou-se possível registrar essas flutuações com altíssima precisão. Hoje, qualquer alteração na rotação terrestre pode ser percebida com precisão de até bilionésimos de segundo. Isso tem implicações para tecnologias que dependem de sincronia temporal extrema, como satélites de navegação, sistemas de comunicação e redes financeiras internacionais.
Um passado com dias mais curtos e um futuro incerto
As mudanças na rotação da Terra não são exclusividade dos tempos modernos. Segundo o Observatório Nacional, há cerca de 600 milhões de anos, durante uma era anterior à atual, um dia na Terra durava aproximadamente 21 horas. Isso evidencia como o movimento do planeta está em constante evolução, mesmo que, em escalas humanas, pareça imutável.
As flutuações atuais, porém, trazem novas questões para os cientistas. Embora as variações ainda estejam dentro de padrões naturais, a frequência crescente de dias mais curtos pode sinalizar mudanças mais complexas em curso — desde alterações climáticas até instabilidades geofísicas ainda não completamente compreendidas.
O acompanhamento constante dessas variações é fundamental para antecipar possíveis ajustes no “tempo atômico universal” e manter em sincronia todos os sistemas que dependem de uma marcação precisa das horas.
Enquanto isso, nesta quarta-feira, 9 de julho, a Terra girará um pouco mais rápido — um pequeno lembrete de que, mesmo em escala milimétrica, o planeta está em constante transformação.
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Autoria: Sarah Pacini

