Portal E-Brasil

Recém-nascida com cardiopatia morre durante cirurgia na Santa Casa

Recém-nascida com cardiopatia morre durante cirurgia na Santa Casa

Bebê esperava por operação cardíaca de alta complexidade; família denuncia demora no agendamento do procedimento

A pequena Lorena, recém-nascida diagnosticada com uma grave cardiopatia congênita, não resistiu à cirurgia de altíssimo risco realizada na tarde desta terça-feira (8), na Santa Casa de Campo Grande (MS). A morte da bebê comoveu familiares e gerou questionamentos sobre o tempo de espera até o procedimento, que foi adiado por diversas razões desde o nascimento da criança, em 9 de junho.

Lorena nasceu com atresia tricúspide, uma condição rara e severa em que a válvula tricúspide do coração não se forma corretamente, dificultando o fluxo de sangue do átrio para o ventrículo direito. Essa anomalia exige cirurgia precoce, geralmente nos primeiros dias ou semanas de vida, pois compromete diretamente a oxigenação do sangue e a sobrevivência do recém-nascido.

Esperas, infecções e adiamentos

A trajetória da bebê até a sala de cirurgia foi marcada por uma série de obstáculos. Em entrevista concedida ao portal Midiamax no início do mês, a mãe de Lorena descreveu uma angustiante sequência de adiamentos e instabilidade clínica.

O primeiro exame preparatório foi agendado para 13 de junho, mas foi adiado por conta de um feriado. A unidade hospitalar teria o costume de agendar exames apenas às terças e sextas-feiras, exceto em datas comemorativas. O exame foi realizado apenas no dia 17 de junho. No entanto, durante o procedimento, Lorena sofreu uma parada cardíaca e precisou ser reanimada. O exame foi remarcado para o dia 20, mas novamente não pôde ser realizado devido à fragilidade da recém-nascida.

A situação se agravou com o diagnóstico de uma infecção neonatal, que exigiu sete dias de tratamento com antibióticos. Nesse período, a bebê passou a ser medicada com Alprostadil, droga utilizada para manter o canal arterial aberto e garantir o mínimo de oxigenação. Além disso, Lorena recebia transfusões de plasma a cada 12 horas, com o objetivo de melhorar a coagulação sanguínea — uma etapa essencial antes de qualquer cirurgia cardíaca.

“É impossível descrever a angústia”

Em um dos depoimentos mais emocionantes, a mãe relatou, no dia 2 de julho, que a filha finalmente estava estável e pronta para a cirurgia. “Saiu o resultado do exame de coagulação e Lorena está pronta para a cirurgia, mas seguimos aguardando o agendamento da equipe cirúrgica. É impossível descrever a angústia de uma mãe que vê a filha pronta para lutar pela vida, mas presa numa espera injustificável”, desabafou.

Mesmo após a estabilização do quadro clínico e com os exames em mãos, a família afirmou que ainda enfrentava incertezas quanto à data da cirurgia. A sensação era de impotência diante da burocracia e da falta de definição por parte do hospital.

Cirurgia finalmente realizada, mas sem sucesso

A tão aguardada cirurgia foi marcada para esta terça-feira, 8 de julho. No entanto, o procedimento — classificado como de altíssima complexidade — não teve o desfecho esperado. Lorena não resistiu à intervenção cirúrgica e faleceu na própria unidade hospitalar.

Em nota oficial, a Santa Casa de Campo Grande informou que, desde o nascimento, a paciente foi acompanhada por uma equipe multidisciplinar formada por cardiologistas pediátricos, neonatologistas, cirurgiões pediátricos e neurocirurgiões. O hospital alegou que seguiu rigorosamente os protocolos clínicos e que a cirurgia foi planejada com base em condições ideais, visando oferecer a melhor chance de sobrevida à paciente.

Ainda segundo a instituição, a infecção neonatal e a necessidade de exames específicos contribuíram para o adiamento do procedimento. “Todas as ações foram tomadas com base no estado clínico da paciente e com a autorização dos responsáveis”, afirma o comunicado.

Reflexão sobre a espera e o acesso à saúde

O caso de Lorena lança luz sobre um problema recorrente no sistema público de saúde brasileiro: o tempo de espera para procedimentos urgentes e a dificuldade em agendar cirurgias de alta complexidade, mesmo em casos pediátricos críticos. A falta de estrutura, de equipes disponíveis em tempo integral e de coordenação entre setores pode custar vidas, especialmente quando o tempo é um fator decisivo.

Embora o hospital alegue ter seguido os protocolos técnicos, a dor da família e a sucessão de eventos relatados levantam questões éticas e estruturais. Para especialistas, a existência de protocolos rígidos não pode ignorar a urgência clínica — especialmente no caso de cardiopatias congênitas em recém-nascidos, onde cada hora pode ser determinante para a vida.

O nome de Lorena agora se soma a tantas outras histórias de famílias que enfrentam não apenas a dor de uma doença grave, mas também a lentidão do sistema de saúde. A comoção em torno do caso deve reabrir o debate sobre o preparo das instituições públicas para lidar com cirurgias pediátricas de alta complexidade e sobre o direito à vida garantido pela Constituição.

Para mais notícias sobre o que acontece em Campo Grande, confira o Portal E-Brasil.

Autoria: Sarah Pacini

Arquivos Relacionados

Deixe um comentário