Com mais de 270 mil domicílios alugados, o aluguel se consolida como segunda principal forma de moradia no Estado, atrás apenas dos imóveis quitados. Preços também seguem em alta.

A realidade de morar de aluguel se tornou cada vez mais comum em Mato Grosso do Sul. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam uma transformação significativa no perfil de moradia dos sul-mato-grossenses nos últimos oito anos. Segundo levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), o número de imóveis ocupados por inquilinos subiu 54,3% entre 2016 e 2024, passando de 175 mil para 270 mil residências alugadas.
Atualmente, um em cada quatro domicílios do Estado (26,4%) está sob regime de aluguel, o que consolida essa modalidade como a segunda mais comum de moradia em Mato Grosso do Sul. O número só é superado pelo total de imóveis já quitados, que representam 51,6% do total de 1 milhão de domicílios permanentes no Estado.
Mudança de perfil habitacional
Em 2016, a maioria das famílias sul-mato-grossenses vivia em casas próprias já pagas — eram 59,4% dos domicílios naquela época. Oito anos depois, essa proporção encolheu para 51,6%, enquanto o aluguel cresceu em ritmo acelerado.
Além dos imóveis quitados e alugados, o levantamento também aponta que 9,8% das moradias no Estado ainda estão sendo financiadas. Outras 11,8% são casas cedidas — geralmente por familiares ou empregadores — e uma pequena parcela, 0,4%, vive em condições irregulares, como ocupações.
Essa mudança no cenário de moradia acompanha um processo nacional de encarecimento dos imóveis, dificuldades de acesso ao crédito imobiliário e uma maior mobilidade da população, especialmente nos centros urbanos.
Capital lidera aumento de preços
Em Campo Grande, a capital sul-mato-grossense, o impacto dessa transformação é ainda mais evidente — principalmente no bolso. De acordo com o Índice FipeZAP, que monitora os preços do mercado imobiliário nas principais cidades brasileiras, o valor médio do aluguel na cidade chegou a R$ 37,39 por metro quadrado em junho de 2025. O aumento foi de 0,42% em apenas um mês e 12,69% no acumulado do ano.
Entre os bairros mais valorizados da Capital, o destaque vai para o Tiradentes, que registrou uma alta de 33,2% nos últimos 12 meses. Lá, o metro quadrado para locação está em torno de R$ 34,20. Já no bairro São Francisco, a valorização foi de 5,4%, com o metro quadrado atingindo R$ 35,40. O tradicional Jardim dos Estados permanece como um dos bairros mais caros para alugar na cidade, com valor estável em R$ 91,00/m².
Em contrapartida, bairros como Pioneiros e Rita Vieira apresentaram variações negativas ou estabilidade, o que aponta para uma possível desaceleração nos preços em determinadas regiões.
Por que o aluguel cresce tanto?
Especialistas em habitação apontam múltiplas causas para esse crescimento do número de pessoas morando de aluguel em Mato Grosso do Sul. Entre os fatores estão:
- Desaceleração do crédito imobiliário: com juros mais altos nos últimos anos, financiar a casa própria se tornou menos acessível;
- Mudança de estilo de vida: sobretudo entre os jovens, que priorizam mobilidade, flexibilidade e evitam compromissos financeiros de longo prazo;
- Dificuldades econômicas: o aumento do custo de vida, a informalidade no trabalho e a queda no poder de compra dificultam a aquisição da casa própria;
- Urbanização acelerada: a migração de moradores para os centros urbanos, onde os imóveis são mais caros, empurra muitos para o aluguel.
Segundo urbanistas, há também um aumento na oferta de imóveis para locação, o que torna o aluguel uma opção mais viável para quem não pretende ou não consegue comprar. “O mercado de locação cresceu não só por necessidade, mas também como uma escolha estratégica em tempos de instabilidade econômica”, comenta André Bortolazzi, economista especializado em habitação urbana.
Reflexos sociais e econômicos
O crescimento expressivo dos contratos de aluguel traz consequências diretas para a economia local. Famílias comprometem uma parcela cada vez maior de sua renda mensal com moradia, o que limita o consumo em outras áreas e acentua desigualdades. Além disso, o aumento do número de inquilinos pressiona o mercado imobiliário e tende a manter os valores elevados, sobretudo nas regiões com maior demanda.
Por outro lado, há oportunidades. O setor de aluguéis se mostra aquecido e atrativo para investidores que desejam rentabilizar imóveis, especialmente em cidades como Campo Grande, onde a demanda continua em expansão.
Expectativas para os próximos anos
Com os preços ainda em ascensão e o financiamento à casa própria em ritmo lento, a tendência é que o número de famílias morando de aluguel continue crescendo. Para amenizar os impactos negativos, especialistas defendem políticas públicas que estimulem a construção de moradias populares, regulem o mercado de aluguéis e ampliem o acesso ao crédito habitacional de forma responsável.
Enquanto isso, para milhares de famílias sul-mato-grossenses, o aluguel já deixou de ser uma etapa temporária e se tornou a principal forma de moradia.
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Autoria: Sarah Pacini

